25 de junho de 2026

Do individualismo metodológico aos juros mais altos do mundo, por Mauricio Luperi

Embora independente do governo, o BC pode tornar-se crescentemente dependente das interpretações produzidas pelo próprio mercado financeiro
Banco Central - Foto de Rafa Neddermeyer - Agência Brasil

A política monetária brasileira baseia-se no individualismo metodológico, que foca nas decisões individuais para explicar a economia.
O Banco Central, apesar da autonomia formal, acaba reagindo às expectativas do mercado financeiro, conceito chamado autonomia capturada.
A dominância epistemológica e financeira reforça taxas de juros altas como técnica, ocultando efeitos distributivos e escolhas políticas.

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Do individualismo metodológico aos juros mais altos do mundo

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por Mauricio Luperi

Quando discutimos a taxa Selic, quase sempre o debate gira em torno do déficit público, da inflação, da dívida ou das expectativas do mercado. São temas importantes, mas raramente se faz uma pergunta mais fundamental: de onde vem a forma como o Banco Central interpreta esses problemas? Afinal, toda política econômica repousa sobre uma determinada maneira de compreender o funcionamento da sociedade.

O pensamento econômico dominante parte de um pressuposto aparentemente simples: a sociedade pode ser explicada pelas decisões dos indivíduos. Essa ideia, conhecida como individualismo metodológico, tornou-se um dos pilares da economia neoclássica moderna. Em vez de analisar relações entre grupos sociais, instituições ou classes, procura-se compreender a economia como o resultado da soma das escolhas individuais de consumidores e empresas.

À primeira vista, essa hipótese parece apenas uma simplificação necessária para construir modelos econômicos. No entanto, ela produz consequências importantes. Se a sociedade é apenas a soma dos indivíduos, desaparecem do centro da análise fenômenos como relações de poder, conflitos distributivos, estruturas institucionais, interesses coletivos e a própria história. A economia passa a ser tratada como um conjunto de agentes independentes realizando escolhas racionais.

Essa visão encontrou sua expressão matemática mais sofisticada no modelo de equilíbrio geral de Arrow-Debreu, desenvolvido por Kenneth Arrow e Gérard Debreu. O modelo demonstra, sob um conjunto bastante restritivo de hipóteses, a existência de um equilíbrio competitivo em que decisões individuais podem ser compatibilizadas por meio dos preços. Seu enorme mérito matemático acabou conferindo também grande prestígio à visão de mundo que lhe servia de fundamento: a ideia de que mercados competitivos tendem naturalmente ao equilíbrio quando os indivíduos agem racionalmente.

Nas décadas seguintes, essa mesma matriz intelectual foi aprofundada pela teoria das expectativas racionais, proposta inicialmente por John Muth e incorporada à macroeconomia por Robert Lucas Jr., Thomas Sargent e outros autores da chamada nova macroeconomia clássica. Segundo essa abordagem, os agentes econômicos utilizam todas as informações disponíveis e, em média, antecipam corretamente o comportamento da economia e das autoridades monetárias.

Observe-se a sequência lógica. Primeiro, o individualismo metodológico afirma que a sociedade pode ser compreendida pelas decisões individuais. Depois, o equilíbrio geral formaliza matematicamente a ideia de que essas decisões podem convergir para um equilíbrio competitivo. Em seguida, as expectativas racionais acrescentam que esses mesmos indivíduos são capazes de antecipar as políticas econômicas. O resultado é uma visão na qual os mercados deixam de ser apenas espaços de troca e passam a ser considerados os principais processadores de informação da economia.

Nesse processo, a própria natureza da inflação também muda. Em vez de ser compreendida como um fenômeno complexo, influenciado por estrutura produtiva, conflito distributivo, choques de oferta, indexação ou poder de mercado, ela passa a ser interpretada principalmente como uma questão de expectativas. Se empresas e consumidores acreditarem que a inflação permanecerá elevada, agirão de forma compatível com essa expectativa, tornando-a uma espécie de profecia autorrealizável.

É justamente nesse ponto que essa construção teórica encontra a política monetária brasileira. Se a inflação depende fundamentalmente das expectativas, então a principal missão do Banco Central passa a ser convencer os agentes econômicos — especialmente o mercado financeiro — de que permanecerá suficientemente rigoroso no combate à inflação. A taxa básica de juros transforma-se, assim, não apenas em um instrumento para conter a demanda, mas também em um poderoso sinal de credibilidade.

É nesse ambiente que proponho o conceito de autonomia capturada. Embora formalmente independente do governo, o Banco Central pode tornar-se crescentemente dependente das interpretações produzidas pelo próprio mercado financeiro acerca da inflação, dos juros futuros e dos riscos fiscais. Em vez de liderar a formação das expectativas, acaba frequentemente reagindo a elas. Em outras palavras, o Banco Central deixa de ser o principal agente de ancoragem das expectativas e passa, em alguma medida, a ser ancorado pelas expectativas do mercado.

Essa captura, contudo, não é apenas institucional. Ela é também intelectual. Daí a importância do conceito de dominância epistemológica. Ao longo das últimas décadas, um conjunto relativamente homogêneo de modelos teóricos passou a ocupar posição dominante nas universidades, nos bancos centrais, nos organismos internacionais, nas consultorias econômicas e no próprio mercado financeiro. Como consequência, determinadas interpretações passaram a ser tratadas como praticamente incontestáveis, enquanto abordagens alternativas foram progressivamente marginalizadas.

Por sua vez, tanto a autonomia capturada quanto a dominância epistemológica se desenvolvem em um contexto mais amplo que denomino dominância financeira. Nesse ambiente, a preservação dos rendimentos da riqueza financeira passa a exercer influência crescente sobre as instituições econômicas e sobre a própria formulação da política monetária. A manutenção de taxas reais de juros persistentemente elevadas deixa de ser vista como uma escolha política com efeitos distributivos e passa a ser apresentada como simples exigência técnica.

Essa talvez seja a principal consequência dessa longa trajetória intelectual. À medida que o indivíduo substitui a sociedade, o equilíbrio substitui o conflito, as expectativas substituem as instituições e a credibilidade substitui o debate distributivo, a política monetária deixa de ser percebida como uma escolha entre interesses sociais distintos. Ela passa a parecer apenas a aplicação objetiva de um modelo científico.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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