30 de junho de 2026

Afinal, quem escolherá o próximo presidente do Brasil?, por Gustavo Tapioca

Artigo de Gizzi afirma que a eleição brasileira será crucial para consolidar a expansão da ultradireita liderada por Trump no continente.
Donald Trump por Gage Skidmore - Flickr

Donald Trump compartilhou artigo que destaca a eleição de 2026 no Brasil como chave para a ultradireita na América Latina.
O texto questiona a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes da disputa começar, levantando suspeitas sem provas.
A mudança na Casa Branca para Trump em 2026 pode influenciar a legitimidade da eleição brasileira e o reconhecimento do resultado.

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Afinal, quem escolherá o próximo presidente do Brasil? 

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Donald Trump resolveu dizer o que antes aparecia apenas como hipótese. 

por Gustavo Tapioca

Ao compartilhar um artigo que trata o Brasil como a principal batalha política ainda em aberto na América Latina, o presidente dos Estados Unidos antecipa dúvidas sobre o sistema eleitoral e transforma a disputa de 2026 em tema explícito de sua estratégia continental. 

O artigo compartilhado por Trump em sua rede social apresenta a eleição presidencial brasileira de 2026 como o próximo grande teste da influência da ultradireita continental na América Latina. 

Não se trata de um detalhe. 

Não se trata de uma simples opinião publicada em um site estrangeiro. 

Trata-se de um texto escolhido, aprovado e republicado pelo homem que ocupa a Casa Branca e governa a maior potência militar do mundo. 

E o que o artigo diz merece atenção. 

O Brasil será o nono triunfo? 

Segundo a análise compartilhada por Trump, o Brasil é hoje a principal batalha política ainda em aberto na América Latina. 

O texto afirma que Trump e seus aliados acumularam oito triunfos políticos em sete anos na região e sugere que uma vitória da direita no Brasil alteraria profundamente o mapa político continental. 

Em outras palavras, o Brasil aparece não como mais um país latino-americano, mas como a peça decisiva para completar a virada política continental celebrada por Trump e seus aliados. 

Até aí já seria uma declaração politicamente relevante. 

O trecho mais grave vem depois 

O artigo afirma existir um intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro e questiona se a disputa de 2026 será considerada livre e justa por todos os envolvidos. 

A eleição ainda não começou. 

A campanha oficial ainda não começou. 

Não existe qualquer denúncia concreta de fraude sobre as urnas eletrônicas em eleições anteriores. 

Mesmo assim, a suspeita já foi colocada sobre a mesa pelo presidente dos Estados Unidos. 

E é justamente aí que o episódio deixa de ser apenas mais uma manifestação de preferência ideológica. 

A pergunta inevitável passa a ser outra 

Por que levantar dúvidas sobre a legitimidade da eleição antes mesmo de ela acontecer? 

A pergunta torna-se ainda mais relevante diante da experiência recente. 

Foi exatamente esse tipo de narrativa que antecedeu a contestação da eleição norte-americana de 2020 por Donald Trump e a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores do então presidente, insuflados por sua retórica, contestaram sua derrota e interromperam a sessão do Congresso que certificaria a vitória de Joe Biden. 

Foi exatamente esse tipo de narrativa que alimentou os ataques sistemáticos do bolsonarismo às urnas eletrônicas. 

E foi exatamente esse ambiente de desconfiança fabricada que desembocou nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. 

Há um detalhe adicional que não pode ser ignorado 

A tentativa bolsonarista de ruptura institucional encontrou, em 2022 e 2023, uma Casa Branca governada por Joe Biden. 

Washington reconheceu rapidamente a vitória de Lula e atuou em defesa da preservação da ordem constitucional brasileira. 

Em 2026, o cenário internacional será outro. 

Quem ocupa a Casa Branca é Donald Trump. 

O mesmo líder que se recusou a reconhecer sua derrota eleitoral em 2020. 

O mesmo líder cuja retórica ajudou a produzir a invasão do Capitólio. 

O mesmo líder que agora compartilha um artigo que coloca sob suspeita a eleição brasileira antes mesmo de ela acontecer. 

O texto compartilhado por Trump ajuda a compreender algo maior 

Não se trata apenas de Lula. 

Não se trata apenas de Flávio Bolsonaro. 

O artigo de John Gizzi, publicado em 22 de junho e compartilhado por Trump em sua conta oficial na Truth Social, descreve o Brasil como a potência política da região e sugere que a eleição de 2026 poderá ser a disputa mais importante do hemisfério ocidental. 

Trump concorda com Gizzi quando ele descreve o Brasil como o “próximo grande teste” para a influência política da direita continental na América Latina. 

O artigo afirma que a eleição brasileira será crucial para consolidar a expansão da ultradireita liderada por Trump no continente. 

Ele celebra uma sequência de vitórias eleitorais da nova direita latino-americana, citando lideranças como Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, Nayib Bukele, em El Salvador, além de outros governos e movimentos alinhados ao campo conservador continental. 

Chegou a vez do Brasil 

Não por acaso. 

O Brasil é a maior economia da América Latina. 

É membro dos BRICS. 

É o principal parceiro comercial da China na região. 

E ocupa posição central em qualquer projeto de reorganização geopolítica do continente. 

Talvez por isso o Brasil apareça, no texto compartilhado por Trump, como um dos principais desafios ainda pendentes para a consolidação desse novo mapa político regional. 

A questão, portanto, já não é apenas quem vencerá a eleição em outubro de 2026. 

A questão é outra. 

O que acontecerá se as urnas reelegerem Lula? 

O resultado será reconhecido como expressão legítima da vontade popular? 

Ou a suspeição lançada antecipadamente servirá para alimentar uma nova contestação eleitoral? 

Donald Trump não compartilhou apenas um artigo. 

Compartilhou um roteiro político. 

E nele o Brasil aparece como a próxima batalha. 

Afinal, quem escolherá o próximo presidente do Brasil: os eleitores brasileiros ou os estrategistas políticos de Trump, assessorados por Eduardo e Flávio Bolsonaro? 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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