A moeda como instituição: por que a Argentina não pode simplesmente copiar o Plano Real
por Maurício Martinelli Luperi
O recente artigo de André Lara Resende(1) sobre an Argentina suscita um debate extremamente oportuno. Seu diagnóstico parte de uma constatação conhecida: um país que figurava entre as economias mais prósperas do mundo no início do século XX transformou-se em uma economia marcada por recorrentes crises inflacionárias e cambiais. Sua principal conclusão é igualmente relevante: a dolarização não representa uma solução sustentável e a experiência brasileira do Plano Real — especialmente a criação da Unidade Real de Valor (URV) — poderia oferecer importantes lições para a reconstrução da moeda argentina.
Concordo com boa parte dessa análise.
André Lara Resende nunca foi defensor da dolarização. Ao contrário. Sua reflexão recente aproxima-se de uma visão segundo a qual a moeda nacional constitui um dos principais instrumentos da soberania econômica do Estado, posição que dialoga, em diversos aspectos, com autores associados à Teoria Monetária Moderna (MMT). Nesse ponto, há ampla convergência: abrir mão da própria moeda significa reduzir significativamente a capacidade de formular políticas monetária, fiscal e cambial voltadas ao desenvolvimento nacional.
Mas justamente por compartilhar dessa preocupação acredito que uma questão ainda precisa ser enfrentada.
Será que a Argentina enfrenta hoje o mesmo tipo de problema monetário que o Brasil enfrentava antes do Plano Real?
A resposta, a meu ver, é não.
O Plano Real foi muito mais que a URV
Frequentemente se afirma que o Plano Real derrotou a inflação graças à URV.
A afirmação é verdadeira, mas incompleta.
A estabilização brasileira resultou da combinação entre ajuste fiscal, reorganização do sistema financeiro, administração cambial, política monetária, reformas institucionais e da extraordinária inovação representada pela URV.
Mais importante ainda: tudo isso ocorreu preservando a moeda nacional.
A URV não substituiu o real.
Ela preparou sua reconstrução.
Esse aspecto costuma ser esquecido.
A grande contribuição da teoria da inflação inercial
A experiência brasileira produziu uma das mais importantes contribuições latino-americanas à teoria econômica.
Muito antes do Plano Real, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Yoshiaki Nakano chamaram atenção para a existência dos chamados fatores mantenedores da inflação, distinguindo-os dos fatores aceleradores e sancionadores. Essa interpretação abriu espaço para compreender que a inflação brasileira possuía dinâmica própria, alimentada pela indexação da economia.
Posteriormente, Francisco Lopes, Pérsio Arida e André Lara Resende aprofundaram essa abordagem, demonstrando como salários, contratos financeiros, aluguéis, tarifas públicas e inúmeros preços eram continuamente reajustados por mecanismos formais de indexação.
Foi precisamente para romper esse mecanismo que nasceu a URV.
Em outras palavras, a teoria da inflação inercial foi construída para explicar uma economia altamente indexada.
Mas será que a Argentina apresenta exatamente essa mesma estrutura?
Da inflação inercial à economia bimonetária
Aqui talvez esteja a principal diferença entre os dois países.
A Argentina possui inflação elevada há décadas.
Também apresenta mecanismos de indexação.
Entretanto, seu principal mecanismo de proteção patrimonial parece ter seguido outro caminho.
Ao longo de sucessivas crises cambiais, famílias passaram a poupar em dólares.
Imóveis passaram a ser negociados em dólares.
Empresas passaram a avaliar investimentos em dólares.
Contratos privados passaram a utilizar o dólar como referência.
Em muitos casos, o dólar deixou de ser apenas uma moeda estrangeira.
Passou a exercer parte das funções econômicas que normalmente pertencem à moeda nacional.
Talvez este seja o verdadeiro desafio argentino.
Enquanto o Brasil dos anos 1980 era predominantemente uma economia indexada, a Argentina transformou-se progressivamente em uma economia bimonetária.
A diferença não é apenas terminológica.
Ela altera completamente a natureza do problema.
No Brasil, a inflação persistia porque a indexação reproduzia automaticamente os reajustes de preços.
Na Argentina, a inflação convive com outro fenômeno igualmente relevante: a perda estrutural de confiança no peso.
A questão deixa de ser apenas desindexar preços.
Passa a ser reconstruir a própria moeda.
Histórias institucionais diferentes
Esse ponto talvez também mereça aprofundamento.
É correto afirmar que a Argentina figurava entre as economias mais prósperas do mundo no início do século XX.
Mas essa prosperidade esteve fortemente associada ao extraordinário dinamismo do setor agroexportador, à fertilidade das terras, ao ingresso maciço de capitais britânicos, à expansão ferroviária e à imigração europeia.
Não se tratava necessariamente de um processo consolidado de industrialização nacional.
Brasil e Argentina também construíram trajetórias institucionais bastante distintas.
No Brasil, apesar da herança escravocrata e da especialização agroexportadora, consolidou-se gradualmente um Estado nacional relativamente forte, um empresariado doméstico relevante e uma relação de maior permanência da sociedade com sua própria moeda.
Na Argentina, a recorrência das crises cambiais, a elevada exposição ao financiamento externo e a preferência crescente pelo dólar acabaram moldando outra cultura monetária.
Essa diferença ajuda a explicar por que simplesmente transplantar instrumentos monetários entre os dois países pode produzir resultados muito diferentes.
A moeda também é uma instituição
Talvez a principal lição do Plano Real não tenha sido apenas derrotar a inflação.
Seu maior legado foi reconstruir a confiança em uma instituição.
A moeda.
Uma moeda nacional não nasce apenas de uma decisão legal.
Ela depende de confiança social.
Depende da credibilidade das instituições.
Depende da capacidade do Estado.
Depende da estabilidade macroeconômica.
Depende da própria estratégia de desenvolvimento.
Por isso, antes de perguntar se a Argentina deveria criar uma “URV argentina”, talvez seja mais importante responder outras perguntas.
Como fazer famílias voltarem a poupar em pesos?
Como desenvolver mercados financeiros de longo prazo em moeda nacional?
Como reduzir a dolarização patrimonial?
Como convencer empresas a investir novamente utilizando o peso como unidade de conta?
Essas perguntas vão muito além da inflação.
Elas dizem respeito à reconstrução das funções econômicas da moeda nacional.
Um debate que continua aberto
O artigo de André Lara Resende presta uma contribuição importante ao recolocar a soberania monetária no centro do debate argentino.
Mas talvez o desafio seja ainda maior do que aquele enfrentado pelo Brasil em 1994.
O Plano Real respondeu brilhantemente ao problema de uma economia altamente indexada.
A Argentina enfrenta, além da inflação, o desafio de reconstruir uma moeda nacional cuja confiança foi progressivamente substituída pelo dólar ao longo de décadas.
Por isso, a experiência brasileira continua sendo uma fonte extraordinária de aprendizado.
Mas talvez sua principal lição seja justamente esta: políticas monetárias não podem ser copiadas mecanicamente.
Cada processo de estabilização precisa nascer da história institucional da própria sociedade.
No caso argentino, estabilizar preços será apenas parte da solução.
Reconstruir o peso como instituição nacional talvez seja o verdadeiro começo de um novo projeto de desenvolvimento.
(1) https://andrelararesende.substack.com/p/argentina-de-milei
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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