O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou uma manifestação formal ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) pedindo o adiamento, por 180 dias, da aplicação de novas tarifas de 25% contra exportações brasileiras, sugerindo que a medida seja postergada para depois das eleições presidenciais de outubro no Brasil.
No documento, encaminhado nesta quarta-feira (1º), o pré-candidato do PL à Presidência argumenta que o tarifaço anterior, aplicado pelos EUA em 2025, não surtiu os efeitos esperados e, ao contrário, fortaleceu politicamente o governo Lula (PT) em ano eleitoral.
“As tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que defendem uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, escreveu Flávio.
Pesquisas eleitorais
Para sustentar a tese, o senador citou dados de pesquisas de opinião no documento: “Pesquisas de opinião no Brasil mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu justamente nos períodos em que a pressão exercida pelas tarifas americanas foi mais intensa.” Segundo ele, o levantamento mais recente aponta o governo com 39% das intenções de voto contra 29% do próprio Flávio em um cenário de primeiro turno, além de indicar alta na aprovação do governo desde abril e ampliação de sua vantagem em eventual segundo turno.
O senador incluiu ainda um gráfico com a evolução das pesquisas para reforçar o argumento e afirmou que Lula tem enquadrado as tarifas como ataques à soberania nacional, adotando uma postura de confronto com os EUA também por “inclinação ideológica”.
Reunião com Trump e Rubio
Flávio lembrou que se reuniu recentemente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e com o secretário de Estado, Marco Rubio, para tratar do tema. Ele também se inscreveu para discursar na audiência pública da investigação, marcada para o dia 7 de julho, em Washington.
O documento se refere à investigação “Seção 301” da Lei de Comércio de 1974, aberta em julho de 2025 para apurar práticas brasileiras relacionadas a comércio digital (Pix), tarifas consideradas injustas, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.
Com base nessa investigação, o USTR propôs as novas tarifas de 25%, cuja decisão final cabe a Trump após consulta ao setor privado.
Processo de Jair Bolsonaro
O texto faz referência ao tarifaço anterior, de 50%, imposto por Trump em 2025 em meio à atuação do então deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para pressionar ministros do STF no processo contra o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. À época, tanto Eduardo quanto Flávio condicionaram o fim das tarifas a uma eventual anistia. Em julho de 2025, Eduardo chegou a agradecer publicamente a Trump pela medida. “Obrigado, presidente Donald J. Trump. Espero que as autoridades brasileiras agora tratem esses assuntos com a seriedade que merecem.”
Agora, Flávio argumenta que aquela pressão foi ineficaz e não alterou decisões do STF nem no caso de Jair Bolsonaro nem na ação sobre o Marco Civil da Internet.
Alternativas às tarifas
Em vez de sobretaxas generalizadas, o senador defende medidas mais direcionadas, como sanções financeiras e restrições de visto baseadas na Lei Magnitsky, nos moldes das já aplicadas ao ministro do STF Alexandre de Moraes, para atingir especificamente autoridades apontadas como responsáveis pelas práticas contestadas, sem penalizar toda a população e o setor produtivo brasileiro.
Sobre o Pix, tema que o governo Lula tem usado como bandeira para desgastar politicamente o senador, Flávio defende o sistema de pagamentos, classificando-o como “uma das realizações mais emblemáticas do governo Jair Bolsonaro”.
Para atender às demandas de Washington, no entanto, propõe a aprovação de uma lei que proíba a interconexão do Pix com “arranjos não ocidentais de liquidação transfronteiriça”, referência à China.
Negociação
Como saída para o impasse, Flávio sugere uma suspensão das tarifas por 180 dias, prorrogável por mais 90 dias em caso de progresso nas negociações, com retomada automática das taxas caso o governo brasileiro não negocie de boa-fé.
“O governo atual teria esse período para se engajar em negociações de boa-fé, sem a perspectiva de dividendos eleitorais, ou enfrentaria as consequências da retomada dessas ações”, diz o documento.
Segundo o senador, esse prazo também daria à oposição no Congresso tempo e legitimidade para pressionar o governo a intensificar as negociações e, em caso de vitória da oposição nas eleições, o presidente eleito nomearia imediatamente um novo negociador.
Resposta
Também nesta quarta-feira, o governo Lula enviou sua própria resposta à investigação do USTR. No documento, assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o Brasil afirma que os americanos não comprovaram que atos, políticas ou práticas brasileiras sejam discriminatórios ou representem barreiras ao comércio dos EUA.
Apesar das críticas de Flávio à condução do caso, o governo brasileiro montou um grupo de trabalho com políticos, economistas e diplomatas para negociar com autoridades americanas. O grupo já participou de quatro rodadas de conversas, a mais recente realizada nesta quinta-feira (2).
Efeitos políticos
Políticos do centrão, e até aliados do próprio Flávio, avaliam que o episódio das tarifas representa um revés para a candidatura presidencial do senador, que passou a ser alvo direto do governo Lula desde o anúncio da medida, ocorrido pouco depois de uma visita do parlamentar à Casa Branca.
Flávio, por sua vez, afirma ter pedido pessoalmente a Trump que abandonasse a aplicação de novas tarifas, e tem tentado resgatar a pauta das facções criminosas, tema que lhe rendeu dividendos políticos no passado.
*Com informações do g1 e Folha de São Paulo.
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