2 de julho de 2026

Os 105 anos do Partido Comunista da China, por Renato Peneluppi

PCCh foi responsável por conduzir a China da fragmentação política, da pobreza e do "século de humilhação" à condição de potência socialista
Vista de ponte e cidade de Chongqing, China (foto Monitor Mercantil) - Reprodução

O Partido Comunista da China celebra 105 anos, destacando sua trajetória de fragmentação à potência socialista moderna.
Xi Jinping reafirma a missão histórica do PCCh, vinculando passado e desafios atuais da política chinesa no século XXI.
O discurso enfatiza liderança do Partido, inovação, segurança nacional e papel da China na governança global multipolar.

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Os 105 anos do Partido Comunista da China: uma história que orienta a política do século XXI

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por Renato Peneluppi

A celebração dos 105 anos do Partido Comunista da China (PCCh) e o discurso proferido por Xi Jinping em 1º de julho de 2026 sintetizam a narrativa histórica que o Partido construiu sobre sua própria trajetória ao longo de mais de um século. Segundo essa interpretação, o PCCh foi o principal responsável por conduzir a China da fragmentação política, da pobreza e do chamado “século de humilhação” — iniciado com as Guerras do Ópio e marcado por invasões estrangeiras, tratados desiguais e perda de soberania — à condição de potência socialista moderna.

No seu discurso, Xi apresentou os 105 anos do Partido não apenas como uma celebração do passado, mas como a reafirmação de uma missão histórica que continua orientando a política chinesa no século XXI.

As origens do PCCh remontam ao início do século XX, em um ambiente de intensa renovação intelectual. Chen Duxiu desempenhou o papel de principal organizador do movimento marxista ao fundar a revista 新青年 (Xin Qingnian, “Nova Juventude”), espaço que reuniu intelectuais como Lu Xun em defesa da ciência, da democracia e da renovação cultural.

Paralelamente, Li Dazhao introduziu o marxismo na China como resposta à fragmentação política, à dominação estrangeira e ao atraso nacional. Esse movimento intelectual desembocou no Movimento Quatro de Maio, em 1919, quando a transferência da província de Shandong ao Japão pelo Tratado de Versalhes desencadeou grandes manifestações nacionalistas e revolucionárias. Desse ambiente nasceu, em julho de 1921, o Partido Comunista da China.

A consolidação do Partido ocorreu em meio a sucessivas crises. A cooperação inicial com o Kuomintang foi rompida após o Massacre de Xangai, em 1927, levando à decisão, debatida no 5º Congresso Nacional, em Wuhan, de iniciar a luta armada por meio da Insurreição de Nanchang, marco fundador do Exército Vermelho (PLA).

Poucos anos depois, cercado militarmente, o Partido iniciou a Longa Marcha, durante a qual esteve diversas vezes próximo da destruição. As conferências de Tongdao, Liping e, sobretudo, Zunyi, em 1935, reorganizaram sua liderança e consolidaram Mao Zedong como principal dirigente político e militar. Na narrativa oficial, a Longa Marcha representa a demonstração de que o Partido foi capaz de sobreviver e se reorganizar mesmo quando sua derrota parecia inevitável.

A invasão japonesa levou à formação da Segunda Frente Unida após o Incidente de Xi’an, em 1936, quando Chiang Kai-shek foi forçado a priorizar a resistência nacional contra o Japão. Encerrada a guerra, poucos acreditavam que o Partido pudesse vencer a guerra civil diante da superioridade militar e diplomática do Kuomintang. Entretanto, as vitórias nas campanhas de Liaoshen, Huaihai e Pingjin culminaram, em 1º de outubro de 1949, com a proclamação da República Popular da China por Mao Zedong, encerrando, segundo a interpretação oficial, o ciclo histórico de humilhação nacional iniciado no século XIX.

Ao longo das décadas seguintes, o Partido passou por diferentes etapas de desenvolvimento, apresentadas por Xi Jinping como uma sequência contínua de aperfeiçoamento. Mao Zedong fundou o novo Estado socialista e restaurou a independência política da China. Deng Xiaoping promoveu a Reforma e Abertura, iniciando a modernização econômica e inserindo o país na economia global. Jiang Zemin ampliou a base política do Partido por meio da teoria das Três Representações, enquanto Hu Jintao enfatizou um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável.

Desde 2012, Xi Jinping afirma conduzir uma nova fase histórica, marcada pelo fortalecimento da liderança do Partido, pela modernização chinesa, pela inovação tecnológica, pela segurança nacional e pelo objetivo de alcançar o grande rejuvenescimento da nação chinesa. É a partir dessa leitura histórica que se insere o discurso de Xi Jinping na celebração dos 105 anos do Partido, no qual o passado é apresentado não apenas como memória, mas como fundamento da legitimidade do PCCh e ponto de partida para definir os desafios e objetivos da nova etapa do desenvolvimento chinês.

O Secretário-Geral do Comitê Central do Partido Comunista da China, Xi Jinping apresenta um balanço da trajetória do PCCh como força responsável por transformar a China da pobreza, da fragmentação e da dominação estrangeira em uma potência socialista moderna. Segundo ele, o Partido conduziu sucessivamente a revolução, a construção do Estado socialista, a Reforma e Abertura e a atual etapa da modernização chinesa.

Entre suas principais conquistas, destaca a melhoria das condições de vida da população, a adaptação do marxismo à realidade chinesa, o fortalecimento da posição internacional do país e a consolidação do PCCh como núcleo dirigente da nação. Para Xi, esses resultados decorrem da fidelidade ao marxismo, da estreita ligação com o povo, da capacidade de adaptação às mudanças históricas e da prática permanente da “autorrevolução”, expressa no fortalecimento da disciplina interna e no combate contínuo à corrupção.

Ao projetar o futuro, Xi afirma que a continuidade desse processo depende da liderança do Partido, do desenvolvimento de alta qualidade, da inovação científica e tecnológica, da modernização das Forças Armadas e do equilíbrio entre desenvolvimento e segurança. Reitera ainda o compromisso com o princípio de “um país, dois sistemas”, a reunificação de Taiwan e a formação de uma nova geração comprometida com o rejuvenescimento nacional.

No plano internacional, apresenta a construção de uma “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade” como a principal contribuição chinesa à governança global, defendendo uma ordem multipolar baseada no multilateralismo, na cooperação e no desenvolvimento comum. Diante da intensificação da competição estratégica com os EUA, especialmente após a política “America First”, esse conceito tornou-se o eixo da política externa chinesa e da projeção internacional da atual etapa do desenvolvimento nacional.

Assim, a celebração dos 105 anos reafirma a leitura de que cada geração de dirigentes ampliou a missão histórica do Partido: dos fundadores à independência conquistada por Mao, da modernização conduzida por Deng ao fortalecimento institucional de Jiang e Hu, culminando, sob Xi Jinping, na busca por consolidar a China como uma potência socialista moderna e um ator central na construção da ordem internacional do século XXI.

J. Renato Peneluppi Jr. – Doutor e Mestre em Administração Pública Chinesa na HUST (华中科技大学), com especialidade em políticas de desenvolvimento energético e transição energética na China (2018). Pesquisador Associado na Boston University (2017-2018). Pesquisador Visitante na Universidade de Oslo – REMIX e CICERO (2016). Lecionou na China-EU ICARE (Institute for Clean and Renewable Energy) (2012). Possui Especialização em Educação Ambiente COEDUCA – UNICAMP (2009).

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