Compreendendo a resiliência da cooperação entre China e América Latina e Caribe diante dos desafios geopolíticos
por Su Yaxuan
Traduzido por Renato Peneluppi
“As pressões externas e as mudanças políticas não podem alterar a trajetória positiva de longo prazo da cooperação entre a China e a América Latina e o Caribe (ALC).” Em um recente seminário que marcou o primeiro aniversário dos cinco programas voltados à promoção do desenvolvimento e da revitalização compartilhados, bem como à construção de uma comunidade de futuro compartilhado entre a China e a ALC, um jornalista brasileiro compartilhou comigo essa observação, baseada em sua própria experiência.
Recentemente, participei do“Salão Linjia nº 7”, promovido pela Associação Chinesa de Diplomacia Pública, que reuniu autoridades chinesas, acadêmicos e jornalistas de diversos países da América Latina e do Caribe (ALC) para refletir sobre o primeiro ano de implementação dos cinco programas. O que mais me chamou a atenção foi o interesse e o entusiasmo demonstrados pelos jornalistas latino-americanos e caribenhos presentes. Durante o evento, eles levantavam a mão com frequência para fazer perguntas complementares e registravam cuidadosamente os dados apresentados. Mesmo após o encerramento da sessão, muitos permaneceram no local, interessados em aprofundar o diálogo e trocar ideias com especialistas chineses.
Em 13 de maio de 2025, o presidente chinês Xi Jinping anunciou que a China está pronta para unir esforços com seus parceiros da América Latina e do Caribe (ALC) para lançar cinco programas destinados a promover o desenvolvimento e a revitalização compartilhados, além de impulsionar a construção de uma Comunidade China–ALC de Futuro Compartilhado. Esses programas abrangem cinco áreas: solidariedade, desenvolvimento, civilização, paz e intercâmbio entre os povos. A iniciativa foi recebida de forma positiva pelos países da América Latina e do Caribe.
Agora, mais de um ano se passou desde que esses cinco programas foram propostos. Nesse período, os países da América Latina e do Caribe (ALC) atravessaram um intenso ciclo eleitoral, com diversas nações passando por ou se aproximando de transições políticas. A incerteza em relação às políticas públicas tornou-se uma preocupação recorrente, lançando dúvidas sobre a continuidade da cooperação regional. Ao mesmo tempo, forças externas seguem exercendo pressão na tentativa de desacelerar ou dificultar o avanço da cooperação entre a China e os países da América Latina e do Caribe.
Como a cooperação entre a China e a América Latina e o Caribe pode permanecer estável e sustentável? Essa é uma questão que desperta grande interesse na imprensa latino-americana e caribenha.
Durante o evento, um jornalista colombiano perguntou como os acordos de cooperação entre a China e a América Latina e o Caribe poderiam ser implementados de forma consistente diante da alternância de governos e partidos políticos na região. Em resposta, Zhang Run, diretor-geral do Departamento para Assuntos da América Latina e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores da China, afirmou que a amizade entre a China e os países da ALC está enraizada em seus povos e que a política chinesa para a região permanecerá consistente e estável, independentemente das mudanças no cenário interno ou externo.
As tensões geopolíticas também figuraram entre as principais preocupações. Jornalistas do Brasil, México, Cuba e de outros países levantaram questões sobre os desafios para a implementação dos cinco programas e as estratégias da China para enfrentá-los. Na minha avaliação, os dados concretos são a maior prova da resiliência dessa cooperação. Entre janeiro e abril deste ano, o comércio entre a China e a América Latina cresceu 18,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as importações chinesas provenientes da região aumentaram 29,4%. Em 2025, o comércio bilateral entre a China e a América Latina ultrapassou US$ 549 bilhões, alcançando um novo recorde histórico.
Nelson de Sá, do grupo de mídia brasileiro UOL, compartilhou sua percepção direta sobre essa resiliência. Segundo ele, as pressões externas e a alternância de governos dificilmente serão capazes de alterar a trajetória estruturalmente positiva da cooperação entre a China e a América Latina e o Caribe.
Por meio de relatos sobre a transformação industrial do Brasil, Nelson também me explicou por que é tão otimista em relação à cooperação entre a China e a América Latina e o Caribe. Segundo ele, a saída de tradicionais montadoras e empresas do setor de energia de origem estrangeira contribuiu para o esvaziamento industrial e a perda de empregos no Brasil. Em contrapartida, a chegada de empresas chinesas, como a BYD, a Great Wall Motor e a CRRC, não apenas revitalizou fábricas antes ociosas, como também preencheu lacunas importantes nas cadeias produtivas locais. Esses investimentos concretos preservaram e criaram milhares de empregos, além de impulsionar a recuperação de cadeias industriais tanto a montante quanto a jusante.
A cooperação em infraestrutura também tem avançado de forma significativa. No Brasil, o projeto de transmissão de energia em corrente contínua de ultra-alta tensão de Belo Monte, executado por empresas chinesas, beneficia cerca de 22 milhões de pessoas. No México, a modernização da Linha 1 do Metrô da Cidade do México foi concluída e entrou em operação, ampliando sua capacidade para 1,2 milhão de passageiros por dia.
Além disso, os intercâmbios culturais e entre os povos vêm fortalecendo as bases dessa parceria. “A cooperação entre o Uruguai e a China não se limita aos intercâmbios educacionais, como a mobilidade estudantil, mas também abrange áreas de alta tecnologia e saúde. Um grande número de profissionais de saúde uruguaios está vindo à China para capacitação”, afirmou Florencia Pujadas, jornalista da emissora uruguaia Canal 4.
A política chinesa de isenção de vistos para alguns países da América Latina e do Caribe também impulsionou o fluxo de viagens entre as duas regiões. O crescimento desses intercâmbios demonstra a vitalidade das relações bilaterais. Ao mesmo tempo, o círculo de países beneficiados pela isenção de vistos continua a se expandir. Hoje, é cada vez mais comum ouvir espanhol e português nas ruas de Pequim, enquanto o estilo de vida chinês desperta crescente interesse entre os jovens latino-americanos e caribenhos nas redes sociais — um reflexo do fortalecimento do conhecimento e da aproximação entre os povos.
A China e os países da América Latina e do Caribe compartilham experiências históricas, afinidades culturais e objetivos comuns de desenvolvimento. Como integrantes do Sul Global, ambos buscam fortalecer sua autonomia, promover o desenvolvimento e construir uma prosperidade compartilhada.
A experiência do último ano demonstra que essa parceria não se sustenta em discursos, mas em projetos concretos e benefícios reais para a população. Com o avanço contínuo dos cinco programas, a construção de uma Comunidade China–América Latina e Caribe de Futuro Compartilhado tende a se consolidar de forma estável e duradoura.
A autora é jornalista do Global Times. [email protected]
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