6 de julho de 2026

Como enredo e narrativa redefinem a política brasileira, por Antônio Augusto de Queiroz

Diante das mesmas manchetes, ouvimos os mesmos discursos — e ainda assim parece que habitamos universos paralelos.
Photo: Stock Photos from mujiri/Shutterstock

O debate político brasileiro em 2026 é marcado por realidades paralelas entre enredo factual e narrativas subjetivas.
Governo Lula aposta em dados econômicos e sociais, enquanto Bolsonaro foca em narrativa identitária e emocional.
A polarização ameaça a democracia, exigindo esforço coletivo para distinguir fatos verificáveis e interpretações.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A guerra das realidades: como enredo e narrativa redefinem a política brasileira

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por Antônio Augusto de Queiroz

Há algo profundamente desorientador no debate político brasileiro contemporâneo. Diante das mesmas manchetes, assistimos aos mesmos telejornais, ouvimos os mesmos discursos — e ainda assim parece que habitamos universos paralelos. Para uns, o governo atual é sinônimo de esperança retomada, de políticas sociais que tiram famílias da miséria e políticas de desenvolvimento. Para outros, é a própria encarnação do atraso institucional, da corrupção sistêmica disfarçada de assistencialismo e da irresponsabilidade fiscal. Não se trata meramente de discordar sobre soluções; trata-se de discordar sobre a própria natureza dos problemas.

Essa fratura cognitiva que atravessa a sociedade brasileira encontra uma chave explicativa em um conceito aparentemente distante da ciência política: a distinção entre enredo e narrativa, ferramenta analítica emprestada da teoria literária e da comunicação, mas que hoje governa silenciosamente nosso destino coletivo.

O enredo é o terreno sólido dos fatos, fundamentado em dados econômicos, índices de desemprego, registros de gastos públicos, decisões judiciais documentadas. É o que podemos, em tese, verificar, quantificar, conferir. A narrativa é outra coisa: é o significado que atribuímos a esses fatos, a história que contamos sobre eles, os heróis e vilões que nela escalamos, as causas que identificamos, as soluções que vislumbramos. A narrativa é a lente por meio da qual o enredo adquire cor e sentido.

No Brasil de 2026, essa distinção deixou os gabinetes acadêmicos para se tornar o campo de batalha decisivo da sucessão presidencial. De um lado, temos um governo que aposta na força do enredo, na apresentação de realizações concretas, mensuráveis, verificáveis. O presidente Lula e seus aliados apontam para números: R$ 140 bilhões em créditos e subsídios destinados a políticas de transferência de renda, queda consistente do desemprego, retomada do crescimento do Produto Interno Bruto, programas sociais expandidos. Os dados oficiais de arrecadação, déficit ou superávit primário e as metas de gastos do orçamento do ano são disponibilizados publicamente, permitindo que qualquer cidadão ou analista possa verificar o desempenho da gestão federal. A estratégia é clara: construir uma ponte entre a gestão e a melhoria das condições de vida da população, oferecendo ao eleitor evidências palpáveis de que o governo entregou resultados.

Há, contudo, uma fragilidade que o governo parece subestimar: enredos, por mais sólidos que sejam, não se interpretam sozinhos. Os mesmos dados que o governo celebra como vitórias podem ser lidos pela oposição como insuficiência, como distribuição ineficiente de recursos, como maquiagem estatística que esconde problemas estruturais mais profundos. O desemprego pode cair, mas a precarização do trabalho pode avançar. O PIB pode crescer, mas a desigualdade regional pode se aprofundar. O enredo econômico é o mesmo para todos; o significado atribuído a ele é radicalmente diferente.

É nesse espaço interpretativo que Flávio Bolsonaro constrói sua aposta política. O senador, herdeiro de um sobrenome que mobiliza identidades, dirige-se a um eleitorado que não busca primordialmente dados econômicos ou sociais, mas reconhecimento cultural e moral. Sua narrativa é tecida com fios mais subjetivos: a defesa da família tradicional, a oposição ao que chama de “ideologia de gênero”, o combate à corrupção como cruzada moral, a valorização dos “costumes” que se sentem ameaçados pelas transformações sociais das últimas décadas.

É importante reconhecer que essa estratégia narrativa não opera no vazio. Ela ressoa com ansiedades reais de segmentos significativos da população brasileira, especialmente aqueles que viram suas comunidades se transformarem, suas referências culturais serem relativizadas, sua influência social diminuir. A política, para esses grupos, não é primariamente um cálculo utilitário sobre taxas de juros ou índices de inflação; é uma questão de identidade, de pertencimento, de defesa de um modo de vida que se sente ameaçado. Ignorar essa dimensão afetiva da política é tão ingênuo quanto ignorar os dados econômicos.

Ocorre, porém, que a narrativa construída pela candidatura Bolsonaro enfrenta um problema de consistência com o enredo disponível. O discurso de combate intransigente à corrupção se choca com o histórico documentado de seu próprio gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro – as investigações e documentos públicos relativos ao chamado caso das “rachadinhas”, os depósitos fracionados, os repasses financeiros cujas origens e destinos permanecem obscurecidos, o aumento patrimonial sem fonte declarada. O discurso de defesa da ordem e da segurança pública esbarra em homenagens públicas a pessoas associadas ou condenados por envolvimento com milícias e práticas de crimes graves. O discurso de independência nacional se complica diante de alinhamentos explícitos com movimentos políticos estrangeiros, com viagens e articulações que levantam questionamento sobre o grau de alinhamento a interesses externos que transcende a mera afinidade ideológica.

Deste modo, enquanto Lula apresenta um enredo baseado em dados e realizações concretas, Flávio Bolsonaro sustenta uma narrativa que prescinde da verificação factual, porque sua eficácia depende mais da identificação emocional do eleitor do que da comprovação factual. Trata-se de uma identidade de resistência, de defesa da fé, da família e dos “costumes” supostamente ameaçados pela esquerda.

Essa desconexão entre a narrativa vendida e o enredo verificável produz um fenômeno que poucos analistas têm coragem de nomear com precisão: a política como performance identitária que se torna imune à falsificação factual. Quando o eleitor não está avaliando propostas, mas defendendo uma identidade, a contradição entre discurso e prática deixa de ser um problema, tornando-se, paradoxalmente, uma prova de que o político está sendo “perseguido” pelo sistema. O fato, inconvenientemente documentado, é reinterpretado como evidência da própria narrativa de perseguição. O enredo é derrotado pela narrativa que o absorve e o subverte.

Manobras ou distorções como essas se alimentam da arquitetura digital contemporânea. Os algoritmos das plataformas sociais não nos mostram o que é verdadeiro; mostram-nos o que nos faz sentir confortáveis, o que confirma nossas crenças, o que nos conecta a comunidades de pertencimento. Cada um de nós vive, cada vez mais, em sua própria bolha informacional, uma realidade paralela onde as evidências que contradizem nossa visão de mundo simplesmente não aparecem, ou aparecem já desacreditadas, já rotuladas como “fake news” ou “perseguição da mídia”.

O que está em jogo em 2026, portanto, não é apenas a escolha entre dois projetos de governo. É também a qualidade das condições sob as quais essa escolha será feita. Democracias não exigem unanimidade nem ausência de paixões, mas dependem da existência de um mínimo de realidade compartilhada sobre a qual divergências legítimas possam ser construídas. Quando fatos verificáveis deixam de exercer qualquer poder de correção sobre as narrativas políticas, o processo democrático continua formalmente íntegro, mas a deliberação pública torna-se mais vulnerável à manipulação, à polarização e à erosão da confiança entre os cidadãos.

A responsabilidade por essa erosão do debate público não pode ser atribuída unilateralmente a um lado ou outro. O governo atual, por mais sólido que seja seu enredo econômico, frequentemente falha em traduzir suas realizações em narrativas que ressoem emocionalmente com segmentos amplos da população. A linguagem tecnocrática, o predomínio de indicadores abstratos, a dificuldade de contar histórias que mobilizem afetos, tudo isso cria um vácuo que as narrativas mais simplificadas e emocionais preenchem com vantagem.

Do outro lado, a candidatura Bolsonaro enfrenta o desafio de converter seu potencial narrativo em credibilidade governativa. A história política recente está repleta de exemplos de movimentos que mobilizaram paixões, conquistaram o poder e fracassaram espetacularmente na gestão, justamente porque a arte de construir narrativas é radicalmente diferente da arte de governar. O eleitor que hoje se deixa seduzir por promessas de transformação moral pode amanhã se ver diante de um governo despreparado, contraditório, incapaz de traduzir sua retórica em políticas efetivas, ou que se revelem, apenas, “estelionato eleitoral”. Já vimos isso mais de uma vez no Brasil

A solução para esse dilema não está em simplesmente “combater a desinformação” dos cidadãos, expressão que frequentemente esconde uma arrogância tecnocrática tão danosa quanto a própria desinformação que critica. Está, antes, em reconhecer que a política sempre envolveu narrativas, que os fatos nunca falam por si mesmos e que a racionalidade fria nunca será suficiente para mobilizar corações e mentes. A questão não é eliminar as narrativas em favor dos fatos puros, mas exigir que as narrativas se mantenham minimamente ancoradas em fatos verificáveis, e que os fatos sejam apresentados de forma a fazer sentido para as experiências vividas das pessoas.

Talvez o aprendizado mais importante que o processo eleitoral de 2026 possa nos deixar seja este: não há democracia saudável sem um mínimo de realidade compartilhada. E não há realidade compartilhada sem um esforço coletivo de olhar para os mesmos dados, de submeter nossas crenças à verificação, de reconhecer que o outro lado, por mais equivocado que nos pareça, não está apenas ou simplesmente “envenenado” ou “alienado”, mas respondendo a necessidades e medos que merecem ser compreendidos, mesmo quando não compartilhados.

A escolha que se apresenta ao eleitor brasileiro em 2026 é, em última análise, uma escolha sobre que tipo de país queremos ser, não apenas em termos de políticas públicas, mas em termos de qualidade de nosso debate democrático. Podemos continuar navegando em realidades paralelas, cada vez mais distantes, até que o diálogo se torne impossível e a convivência civilizada, uma lembrança. Ou podemos fazer o esforço difícil, desconfortável, mas indispensável, de aprender a distinguir entre o que é real e o que é contado, entre o que foi feito e o que foi prometido, entre os dados objetivos que nos desafiam e as interpretações que nos confortam.

O destino da democracia brasileira depende, mais do que nunca, dessa capacidade fundamental, que não é técnica, mas ética, que consiste em preferir a verdade incômoda à mentira consoladora. Que as eleições de 2026 nos encontrem mais preparados para esse desafio do que estávamos no passado. Pois o que está em jogo não é apenas quem governará o país nos próximos anos, mas se ainda seremos capazes, como sociedade, de governar a nós mesmos. Sob essa perspectiva, a escolha do eleitor, nesse pleito, deveria ser orientada pela previsibilidade, pelo compromisso com a ciência e a democracia, pela defesa da soberania e do interesse coletivo, além da inclusão social e do respeito ao meio ambiente, valores que transcendem narrativas passageiras e ancoram-se no que há de mais substantivo para o futuro da nação. Que possamos lembrar, ao entrar na cabine de votação, que o voto não é um gesto de afirmação tribal, mas um ato de responsabilidade civilizatória, e que a democracia não sobrevive quando escolhemos, deliberadamente, fechar os olhos para o que não queremos ver.

Antônio Augusto de Queiroz – Jornalista, analista e consultor político, e mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV. Membro do Conselho de Desenvolvimento Social Sustentável da Presidência da República, Conselhão, é também membro do Conselho Superior da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (ABRIG). Foi diretor de Centro de Acompanhamento da Constituinte (UnB) e diretor de Documentação do Diap por 35 anos, e atualmente faz parte da Câmara de Reforma do Estado no âmbito do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI). Sócio das empresas Consillium Soluções Institucionais e Governamentais e Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas, é autor de diversos livros e estudos sobre a dinâmica dos poderes.

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