Operação Michelle?
por Tarson Núñez
A cem dias das eleições presidenciais de outubro, o cenário político ainda é incerto e muito sujeito à alterações radicais. As eleições deste ano não são, e não podem ser tratadas como um momento de um processo normal da institucionalidade democrática. Nesta disputa está em jogo muito mais do que a presidência do Brasil. As eleições de 2026 vão definir uma parte importante de uma disputa pelo poder geopolítico global. Não é à toa que na semana passada assistimos a manifestações explícitas do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, colocando o Brasil junto com Venezuela e Cuba, como um dos países “problemáticos” no continente. Em seguida o próprio Trump já se manifestou publicamente sobre nossas eleições, mais de uma vez, através de sua rede social Truth Social. É a partir deste pano de fundo de uma intervenção norte-americana no processo eleitoral nacional do Brasil é que precisamos analisar o andamento da conjuntura e cada novo movimento precisa ser analisado neste contexto.
A divulgação do vídeo de Michelle Bolsonaro atacando o senador e candidato Flávio pode ser mais um movimento cuja origem pode estar muito além das querelas familiares do clã que lidera a extrema direita no Brasil. No vídeo Michelle afirma ter sido “desrespeitada”, “maltratada” e “apunhalada” por Flávio, por conta de divergências na condução das candidaturas do partido no Ceará. A dimensão do tema em disputa não é correspondente com o tamanho e a linguagem da mensagem da ex-primeira dama. Uma disputa interna pontual não justificaria um ataque desta intensidade. No vídeo de 27 minutos, que foi lido e portanto não resulta de um desabafo espontâneo, Michelle sinaliza com uma ruptura política no seio da família.
O texto cuidadosamente redigido apresenta Michelle como a portadora dos ideais mais puros da direita e acusa Flávio e os que o apoiam de oportunismo e pragmatismo eleitoral. Para além do seu conteúdo, o vídeo é composto por um conjunto de elementos visuais de alto poder simbólico. O site Congresso em Foco fez uma análise detalhada dos elementos visuais que compunham o cenário, mostrando que o vídeo faz parte de uma elaboração política altamente sofisticada. Nada ali é improvisado ou espontâneo, todo o vídeo é de uma construção simbólica altamente sofisticada, o que demonstra uma operação resultante de muito estudo estratégico e capacidade técnica e política.
O cenário do vídeo é cuidadosamente cenografado, cada elemento ali cumpre um papel simbólico. A parede é coberta de diplomas e certificados (sinalizando com prestígio e qualificação), na mesa um rosário e uma estrela de David (simbologia religiosa e ideológica), um mapa do Brasil com as presidentes do PL Mulher em cada estado (mostrando capacidade de articulação política e protagonismo feminino), uma mão dourada faz o símbolo do amor em Libras (demarcando inclusão social e afetividade), sua camisa é bordada com as palavras “amor”, “paz” e “alegria” e a ex-primeira dama segura uma caneta, simbolizando controle e autoridade. Ao mesmo tempo o cenário apresenta também algumas ausências, que também são altamente simbólicas: não há nenhuma bandeira do Brasil (simbolo associado ao bolsonarismo raiz), nem símbolos do PL nem fotos de Bolsonaro.
A repercussão do vídeo foi enorme, ele vem sendo reproduzido e comentado extensivamente pela mídia tradicional. Todo este interesse e visibilidade sinalizam que este movimento está estruturado para além das disputas internas do bolsonarismo. Uma reviravolta na disputa eleitoral pode ser um caminho das forças conservadoras para recompor seu capital eleitoral no contexto de uma disputa que até agora pendia fortemente para a reeleição do presidente Lula. O movimento de Michelle ganha sentido na medida em que pode ser capaz de alterar de forma radical o cenário político. Esta mudança teria o poder de neutralizar um conjunto de fragilidades das candidaturas da direita e recolocar a disputa em termos completamente diferentes dos dias de hoje.
Em primeiro lugar a disputa permitiria a direita se livrar de uma candidatura que, ainda que tenha uma base política e eleitoral muito sólida, tem poucas possibilidades de se tornar hegemônica. A candidatura de Flávio, o filho zero-um, vem revelando grande fragilidade. Isto porque a lista de problemas políticos que acompanham o candidato, das rachadinhas e milícias do Rio de Janeiro até as mansões de Brasília, é enorme e tende a aumentar por conta das relações do candidato com o banqueiro Vorcaro. As possibilidades de que novas revelações atinjam o candidato são consistentes.
Uma substituição do candidato seria um fato novo na campanha, capaz de alterar radicalmente a narrativa da disputa. Se bem-sucedido, este movimento teria um potencial de recompor o eleitorado conservador, permitindo reduzir a vantagem que Lula vem demonstrando sobre Flávio. Com um movimento dessa natureza de uma tacada só a direita se livraria de um candidato problemático e ganharia uma cara nova. Ao confrontar Flávio, Michelle teria a possibilidade de transformar a alta rejeição do senador em um elemento que fortalece uma candidatura alternativa da direita.
Em segundo lugar, nos termos em que a ex-primeira dama estabelece a disputa, teríamos também uma humanização e higienização da campanha da direita. Um candidato altamente problemático, que carrega todo o peso do autoritarismo, do machismo e da agressividade do Bolsonarismo, sendo substituído por uma mulher que fala em fé, em amor, iria alterar profundamente os termos da disputa. Em um momento em que todas as pesquisas mostram que a candidatura de Lula tem uma forte base no eleitorado feminino, a troca da candidatura por Michelle pode ter um peso fundamental.
Além disso, tanto por ser mulher como por estar construindo sua eventual candidatura enfrentando o que seriam os “políticos tradicionais” uma candidatura de Michelle pode recuperar para a direita a condição de outsider, de ser alguém de fora do mundo político tradicional. Para um discurso eleitoral, Michelle pode ser construída como, a mulher de fé, a mãe de família, que entra na disputa política lutando contra os políticos tradicionais, criticando a opção de Flávio pelo pragmatismo eleitoral e pelas alianças com os partidos tradicionais. A direita mais pura teria novamente um candidato “de fora” do sistema, que se constrói em enfrentamento contra os mecanismos da política tradicional.
O fato de que eventuais acontecimentos da vida pregressa da ex-primeira dama poderiam eventualmente ser usados contra ela não necessariamente teriam impacto. Isso se percebe de forma clara nas pesquisas eleitorais, onde o próprio Flávio, ele mesmo com um farto repertório de problemas éticos e judiciais, mantém um grande potencial eleitoral. Com Michelle esta blindagem de adesão ideológica que neutraliza as acusações seria ainda muito mais potente. E um eventual passado problemático pode sempre vir a ser apresentado nos marcos de uma “redenção”, de uma vida que mudou a partir de uma conversão pela fé. Enfim, o passado não necessariamente representa um problema para a ex-primeira dama.
Por fim, este enfrentamento de Michelle contra o resto da família pode permitir um sequestro da pauta política no próximo período. Por um bom tempo todas as atenções estarão voltadas para os ataques de Flávio, os contra-ataques de Michelle e todas as escaramuças na disputa pelo protagonismo no campo da direita. Com isso os holofotes da mídia alegremente vão se dedicar a ampliar a visibilidade da candidata, e sua eventual vitória iria se constituir em um fato novo que recoloca os termos da disputa em um patamar completamente distinto.
É possível que Flávio e sua facção da família anulem o movimento em torno de Michelle. Há muito em disputa e não será fácil deslocar a correlação de forças internas da direita. Além disso, o machismo na direita pode resistir a uma candidatura feminina. No entanto, ao que parece fica cada vez mais claro que o cenário atual aponta para uma vitória de Lula. Os candidatos alternativos da direita, Caiado, Zema e Renan Santos não estão conseguindo demonstrar capacidade de crescimento. Um fato novo, que marcasse uma virada dramática no cenário político, teria um impacto enorme sobre o processo eleitoral. Especialmente se ele se caracterizasse uma derrota dos filhos. Isto porque eles tenderiam a carregar consigo boa parte da rejeição de uma parte significativa do eleitorado ao bolsonarismo raiz.
Uma candidatura de Michelle pode permitir a criação de um bolsonarismo sem bolsonaro. Uma recomposição do eleitorado conservador e anti-petista que poderia se emancipar de todos os passivos eleitorais acumulados pela família. Um exemplo claro disto é a atual imagem dos filhos como representantes submissos do domínio norte-americano sobre o nosso país. Para muitos eleitores, mesmo entre os eleitores conservadores, Eduardo e Flávio defendem mais os Estados Unidos do que o Brasil. E a eleição tendia a se configurar como uma disputa entre Lula, em defesa do Brasil, e os Bolsonaro, defensores de Trump. Uma polarização que fortalece a esquerda, e isso deve ter sido percebido em Washington.
Michelle pode adotar uma postura distinta, evitando a postura subserviente do resto da família. Seu discurso pode omitir a dimensão internacional dos alinhamentos políticos, se concentrando nos assuntos internos, domésticos, como corresponde a uma candidatura feminina tal como ela é vista pelo eleitorado conservador. Não por acaso no cenário do vídeo não aparecem nem a bandeira dos Estados Unidos nem qualquer símbolo relacionado com os norte-americanos, ainda que a direita internacional esteja representada pela estrela de Davi. A mudança de candidato, portanto, também neste caso neutralizaria mais um ponto frágil da direita, possibilitando uma recomposição do posicionamento este setor na disputa de outubro.
Este movimento permitiria à direita reconstruir a narrativa da disputa. Teríamos a mãe, mulher de fé, rainha do lar, que abre mão do seu lugar no âmbito doméstico para defender a pureza dos ideais conservadores. A disputa Michelle X Flávio tem todos os componentes novelísticos que são tão caros ao eleitorado brasileiro, traição, redenção, vitória dos justos, tendo com isto um potencial de atrair a atenção generalizada do público, não apenas o da direita bolsonarista. Este movimento permitiria um reposicionamento da candidatura da direita, que pode emergir deste processo higienizada, humanizada e com um potencial muito maior de disputa. E, se não for bem sucedida em derrubar a candidatura de Flávio, Michelle no mínimo inicia a construção de uma candidatura para 2030.
Minha hipótese é de que estamos, ao que tudo indica, assistindo a um movimento muito sofisticado, que não é nem um pouco improvisado. Um movimento que possivelmente resulta de uma construção que resulta de um trabalho muito profissional e consistente, que não deve ter sido gestado no âmbito das forças políticas locais envolvidas no processo. Por tudo isso a hipótese de que este movimento marque o início da intervenção trumpista em nossas eleições se fortalece muito. É fundamental que as forças democráticas estejam alertas para esta possibilidade de mudança do cenário eleitoral. O bloco democrático construiu toda uma estratégia baseada na disputa contra um candidato que carrega consigo todo um conjunto de fragilidades, mas é possível que possamos nos deparar com um cenário radicalmente novo, de uma direita reagrupada em torno de uma candidatura completamente diferente, ainda que representante do mesmo projeto político.
Tarson Núñez – Doutor em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles
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