Vietnã: o mercado que o Brasil ainda não descobriu
por Vanessa Africani
O Brasil vive um momento decisivo na redefinição de sua inserção internacional. Em um cenário marcado pela reorganização das cadeias globais de valor, pela diversificação de mercados e pelas transformações geopolíticas da economia mundial, torna-se cada vez mais evidente que olhar apenas para os parceiros tradicionais já não é suficiente. Nesse contexto, uma das economias mais dinâmicas do planeta continua surpreendentemente fora do radar da maioria dos empresários brasileiros: o Vietnã.
O contraste entre percepção e realidade chama a atenção.
Com mais de 102 milhões de habitantes, idade média de apenas 31 anos, taxa de alfabetização superior a 95% e uma força de trabalho de aproximadamente 57 milhões de pessoas (dados Câmara de Comércio Brasil Vietnã), o Vietnã construiu, nas últimas décadas, um ambiente altamente competitivo para a indústria, para o comércio internacional e para a atração de investimentos.
Ao longo dos últimos anos, o país registrou um dos maiores ritmos de crescimento econômico do mundo, em torno de 8% ao ano, impulsionado pela industrialização, pela abertura comercial e pela chegada de investimentos estrangeiros. Hoje figura entre as maiores economias globais (33a. economia mundial) e consolidou-se como um dos principais pólos industriais da Ásia. Uma economia pujante em que a transformação não ocorreu por acaso.
A reorganização das cadeias internacionais de suprimentos, intensificada após a pandemia e pelas tensões comerciais entre Estados Unidos e China, fez do Vietnã um dos maiores beneficiários da estratégia conhecida como China Plus One. Grandes multinacionais passaram a instalar parte relevante de sua produção no país, atraídas por custos competitivos, estabilidade institucional, mão de obra qualificada e acesso preferencial aos principais mercados do mundo por meio de 17 acordos de livre comércio.
Como resume o presidente da Brazil Vietnam Chamber, Victor Key, “o mundo está reorganizando suas cadeias produtivas, e o Vietnã virou o novo centro dessa reorganização. Quem chegar primeiro sai na frente.”
A afirmação traduz uma mudança estrutural da economia internacional. O Vietnã deixou de ser apenas uma alternativa de baixo custo para tornar-se uma plataforma global de produção, inovação e exportação.
Hoje, o país figura entre os maiores exportadores mundiais de eletrônicos, têxteis, calçados, móveis, café, frutos do mar e diversos produtos manufaturados de maior valor agregado. Sua economia conecta cadeias produtivas que abastecem mercados na América do Norte, Europa e em toda a Ásia.
Apesar desse avanço, o Brasil ainda explora apenas uma pequena parcela do potencial dessa parceria.
O Vietnã já é o maior parceiro comercial brasileiro na ASEAN e um dos principais parceiros do Brasil em toda a Ásia. Em 2025, o comércio bilateral alcançou aproximadamente US$ 7,7 bilhões, e os governos dos dois países estabeleceram a meta de elevar esse volume para US$ 15 bilhões até 2030.
O Brasil exporta principalmente soja, milho, algodão, carnes, minério de ferro, madeira e papel. Em contrapartida, importa eletrônicos, máquinas, equipamentos industriais, calçados, pneus e pescados.
Mas limitar essa relação à troca de commodities e manufaturados significa desperdiçar oportunidades muito maiores.
O Vietnã apresenta crescente demanda por tecnologia agroindustrial, bioenergia, etanol, equipamentos para processamento de alimentos, soluções em energia renovável, educação, saúde, franquias e produtos premium. São áreas nas quais o Brasil possui competências reconhecidas internacionalmente e pode ampliar significativamente sua presença.
Talvez o principal desafio seja justamente o desconhecimento.
Enquanto empresários brasileiros acompanham diariamente os movimentos da China, dos Estados Unidos e da Europa, poucos conhecem a dimensão econômica, industrial e estratégica do Vietnã. Essa falta de informação acaba retardando investimentos, reduzindo oportunidades de negócios e limitando a diversificação da presença brasileira na Ásia.
Nesse sentido, a provocação feita por Victor Key merece atenção: “Todo mundo fala de China. Nós estamos falando do próximo capítulo, e ele se chama Vietnã.”
Não se trata de substituir a importância da China para o Brasil, mas de compreender que a Ásia tornou-se muito mais diversa e integrada. O crescimento econômico da região passa hoje por diferentes pólos industriais e logísticos, dos quais o Vietnã é um dos protagonistas.
Foi justamente para contribuir com essa aproximação que foi realizado, na última semana, o Brasil–Vietnã Business Dinner, reunindo empresários, investidores, executivos e representantes institucionais interessados em conhecer melhor esse mercado e construir novas conexões comerciais.
O elevado interesse demonstrado pelos participantes evidencia que existe demanda por informação qualificada e por mecanismos permanentes de aproximação entre os dois países. A presença da Sra Pham Hông Trang, conselheira comercial do escritório de comércio da Embaixada do Vietnã no Brasil, reforçou uma mensagem clara: o relacionamento bilateral vive um momento de amadurecimento, e há disposição política para ampliar investimentos, comércio e cooperação.
Para Maria Helena Magalhães Sarmento Afonso, Diretora da Brazil Vietnam Chamber, esse movimento vai além dos indicadores econômicos. “Os mercados se aproximam pelos negócios, mas as parcerias duradouras se constroem pela confiança. Conhecer indicadores econômicos é importante; compreender a cultura, a forma de pensar e de se relacionar de vocum país é o que transforma uma oportunidade comercial em uma relação de longo prazo. Aproximar Brasil e Vietnã é, acima de tudo, investir nessa construção.”
Resta agora ao setor privado responder a essa oportunidade.
O Brasil costuma enxergar a Ásia por uma única lente: a China. No entanto, a geografia econômica do continente mudou profundamente nas últimas décadas. Economias como Vietnã, Indonésia, Malásia e Filipinas assumem papéis cada vez mais relevantes nas cadeias globais de valor e oferecem oportunidades que dificilmente permanecerão disponíveis para quem chegar tarde.
Em relações internacionais, vantagem competitiva não depende apenas de tecnologia, capital ou escala.
Depende também da capacidade de antecipar tendências.
Talvez esteja chegando o momento de o Brasil descobrir um mercado que o mundo já descobriu há bastante tempo e devamos falar mais sobre ele. Descobri-lo não significa substituir parceiros tradicionais. Descobri-lo significa ampliar horizontes.
Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing, com experiência na promoção de negócios, relações institucionais e articulação empresarial internacional. Estudante de Relações Internacionais, atua na promoção de relações bilaterais e comerciais entre o Brasil e mercados estratégicos, com ênfase na África, nas Américas, no Mercosul e, mais recentemente, na Ásia, tendo participado da organização do Networking Empresarial Brasil–Indonésia e mais recentemente Brasil–Vietnã.
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