11 de julho de 2026

O medo do voto das mulheres, por Benedito Tadeu César

A declaração de Paulo Figueiredo de que as mulheres "votam mal" reabre um debate que acompanha a história da democracia desde o século XIX.
Imagem gerada por IA

Paulo Figueiredo afirmou que mulheres “votam mal”, reacendendo debate sobre voto feminino no Brasil e na direita radical.
Michelle Bolsonaro surge como principal liderança feminina da direita, enquanto discursos conservadores questionam autonomia política das mulheres.
Histórico mostra que restrições ao voto feminino foram superadas, mas recentes declarações indicam tensão sobre igualdade política na democracia.

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O medo do voto das mulheres

por Benedito Tadeu César

A declaração de Paulo Figueiredo de que as mulheres “votam mal” reabre um debate que acompanha a história da democracia desde o século XIX. O artigo mostra como argumentos semelhantes foram empregados para negar o direito de voto a mulheres, trabalhadores e negros e analisa por que esse discurso ressurge justamente quando Michelle Bolsonaro se consolida como a principal liderança feminina da direita brasileira. A partir desse paradoxo, a análise examina as raízes históricas do conservadorismo contemporâneo e discute o significado político da disputa em torno do voto feminino para a democracia brasileira.

A polêmica provocada por Paulo Figueiredo revela um debate que ultrapassa a extrema direita brasileira e recoloca em circulação antigas teses sobre o papel político das mulheres justamente quando Michelle Bolsonaro emerge como a principal liderança feminina do conservadorismo nacional.

Mulher vota estatisticamente muito mal.”

A frase foi dita por Paulo Figueiredo durante uma transmissão ao vivo. Poderia ter sido apenas mais uma provocação destinada a alimentar as redes sociais. Não foi.

Além de afirmar que mulheres casadas tenderiam a acompanhar a orientação política dos maridos e que mulheres solteiras votariam ainda pior, o comentarista reagiu às críticas com outra declaração que rapidamente sintetizou o tom do debate:

“Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos (…). Isso (as mulheres votam mal) é estatística.”

A grosseria chamou imediatamente a atenção. O aspecto mais relevante da declaração, porém, não estava no insulto, mas na tentativa de apresentar um preconceito político como se fosse uma conclusão científica.

Nenhum estudo foi apresentado para sustentar a afirmação de que mulheres votariam “melhor” ou “pior” do que homens. A literatura sobre comportamento eleitoral identifica diferenças de preferências políticas entre grupos sociais, mas não estabelece qualquer hierarquia de competência democrática. Tampouco oferece fundamento para a ideia de que mulheres casadas votem, em regra, segundo a orientação dos maridos.

A declaração combina, portanto, duas operações: transforma uma opinião ideológica em aparente verdade estatística e recoloca em circulação um discurso que parecia superado nas democracias contemporâneas.

Um debate que atravessa fronteiras

Nos últimos anos, pesquisadores e jornalistas vêm registrando o reaparecimento, ainda que em grupos minoritários, de correntes da direita radical norte-americana que passaram a questionar princípios considerados consolidados nas democracias liberais. Entre eles está o sufrágio feminino.

Esses grupos permanecem marginais dentro do conservadorismo dos Estados Unidos e não representam a posição oficial do Partido Republicano. Ainda assim, conquistaram enorme visibilidade nas redes sociais, em podcasts e em ambientes ligados ao nacional-conservadorismo, ao nacionalismo cristão e ao chamado movimento tradwife (numa alusão à esposa tradicional).

Em alguns desses círculos reapareceu a defesa do chamado “voto familiar”, segundo o qual a família — e não o indivíduo — deveria constituir a unidade política básica da sociedade. Na prática, isso significaria reduzir ou eliminar a autonomia política das mulheres casadas, na busca de subordinar seu voto ao do marido.

Este tipo de posição levou diferentes analistas a recorrerem à imagem de Gilead, a teocracia imaginada por Margaret Atwood e retratada na série The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia). A metáfora foi utilizada para chamar a atenção para o reaparecimento de discursos que procuram restaurar relações fortemente hierarquizadas entre homens e mulheres em nome da família, da religião ou de uma suposta ordem natural.

Não se trata de sugerir que democracias contemporâneas caminhem para uma realidade semelhante à da ficção. A referência literária serve para iluminar um fenômeno histórico mais amplo.

Desde o século XIX, diferentes correntes conservadoras reagiram às transformações produzidas pela industrialização e, mais recentemente, pelas mudanças culturais associadas ao feminismo, à ampliação dos direitos civis e à diversidade.

Desde o século XIX, parte do pensamento conservador respondeu ao avanço da industrialização, da urbanização e do liberalismo econômico idealizando uma sociedade mais orgânica, fundada na família, na religião e nas comunidades tradicionais. Essa idealização encontrou expressão em vertentes do Romantismo europeu, que viam na modernidade uma força de dissolução dos vínculos sociais e dos valores tradicionais herdados do sistema anterior, predominantemente rural.

Em meados do século XX, o historiador e economista Karl Polanyi mostrou, em A Grande Transformação, que a expansão da sociedade de mercado provocava inevitavelmente “contramovimentos” de proteção da sociedade. Essas reações podiam assumir formas progressistas, como a ampliação dos direitos sociais, ou formas conservadoras, voltadas à preservação da tradição, da autoridade e das instituições familiares diante das mudanças econômicas e culturais.

Guardadas as enormes diferenças de contexto histórico, parte da nova direita internacional atualiza esse segundo tipo de reação ao defender modelos familiares fortemente hierarquizados e ao questionar conquistas que pareciam definitivamente incorporadas às democracias.

É nesse ambiente que declarações como a de Paulo Figueiredo deixam de parecer apenas uma provocação isolada para dialogar com um repertório ideológico que voltou a circular em diferentes países e que também encontrou ecos no Brasil.

O paradoxo brasileiro

Esse debate chega ao Brasil justamente quando o bolsonarismo enfrenta um de seus maiores desafios eleitorais: ampliar sua presença entre as mulheres.

Nos últimos anos, Michelle Bolsonaro deixou de ocupar apenas o papel de ex-primeira-dama para se tornar a principal liderança feminina do campo conservador. À frente do PL Mulher, percorreu o país, fortaleceu a presença do partido entre o eleitorado feminino e passou a construir uma identidade política própria. A recente crise com Flávio e Eduardo Bolsonaro revelou que ela já não atua apenas como um ativo eleitoral da família, mas como uma liderança com peso político dentro do movimento.

É justamente nesse contexto que a declaração de Paulo Figueiredo adquire significado que ultrapassa a grosseria de seu conteúdo.

Não há elementos que permitam estabelecer relação direta entre sua fala e a disputa interna do bolsonarismo. Mas a coincidência temporal chama atenção. Enquanto o principal campo da direita brasileira procura ampliar sua presença entre as mulheres por meio de uma liderança feminina, ressurgem, em setores da direita radical, discursos que relativizam a autonomia política das próprias mulheres.

Esse contraste talvez diga mais sobre o momento atual do conservadorismo do que a própria polêmica provocada pelo comentarista. Ao mesmo tempo em que novas lideranças femininas ganham espaço, reaparecem argumentos que procuram recolocar as mulheres numa posição de tutela política. É essa tensão — entre ampliação da participação e restauração de antigas hierarquias — que confere significado ao episódio.

Uma história que parecia encerrada

Ao longo do século XIX, praticamente todas as democracias representativas restringiam o direito ao voto segundo critérios de renda, patrimônio, raça, alfabetização ou sexo. Os argumentos eram quase sempre os mesmos: pobres seriam facilmente manipuláveis; trabalhadores não possuiriam instrução suficiente; negros não estariam preparados para o exercício pleno da cidadania; mulheres seriam excessivamente emocionais ou influenciadas pelos maridos para participar da vida política.

A história, porém, caminhou na direção oposta.

A partir do final do século XIX, o sufrágio foi progressivamente ampliado. A Nova Zelândia tornou-se, em 1893, o primeiro país a reconhecer plenamente o voto feminino. Vieram depois Austrália, Finlândia, Noruega, Reino Unido, Estados Unidos e dezenas de outras democracias. No Brasil, a conquista ocorreu em 1932, durante o governo provisório de Getúlio Vargas, após intensa mobilização liderada por Bertha Lutz e outras sufragistas, sendo incorporada à Constituição de 1934.

Desde então, a ampliação da cidadania política das mulheres passou a integrar o próprio processo de democratização da sociedade brasileira. Ainda que a igualdade de representação permaneça distante — as mulheres continuam sub-representadas nos parlamentos e nos governos —, parecia definitivamente superada a ideia de que sua capacidade política pudesse voltar a ser questionada.

Os acontecimentos recentes mostram que essa percepção talvez tenha sido otimista demais.

Um paradoxo revelador

Enquanto pequenos setores da direita radical voltam a discutir se as mulheres “votam mal”, a política parece caminhar na direção oposta.

Mulheres ocupam hoje posições de liderança em partidos e governos conservadores em diferentes países. Basta lembrar de lideranças como Marine Le Pen, na França; Giorgia Meloni, na Itália; e Keiko Fujimori, recém-eleita presidente do Peru. No Brasil, o principal ativo eleitoral do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino chama-se Michelle Bolsonaro.

A importância da declaração de Paulo Figueiredo não está apenas em seu conteúdo ofensivo. Ela funciona como sintoma de um fenômeno mais amplo: a circulação internacional de ideias que procuram revalorizar modelos hierárquicos de organização da família e da sociedade e que encontram ressonância, ainda que minoritária, em setores da direita contemporânea.

Ao mesmo tempo, a crise do bolsonarismo revela outra dimensão desse processo. Nunca uma mulher ocupou posição tão estratégica na direita brasileira quanto Michelle Bolsonaro ocupa hoje. E talvez nunca tenha sido tão evidente a contradição entre a necessidade política de ampliar o diálogo com o eleitorado feminino e a persistência de discursos que procuram diminuir a legitimidade da participação política das mulheres.

É justamente esse o paradoxo revelado pela atual conjuntura. Enquanto o bolsonarismo depende cada vez mais de uma liderança feminina para ampliar sua presença entre as eleitoras, que são mais de 50% do eleitorado, ressurge, em setores da direita radical, discursos que relativizam a autonomia política das próprias mulheres.

A polêmica provocada por Paulo Figueiredo e a ascensão de Michelle Bolsonaro, portanto, não são fenômenos desconectados. Elas revelam uma tensão mais profunda em torno da democracia, da representação e da igualdade política.

Mais do que uma polêmica

A democracia não se enfraquece apenas quando direitos são formalmente retirados. Muitas vezes, o processo começa antes, pela naturalização de discursos que procuram relativizar direitos já conquistados ou apresentar antigos preconceitos como se fossem simples opiniões políticas ou constatações estatísticas.

É por isso que episódios como esse merecem atenção. Mais do que uma disputa entre personagens da política brasileira, eles recolocam em debate um princípio que parecia definitivamente incorporado às democracias modernas: o de que a cidadania pertence igualmente a homens e mulheres, sem tutelas, hierarquias ou condicionamentos.

Esse continua sendo um dos maiores legados das democracias constitucionais. E também um dos que mais exigem vigilância quando velhos argumentos retornam sob novas roupagens.

Nota editorial: Esta análise foi produzida com auxílio de inteligência artificial e revisada pelo autor e editada pela equipe da Rede Estação Democracia (RED).


Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Benedito Tadeu César

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED Rede Estação Democracia.

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