7 de julho de 2026

A Copa da Vergonha e O Jogo do Medo, por Benedito Tadeu César

A derrota para a Noruega expõe o abandono da identidade que fez do Brasil a maior seleção da história do futebol.
Fotomontagem dividida em dois tempos: à esquerda: Garrincha driblando um soviético na Copa de 1958, em preto e branco. À direita: Vinícius Júnior encarando um defensor norueguês e, ao fundo, Haaland comemorando um dos gols, em cores. Ao centro, uma linha de divisão lembrando uma rachadura ou uma página virada da história. – Imagem gerada por IA sobre fotos de divulgação.

A derrota do Brasil para a Noruega na Copa de 2026 expôs o abandono da identidade do futebol brasileiro.
A Copa de 2026 foi marcada por discriminações políticas e tratamento desigual entre seleções, segundo o texto.
O Brasil perdeu ao jogar segundo as regras europeias, renunciando ao talento e criatividade tradicionais.

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A Copa da Vergonha e O Jogo do Medo

por Benedito Tadeu César

O Brasil não perdeu para a Noruega apenas pelos dois gols de Haaland. Perdeu, antes de tudo, para o medo de ser Brasil. Nesta crônica, Benedito Tadeu César retoma a ideia da “Copa da Vergonha” para analisar o que chama de “Jogo do Medo”: uma Seleção que abriu mão do talento, do drible e da criatividade para enfrentar os europeus segundo as regras dos próprios europeus. A partir da lenda de Garrincha e dos “Ivans” na Copa de 1958, o texto estabelece um paralelo entre a identidade do futebol brasileiro e o projeto nacional de desenvolvimento inaugurado na Era Vargas, defendendo que tanto no esporte quanto na economia o país sempre foi mais forte quando confiou na própria capacidade de criar caminhos originais.

O dia em que o Brasil teve medo de ser Brasil

Crônica da Copa 2026 | Da Copa da Vergonha ao jogo do medo: a derrota para a Noruega expõe mais do que um fracasso esportivo. Expõe o abandono da identidade que fez do Brasil a maior seleção da história do futebol.

A Copa de 2026 já entrou para a História como a Copa da Vergonha. Não pelo futebol, mas pelo que aconteceu fora dele: uma competição marcada por discriminações políticas, pelo tratamento desigual entre seleções, pelo silêncio conveniente da FIFA e pela naturalização de critérios que jamais seriam aceitos se atingissem outros países que não os EUA. O futebol voltou a servir de palco para a política — e as instituições preferiram olhar para o outro lado.

Se esta é a Copa da Vergonha, Brasil 1 x 2 Noruega foi o Jogo do Medo.

Talvez a síntese da partida tenha acontecido logo aos quatorze minutos.

Matheus Cunha recebeu a bola, ganhou de Kristoffer Ajer naquilo que o futebol brasileiro sempre fez de melhor: talento. O zagueiro norueguês, mais alto, mais forte e incapaz de acompanhar o atacante na habilidade, só encontrou uma saída: a falta. O árbitro precisou do VAR para enxergar o óbvio, mas o pênalti foi marcado.

Parecia um sinal de que o Brasil havia escolhido o caminho certo.

Então veio a cobrança.

Bruno Guimarães caminhou para a bola, denunciou o canto e facilitou a defesa do goleiro Ørjan Nyland.

Em poucos segundos, a partida contou sua própria história.

Primeiro, o talento venceu a força.

Depois, o medo venceu o talento.

Era para ser o confronto entre duas maneiras de entender o futebol. De um lado, a técnica, a criatividade, o drible, a capacidade de conversar com a bola. Do outro, uma equipe forte, disciplinada, rápida, alta e fisicamente dominante, comandada por um gigante chamado Haaland. Ele fez os dois gols da Noruega e decidiu a partida. Mas nem ele nem seus companheiros transformavam aquele time numa seleção tecnicamente superior ao Brasil.

Pelo contrário.

Sempre que pressionados, os noruegueses erravam passes, perdiam bolas relativamente simples e revelavam dificuldades para jogar em espaços curtos. Era ali que estava o caminho da vitória brasileira.

Não vou discutir tática. Carlo Ancelotti entende disso milhões de vezes mais do que eu. Mas estratégia é outra coisa. Estratégia diz respeito à identidade de um time, à forma como decide enfrentar o adversário.

E o Brasil resolveu enfrentar a Noruega jogando o futebol que interessava à Noruega.

Existe uma velha lenda do futebol brasileiro segundo a qual, na Copa do Mundo de 1958, justamente a primeira conquistada pelo Brasil, Garrincha chamava todos os jogadores da União Soviética simplesmente de “Joões”. Não fazia diferença quem era o lateral, o zagueiro ou o ponta. Eram todos “Joões”. O importante não era saber seus nomes, mas descobrir por onde passaria o drible.

Não deixa de ser simbólico que essa história tenha nascido justamente na Copa em que o Brasil encontrou o futebol que o transformaria em pentacampeão do mundo. Naquele momento, o adversário não era um gigante a ser temido. Era apenas mais um “Ivan” que precisava ser driblado.

Contra a Noruega, durante alguns minutos, Vini Jr. fez exatamente isso. Transformou o lateral norueguês em mais um “João”. Ganhou no um contra um, desmontou a marcação e mostrou que havia uma diferença técnica evidente entre quem sabe tratar a bola com intimidade e quem depende, sobretudo, da força física.

Era esse o jogo que o Brasil precisava impor.

Mas desistiu dele.

Aos poucos, recuou. Entregou a posse de bola, o território e a iniciativa justamente para quem mais se beneficiava disso. E, quando o relógio passou a correr contra a Seleção, veio o gesto mais revelador da noite: começaram os cruzamentos para uma área ocupada por jogadores de quase dois metros de altura.

Foi como tentar vencer Haaland jogando o jogo de Haaland.

Os noruegueses nunca deveriam ter deixado de ser “Joões”. Não por arrogância, mas porque o futebol brasileiro construiu sua história olhando para qualquer marcador como alguém que podia ser driblado. Nunca como um gigante a ser temido.

Foi assim que conquistamos cinco Copas do Mundo.

Nenhuma outra seleção conseguiu fazer o mesmo.

Durante décadas, a Europa estudou o Brasil porque nós jogávamos um futebol que eles não sabiam jogar.

Curiosamente, houve um tempo em que o país também acreditava poder construir um caminho próprio fora dos gramados. Era o Brasil da Era Vargas, que apostou na industrialização, nas empresas nacionais, na infraestrutura, na ciência e na ideia de que desenvolvimento não se importava: construía-se.

Depois fomos perdendo essa confiança. Fosse pelo “entreguismo” de alguns dirigentes, fosse pela pressão dos “mercados”, passamos a seguir, cada vez mais, cartilhas escritas pelos países que já haviam alcançado o desenvolvimento — curiosamente, cartilhas bem diferentes das que eles próprios seguiram quando ainda estavam construindo suas economias.

Talvez não exista relação entre uma coisa e outra.

Ou talvez exista.

Porque o futebol brasileiro nunca foi grande quando tentou copiar a Europa. Assim como o Brasil nunca sonhou grande quando acreditou que seu destino era apenas repetir o caminho prescrito pelos outros.

Nossa força sempre nasceu da confiança em fazer diferente.

Há estatísticas que impressionam. Faz muitos anos que a Seleção Brasileira não vence uma grande seleção europeia em partidas decisivas. A Noruega, por sua vez, continua sendo a única seleção que o Brasil jamais conseguiu derrotar.

São números incômodos.

Não justificam medo.

O futebol brasileiro nunca foi grande porque copiou a Europa. Tornou-se grande porque obrigou a Europa a estudá-lo.

Perder faz parte do futebol.

O que dói é perder renunciando justamente àquilo que sempre nos fez diferentes.

Foi acreditando naquilo que sabia fazer melhor que o Brasil inventou um estilo de jogar admirado no mundo inteiro.

Foi assim que conquistou cinco Copas do Mundo.

Todas nasceram da coragem de ser Brasil.


A matéria foi corrigida. O autor atribuiu um apelido errado aos “Joões” (e não “Ivans”) que, conforme a lenda, seria a forma como Garrincha se referia aos marcadores da Seleção Soviética a serem vencidos em 1958.

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

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Benedito Tadeu César

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED Rede Estação Democracia.

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