O uso da Starlink e as reclamações dos soldados russos
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Os sites especializados em relações internacionais dão conta que, na última interação face a face entre Putin e seus soldados, houve uma série de reclamações relatando o aparente aumento da efetividade dos drones ucranianos, reputando o sucesso ao uso da Starlink para os guiar. Este texto busca entender tecnicamente a probabilidade de as reclamações atingirem a causa correta.
Na série “Internet, do paraíso ao inferno” procurou-se explicar como funciona a infraestrutura da Internet, inclusive, como funciona o Starlink e suas limitações como instrumento de automação. É que não se trata somente do tempo entre o sinal sair de uma estação terrestre, transitar pelos vários satélites destinados ao roteamento e voltar ao solo. É muito mais que isso, pois os satélites têm que resolver protocolos de comunicação e muitas rotinas antes de que o sinal chegue ao seu destino de forma confiável e, principalmente, útil. Então, vamos destrinchar a coisa sobre dois aspectos, o concernente ao drone em si e outro relacionado com o alvo.
O cerne do controle tem que estar embarcado no veículo porque não se toleram atrasos. Suponhamos um drone que viaja a 180 km/h. Ele atingirá uma distância de 200 m a cada segundo. Se a latência do Starlink variar entre 200 ms e 500 ms, o “aviãozinho” estará entre 40 m e 100 m à frente do que se imagina. É mais ou menos, de forma ampliada, como quando um motorista trafega seguindo o GPS e nota que a bolinha que representa o carro está atrasada em relação à posição real. Isso implica em que não se consegue, via Starlink, mandar o drone desviar de um obstáculo, pois, entre ele ser detectado e a ordem para desviar já terá passado e o acidente já terá acontecido. Então, o mapa do trajeto precisa ser armazenado no próprio drone, assim como as coordenadas geodésicas do alvo.
Isso torna a comunicação por Starlink irrelevante? Não, porque ele pode corrigir a deriva ocasionada pelo vento, além da variação de leitura de altitude, que depende da leitura da pressão atmosférica. Esses dados não se alteram instantaneamente de sorte que o atraso passa a ser irrelevante, portanto, muito útil a garantir que o drone chegue ao alvo. Resumindo, os dados de uso imediato precisam viajar com o drone, enquanto as variações atmosféricas podem ser atualizadas remotamente, permitindo que a navegação inercial torne-se muito mais precisa.
Os alvos, por sua vez, podem-se dividir entre estáticos, como as construções e as instalações; transferíveis, como os lançadores acoplados a caminhões, navios de guerra nos portos e aeronaves, além dos móveis como aviões em voo ou navios em movimento. Os drones são muito efetivos para os alvos estáticos e tornam-se ainda mais eficazes quando têm sua trajetória corrigida online com o auxílio do Starlink. Se o sistema estiver ligado a um ambiente de vigilância capaz de avisar que o alvo original já não se encontra onde se supunha, o Starlink pode ajudar a alterar a rota, desde que haja um alvo secundário já inserido no próprio drone. Não dá para mirar alvos de oportunidade como se consegue com aeronaves tripuladas. Por outro lado, os alvos móveis devem ser considerados fora do escopo da maioria dos modelos de drones, pois há os que ficam entre os aparelhos de baixa tecnologia e os mísseis de cruzeiro, estes sim capazes de atingir alvos móveis, porém, não com o auxílio do Starlink, que se baseia na internet, cujo protocolo foi desenvolvido para resolver pacotes de dados, não para atuação imediata.
Conclui-se que os soldados russos têm razão ao solicitar que o problema seja resolvido, seja anulando o sinal dos satélites nas áreas em conflito, seja neutralizando os pontos de controle em terra.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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