Disputa narrativa, fogo “amigo” dos críticos de esquerda e eleitores que pensam ser de direita
por Marcio Valley
A candidatura da extrema direita, embora tenha sofrido algum prejuízo eleitoral por conta do escândalo do caso Master e ainda que tenha sofrido perda de intenções de votos segundo as pesquisas eleitorais, continua inacreditavelmente forte, o que é espantoso. É tarefa complexa definir o que move uma porção significativa do eleitorado brasileiro a apoiar um movimento político que é majoritariamente repudiado pela mais destacada inteligência brasileira.
O repúdio não decorre de preconceitos ou “memes do Zap”, mas da constatação de que a extrema-direita, além de ser um movimento político claramente favorável aos interesses dos mais ricos, portanto com alto teor de malignidade coletiva, persegue o retorno a um modelo de sociedade que existiu em momento sombrio e indigno do passado da humanidade, o qual se pensava para sempre solapado. Um passado no qual pobres, mulheres, negros e indígenas eram considerados cidadãos de terceira classe, sem direito a autodeterminação ou a votar e ser votado; no qual o direito de voto era censitário, somente podendo ser exercido por quem tinha posses; no qual qualquer orientação diversa da heterossexual tinha que ser sufocada ou exercida clandestinamente, sob pena de repúdio, prisão ou morte; no qual a questão ambiental nem era uma questão a ser considerada politicamente; no qual o liberalismo econômico era pleno, autorizando jornadas de doze horas em seis dias da semana, inclusive para crianças de cinco anos, com o domingo liberado não por questão de saúde do trabalhador, mas em favor da religião, e sem espaço para direitos trabalhistas ou previdenciários; no qual a imensa maioria dos pobres não era sequer considerada na elaboração de políticas públicas voltadas à moradia, saúde, segurança, educação, saneamento básico e outras.
Esse projeto de retorno às indignidades do passado não se resume ao plano do desejo, tendo sido concretizado ou assim tentado, nos quatro anos em que a extrema direita esteve no poder. Apesar disso, no entanto, as pesquisas indicam que parte significativa dos eleitores continuam a dar sustentação. O apoio eleitoral vem, inclusive, de parte dos eleitores negros, mulheres e pobres, categorias que possivelmente seriam as mais prejudicadas pelo eventual retorno do neofascismo ao poder.
A submissão histórica de milhões de desfavorecidos ao poder estabelecido nas mãos de poucas pessoas não é novidade. Ao longo do tempo, muitos pensadores se debruçaram sobre a questão dos motivos que levam milhões de pessoas a aceitar passivamente a hierarquia social injusta imposta pelos pouquíssimos ricos que integram a elite dominante. São exemplos Étienne de La Boétie, no século XVI, com seu “Discurso da Servidão Voluntária”, e, mais recentemente, Paulo Freire, que enxergava a ausência de educação libertadora como culpada pela resignação ou mesmo adesão do povo aos interesses opressores. Educação libertadora deve ser entendida como aquela capaz de criar visão humanística e capacidade crítica nos indivíduos e não, como ocorre, meramente aperfeiçoar as engrenagens biológicas de que o setor produtivo necessita para funcionar.
Parece claro, óbvio, cristalino, para quem dedicar alguns segundos de reflexão superficial sobre a questão, que os interesses dos pobres jamais foram e, mantido o atual modelo econômico, jamais serão iguais aos dos ricos. Num ambiente de controle estatal da economia talvez esses interesses, agora antagônicos, pudessem ser consentâneos, mas esse cenário não é admitido pela direita. Contudo, apesar de evidente que os interesses são distintos, grande parte dos pobres defende a manutenção de direitos e privilégios que beneficiam, não eles, mas os ricos.
Décadas atrás, Gramsci deu seu “pitaco” sobre isso através do conceito de “disputa hegemônica”, que vem a ser a batalha ideológica pela prevalência da narrativa capaz de inculcar na consciência coletiva o modelo de sociedade desejado, assim conduzindo à concretização desse discurso em materialidade, ou seja, busca-se a vitória da narrativa que sirva ao propósito de transformar o desejo de uma classe social em realidade concreta. O processo de disputa hegemônica, assim, buscaria alcançar e manter o poder o mais pacificamente possível, através do consenso, da aceitação da realidade como se apresenta ou como se pretende seja, assim evitando convulsões sociais que exijam o uso da violência.
Esse é um primeiro ponto a considerar: a disputa hegemônica é uma ferramenta que, se bem utilizada, é capaz de conduzir uma classe social a obter o poder de transformar a realidade através do consenso, sem violência.
Porém, ao longo de toda a história da sociedade humana, um reduzidíssimo número de pessoas ricas dominou a ampla maioria, o que significa que os ricos sempre venceram a disputa hegemônica. Ao falar em ricos, aqui não me refiro às riquezas comedidas, mas somente àquelas extremadas, possuídas por multimilionários e bilionários. Para facilitar, doravante os chamarei apenas “bilionários”, independentemente do tamanho da fortuna ou da época em que viveram. Apesar da modernidade do termo, seria assim que chamaríamos os faraós se existissem nos dias de hoje; atualmente, somente controladores de fortunas bilionárias, sejam pessoas físicas ou jurídicas, seriam capazes de construir pirâmides e manter exércitos. Por outro lado, quando falar em “pobres”, estarei me referindo a pobres e classe média, pois esta última, apesar do que pensa sobre si mesma, encontra-se apenas um ou dois degraus sociais acima dos pobres, mas centenas ou milhares de degraus abaixo dos ricos.
Que fator teria sido preponderante na condução dos bilionários a terem tanto sucesso histórico na disputa hegemônica? Tal prevalência se explica justamente pela riqueza que controlam, elemento que lhes proporciona a capacidade de financiar a defesa dos próprios interesses, inclusive, se necessário, tanto no passado como no presente, pelo uso da força bruta militar na hipótese de a disputa hegemônica parecer pender de modo favorável para o lado dos desvalidos.
E esse é um ponto importante: trata-se de uma luta de classes bastante desigual, na qual a força bruta da nobreza sempre pode ser imposta sobre a força da ideologia da plebe, o que obriga a que uma eventual vitória da disputa hegemônica pelos pobres seja de tal modo incontestável que atraia inclusive a força militar, cujos integrantes, em sua maioria, também são pobres.
Gramsci observa que a riqueza permite que as posições de influência na sociedade, como políticos, magistrados, jornalistas e outras, sejam ocupadas majoritariamente, ou pelos próprios integrantes da classe dominante ou por seus capatazes, o que possibilita a capilarização do discurso hegemônico que se pretende seja absorvido pelas classes desfavorecidas.
Num passado remoto, início da civilização, a elite mantinha o poder essencialmente pelo uso da força bruta e da força reverencial da narrativa religiosa, que sempre compactou com a dominação dos ricos. A partir de determinado momento na História, a força bruta e a narrativa religiosa se viram reforçadas pela narrativa secular produzida pela indústria cultural, que gera encanto e admiração no público ao mesmo tempo em que dissemina no inconsciente coletivo a ideia altamente equivocada de que a ambição egoísta dos bilionários em sua perseguição pelo poder e pelo lucro é capaz de produzir justiça social. Esse axioma da hegemonia é sintetizado na máxima enganosa “aumentar o bolo para depois dividi-lo”. Claro que, enquanto o bolo cresce, ele permanece no controle dos ricos, que dele abocanha grandes fatias; por outro lado, dividir o bolo com justiça jamais foi historicamente possível e nunca o será; os pobres não recebem fatias, mas as migalhas caídas da mesa farta dos ricos.
A cultura de massa, vendida como arte, é um importante agente disseminador da ideologia dominante, como disse Marcuse. Afinal, nada como utilizar a alegoria de seres superpoderosos e éticos, porém fictícios, como Superman, Homem de Ferro ou o Capitão América, incansáveis na busca da justiça, para fixar na consciência geral a ideia de que é possível a existência de bons propósitos na intervenção mundial concretamente praticada por seres superpoderosos reais, como multimilionários, bilionários, corporações e países com potência nuclear.
Quanto a esses seres superpoderosos reais, vale esclarecer que corporações e países não são pessoas físicas naturais, mas “pessoas jurídicas morais”, no jargão jurídico. Tratam-se de ficções jurídicas criadas pelo engenho humano como ferramentas para facilitar a realização daquilo que desejam as pessoas reais, físicas, que as controlam. Portanto, lá no fim da cadeia de comandos, sempre há pessoas exercendo o poder; pessoas iguais a qualquer outra no que toca à fisicalidade e à vida mental. A única diferença dessas pessoas para as pessoas comuns que dominam é que, por obra e graça do acaso (notadamente no caso de herdeiros), possuem imensa riqueza. Portanto, ao fim e ao cabo, todo mal que emana do sistema é sempre determinado por uma pessoa específica ou por meia dúzia delas. A miséria, a fome e outras indignidades sociais não são consequências inexoráveis do sistema (“as coisas são assim mesmo”), mas frutos de decisões pensadas e tomadas por alguém em algum lugar, de modo que os culpados existem, somente não são ou não podem ser rastreáveis.
Como deve ter sido notado, não incluí no rol dos superpoderosos os sacerdotes, embora de fato o sejam. Não o fiz pelo simples fato de que aqueles que realmente interessam politicamente são, antes de sacerdotes, bilionários, empresários da fé que controlam corporações por eles alcunhadas de “igrejas”. Assim, já se encontram inseridos na primeira categoria (poder econômico), sendo dispensável incluí-los numa segunda categoria (poder reverencial). Porém, é importante considerar, quanto a eles, o impacto do poder reverencial na consciência do outro, de modo que, no caso deles, há uma união extremamente maléfica entre o poder da riqueza que possuem e uma alegada aprovação divina do que dizem ser o certo, com ameaças aos crentes de sofrimento eterno no inferno para os que não se submeterem à farsa da “palavra de Deus” que eles mesmos professam. Essa palavra “divina” dita do púlpito serve, inclusive, para orientar crentes a votar em alguém ou ajudar na compra de avião novo para substituir o avião antigo do sacerdote. Ao que parece, o poder de Deus não é suficiente, nem para manter um avião velho voando em segurança, nem para eleger candidatos políticos sem necessidade de que o pastor utilize o púlpito sagrado como palanque profano.
Os desfavorecidos, por sua vez, soterrados incessantemente, desde o instante do nascimento, por intensa propaganda que determina o que é “realidade”, estabelece que “as coisas são assim mesmo” e condena quem diz o contrário por disseminar “teorias da conspiração”, culmina por internalizar e naturalizar os pensamentos e ideias da elite, equivocadamente os interpretando como benéficos para si mesmos.
Os bilionários podem vir a exercer o poder pessoalmente, como Trump atualmente. Porém, o mais comum é o exercício do poder através da manipulação das marionetes que integram o que costumamos chamar de “governo”, que nesse texto será entendido como composto pelos poderes executivo, judiciário e, principalmente, legislativo. Aliás, o Big Carrot está instrumentalizando a presidência estadunidense para aumentar a própria fortuna a partir das ações aparentemente sem sentido que adota. Apesar do evidente conflito de interesses, a imprensa corporativa, lá e cá, não faz alarde. Isso não causa surpresa, afinal ele a representa.
Perceba-se que, por conta da forma como operam as democracias, não há necessidade de que todos os integrantes do governo sejam “marionetizáveis”, bastando aos bilionários controlar os principais agentes políticos e a maioria dos integrantes dos parlamentos. É assim que funciona aquilo que chamamos ingenuamente de “democracia” e que Lula, acertadamente (embora criticado pelos tolos), adjetivou de “relativa”.
A democracia relativa torna desimportante a orientação política da pessoa que o povo acredita que executará o projeto político aprovado eleitoralmente, pois comandará o poder do Estado chamado, não por acaso, de “poder executivo”, que é o presidente da República. Seja progressista (de esquerda) ou liberal econômico (de direita), o presidente dependerá da obtenção de maioria parlamentar para conseguir colocar em prática o projeto político eleito. Isso não é um mal em si mesmo, já que os parlamentares também representam o povo e com maior teor de representatividade.
Contudo, torna-se um terrível obstáculo numa realidade na qual os bilionários são capazes de obter o controle do governo através da formação de um parlamento de maioria liberal econômica que apoia seus interesses. Fazem isso através de pesada intervenção econômica na política, seja financiando campanhas políticas (de modo público ou oculto) ou pelo caminho mais fácil da corrupção bruta, inclusive através de financiamentos de “projetos culturais” fajutos e superfaturados, como vimos recentemente. Assim, conseguem dar sustentação a governos de direita que lhes sejam favoráveis ou antagonizar governos progressistas eventualmente eleitos, impedindo a consecução do projeto político escolhido pelo povo nas urnas.
Em ambos os casos (financiamento de campanha ou corrupção), os gastos efetuados pelos bilionários para controlar a política são vistos como um bom investimento, conforme ficou muito claro no escândalo político atual provocado pelo caso do banqueiro Vorcaro.
É dessa intervenção econômica que deriva o imenso poder do “Centrão”, bancada pluripartidária do baixo clero sem objetivo político definido que sucessivamente atua na política brasileira desde a redemocratização, renovando-se a cada eleição parlamentar, que se apresenta como uma espécie de balcão de negócios ou leilão de votos. Seus integrantes, quando chamados a apreciar projetos de lei, jamais votam pelo bem do povo, mas segundo o maior lance oferecido: o “financiamento” oferecido pelos ricos ou a fatia orçamentária que lhes for destinada pelo governo. Trata-se de uma armadilha política cuja solução, por enquanto, somente se opera pela vontade do eleitor, através de um voto consciente capaz de ampliar as bancadas das esquerdas.
O que ocorre de fato, no plano da materialidade nua e crua, é que os superpoderosos reais não se identificam com a ética humanística do Superman, mas com a vilania narcísica do Capitão Pátria, da série “The Boys”, produção cultural que se distingue do discurso hegemônico, ao menos um pouco, ante o teor de crítica social que contém. A série retrata com maior fidelidade o que ocorreria se seres humanos com superpoderes de fato existissem, considerando-se a natureza tendencial da psicologia humana que emerge a partir de seus impulsos instintuais evolutivos, notadamente o alto grau de egoísmo inato que, embora possa ter sido eventualmente necessário nas savanas, hoje se tornou um problema coletivo.
Não por outro motivo, o Capitão Pátria, que possui poderes similares aos do Superman, é apresentado na série como o principal alicerce de uma corporação imensa, bilionária e altamente poderosa na política, cujo discurso midiático é o da pacificação, liberdade, democracia e justiça. Não obstante, nas sombras, pratica as maiores atrocidades contra todo e qualquer obstáculo aos seus interesses pessoais e corporativos, como quando fez cair um avião lotado de passageiros inocentes, simulando um acidente aéreo para ocultar o intuito de matar apenas um deles, considerado inimigo da corporação.
O discurso “politicamente correto” utilizado ardilosamente pelo Capitão Pátria é, essencialmente, o mesmo de que lançam mão os bilionários para justificar a exploração econômica que praticam ao redor do mundo, conduzindo à miséria as populações de países inteiros. Acaso contrariados, o mesmo discurso justifica a provocação de guerras do tamanho necessário para alcançar seus objetivos. No limite, justifica o extermínio de toda uma civilização milenar em apenas uma noite “para nunca mais ser trazida de volta” (Trump, 07/04/2026, sobre os iranianos), o que, objetivamente falando, significa jogar centenas de bombas nucleares nas cabeças de quase uma centena de milhões de pessoas inocentes em uma noite, única possibilidade real de concretizar a ameaça. Mas, claro, em nome da paz, da democracia, da liberdade, da justiça e até de Deus. Afinal, nada mais libertador do que o extermínio e a morte, pensamento adequado para os Capitães Pátria da realidade atual, como foi para os nazistas da Alemanha no passado. Até nisso a série é provocativa, já que uma de suas principais personagens, parceira de primeira hora do Capitão Pátria, é uma super-heroína com passado nazista, a Tempesta.
Esse tipo de discurso belicista-apocalíptico é um manifesto típico da extrema-direita e se encontra absolutamente albergado pelos interesses dos bilionários. São eles que sustentam, em todo o mundo, a propaganda da extrema-direita e financiam as campanhas dos candidatos extremistas. Para ficar apenas nos eleitos, olvidando dos extremistas que perderam as eleições, como Marine Le Pen ou Melechon na França, foi assim com Trump (ele próprio um bilionário) nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Milei na Argentina, Orban na Hungria, Giorgia Meloni na Itália e Keiko Fujimori no Peru, todos apoiados e financiados pelo mesmo sistema político bilionário em relação ao qual se apresentam como “antissistema”.
É importante estabelecer, sem meias palavras, primeiro, que, no mundo inteiro, a direita se apresenta como marionete dos bilionários, posicionando-se invariavelmente na defesa dos interesses dessa elite, e, segundo, que a direita inevitavelmente se converterá em extrema-direita quando a elite dominante se sentir encurralada politicamente. Foi o que ocorreu na Alemanha nazista, já ocorreu nos países da América do Sul na década de 1960, inclusive Brasil, e está ocorrendo atualmente em vários países, inclusive da Europa e nos EUA, e também aqui, novamente, ainda que as gradações, por enquanto, sejam distintas.
No Brasil a situação é mais assustadora, uma vez que a condução do processo político para a extrema-direita é acompanhada, pari passu, por um discurso religioso fundamentalista que a defende, vindo principalmente das religiões evangélicas neopentecostais, mas também de outras religiões, inclusive as protestantes tradicionais, a católica e o espiritismo.
O ingresso dos religiosos na luta secular política faz presumir que, aparentemente, acreditam que isso é importante para o crescimento espiritual, alcance do nirvana, cessação das reencarnações e ida ao Éden. Será que o Cristo que ensinou a palavra “A César o que é de César” concordaria? Se a luta política fundada na pura fé individual de que se está no bom combate é capaz de levar ao paraíso, esses mesmos religiosos necessariamente tém que acreditar que o comunista Che Guevara se encontra no Éden, pois, nesse sentido, foi um mártir.
Não cabe entrar em detalhes nesse curto espaço que já se alonga em demasia, porém vou abrir parênteses para falar sobre a existência de pesquisas acadêmicas indicando que o avanço das igrejas neopentecostais no Brasil, a partir da década de 1950, não ocorreu por conta da vontade de Deus, mas sob a direção e financiamento dos serviços de inteligência dos EUA. O objetivo seria antagonizar os sacerdotes da Igreja Católica adeptos da Teologia da Libertação, vistos como socialistas. O tema é destrinchado pelo historiador Rodrigo de Sá Netto em seu livro “O Partido da Fé Capitalista”, baseado em sua tese de doutorado.
A partir dessa intervenção estrangeira, que foi bem-sucedida, o evangelismo neopentecostal invadiu todos os aspectos da vida brasileira, inclusive a política e até o futebol (20 dos 26 convocados atuais são evangélicos).
Porém, obteve sucesso. O propósito altruísta da Teologia da Libertação (“opção preferencial pelos pobres”) foi anulado. Em seu lugar, disseminou-se a ideia egoísta da Teologia da Prosperidade, orientada pela máxima “Deus dá riqueza a quem paga o dízimo e quem mais paga mais riqueza obtém”, que significa, sem tirar nem pôr, o retorno da troca comercial que era a venda de indulgências para a salvação das almas, prática combatida por Lutero e que conduziu ao movimento protestante. É uma evidente distorção da palavra sagrada, mas os crentes depositam fé em sacerdotes estelionatários.
Ao longo do tempo, paulatinamente, de forma cada vez mais aprofundada, a intervenção religiosa neopentecostal, com disseminação da narrativa da Teologia da Prosperidade, provocou, não somente dentre os evangélicos mas também espraiando-se para outros setores sociais, a substituição de um sentimento coletivo altruísta por outro de natureza egoísta. Isso pode explicar, em grande parte, o sentimento popular de descrédito da política como ferramenta de solução dos problemas coletivos, e dos políticos, vistos de forma genérica como descolados da realidade e envolvidos em corrupção. Pode explicar, também, a origem da clivagem da sociedade brasileira que atualmente se vê, um cenário no qual uma metade evita a outra e ninguém sente falta de um outro que representa o oposto de sua visão de mundo. O egoísmo necessariamente conduz à despreocupação com o outro e com o ambiente coletivo, tanto nos eleitores que se orientam pelo ideal da prosperidade, como nos políticos que elegem.
Seja como for, após testemunhar as sucessivas vitórias eleitorais da esquerda e a consolidação de um eleitorado de esquerda que gira em torno de trinta por cento dos eleitores, os bilionários entraram em um desespero racionalmente inexplicável, inclusive e notadamente os controladores da mídia tradicional, que se lançaram, em furor midiático, a criar manchetes cada vez mais escandalosas sobre “corrupção” dos governos petistas. Inexplicável porque, durante os governos petistas, não somente continuaram ricos, como ficaram ainda mais ricos. A explicação somente pode vir do preconceito elitista (oriundos da pobreza não podem chegar ao poder); de um egoísmo brutal e sem sentido (receio de perder mão de obra barata que abastece o setor produtivo, de serviços e doméstico, ante o aumento real da renda); e do temor de que os avanços sociais se aprofundassem (pobres não devem avançar em conquistas sociais nem mesmo de forma gradativa, devendo permanecer para sempre na mesma condição, como ocorre com os dalits indianos).
Movidos por esse desespero paranoico, tentaram, primeiro, interromper as conquistas da esquerda através do embuste que foi o processo do mensalão, cujas provas foram absurdamente manipuladas para conduzir à responsabilidade de líderes do PT através do uso equivocado de uma teoria jurídica estrangeira, a Teoria do Domínio do Fato, cujo criador, o jurista alemão Claus Roxin, veio a público afirmar não ter sido ela (sua teoria) utilizada corretamente nas condenações do mensalão. Esse primeiro movimento não deu certo, muitas condenações foram revistas e Lula foi reeleito.
Em seguida, tramaram uma motivação para o impeachment de Dilma, as chamadas “pedaladas fiscais”. Na verdade, tratava-se de um mecanismo contábil usualmente utilizado por presidentes e governadores estaduais antes dela, mas que somente contra ela gerou um processo de responsabilidade e depois o impedimento. No entanto, bastaram poucos dias após a posse de Temer, para o sistema criar uma lei autorizando a utilização desse mecanismo contábil. Após conseguirem um impeachment fajuto e legalizado o procedimento, nenhum outro chefe do executivo foi ou será responsabilizado pela acusação que destituiu uma presidente legitimamente eleita e reconhecidamente honesta. De todo modo, não obtiveram sucesso em deter a caminhada eleitoral da esquerda, pois as pesquisas eleitorais indicavam, para 2018, a vitória de Lula.
Os bilionários partiram, então, para a barbárie. Através de suas marionetes da direita, alinharam-se ao projeto mais vil que já existiu na política nacional, a extrema direita consolidada no projeto bolsonarista; mais vil do que o Integralismo que, apesar de utilizar o mesmo lema fascista “Deus, Pátria e Família” e esticar o braço ao estilo nazista nas saudações, ao menos, era autenticamente nacionalista; usava o indígena “anauê” como saudação (“salve”, “você é meu irmão” ou “seja bem-vindo”) e tinha Tupi como símbolo. O Integralismo, como todo movimento fascista, rejeitava o socialismo, mas repudiava também a economia liberal e as multinacionais, acreditando no controle estatal, com propostas de valorização do trabalho e incentivo às pequenas empresas. Com esse perfil, o líder integralista Plínio Salgado jamais pediria a uma potência estrangeira que atacasse o Brasil, seja com tarifas de importação sobre a produção de empresas brasileiras; embargos econômicos ou financeiros contra instituições, empresas ou pessoas brasileiras; ou, ainda, mísseis contra “terroristas” que traficam drogas. Salgado entendia que nossos problemas são somente nossos. Interessante é que alguns estudiosos afirmam que o Integralismo naufragou por excesso de intelectualidade, enquanto o bolsonarismo naufragará por ausência completa dela (o falecido astrólogo não conta como intelectual).
Os ricos decidiram pelo alinhamento com um neofascismo jabuticaba, pois agora antinacional e defensor das corporações internacionais. Manteve, porém, a essência fascista, centrada no culto ao líder, no autoritarismo, no uso da violência militar contra o povo, no anticomunismo, na manipulação emocional das massas através da distorção dos fatos, sustentação de crenças contraditórias ou em verdades inventadas (duplipensar e pós-verdade).
Esse alinhamento resultou, num primeiro momento, no escandaloso lawfare praticado pela Operação Lava-Jato, que cumpriu com zelo o seu papel subalterno de feitor, condenando e prendendo o líder das pesquisas para assim excluí-lo do processo eleitoral. Tudo com intenso e explícito apoio da grande imprensa, que faz parte do alinhamento.
Mas, algo saiu dos planos dos conspiradores. Fraudes processuais praticadas pelos operadores da Lava-Jato foram constatadas quando o processo saiu do âmbito estrito do circo montado pelo Ministério Público Federal, Justiça Federal do Paraná e Tribunal Regional do Rio Grande do Sul. Aqui é importante esclarecer que essas fraudes processuais foram reportadas pela defesa, e apontadas pela mídia alternativa, desde o nascedouro do processo, sendo solenemente ignoradas pela acusação e pela mídia corporativa. Lula voltou à condição de inocente e venceu novamente a eleição, obtendo um terceiro mandato. O quarto mandato parece cada vez mais palpável, do que se pode aguardar um aprofundamento do extremismo de direita, afinal, como disse alguém mais sábio do que eu: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” (Mark Fisher).
O filósofo se referiu ao fato de que o capitalismo possui tal força estruturante em nossas consciências, tal magnitude de apego ideológico, formado desde o nascimento, que faz com que a imensa maioria dos indivíduos sequer pensem, por um segundo que seja, na possibilidade de construção de sociedades alternativas, uma ideia considerada tão fantasiosa como a existência de Nárnia. É fácil, lógico e razoável, contudo, estender a interpretação para o entendimento de que seria mais realístico supor que os bilionários determinariam a destruição do mundo do que imaginar que renunciariam ao gosto pelo poder, ao estilo de vida e aos luxos somente permitidos por uma riqueza extrema e sem sentido, como acordar um dia e decidir “vou construir uma espaçonave para ir a Marte”. Agiriam como no ditado popular: “Nóis trupica mas num freia”. A fala apocalíptica de Trump deixou isso bem claro para o mundo.
Contudo, existem os pouquíssimos que entendem a total loucura, o verdadeiro harakiri coletivo, que significa alguém ter o direito legítimo de se tornar tão rico ao ponto de ter capacidade para comprar boeings, iates gigantescos ou construir espaçonaves, em detrimento de uma população mundial majoritariamente carente. Não vou entrar em detalhes, pois isso alongaria em demasia o texto, mas é prejudicial para o próprio capitalismo uma concentração de riqueza tão grande como a que existe atualmente, como concluí em meus textos “Um sistema econômico natural”, em janeiro de 2013, e “A inviabilidade da riqueza infinita”, de setembro de 2014. São textos mais simples, porém suficientes para o entendimento do raciocínio.
Ante tal visão, e apesar de refletirem sobre alternativas, muitos concluem pela impossibilidade de alteração do sistema, pois as forças do poder são muito fortes, tornando muito difícil escapar da armadilha narrativa. Assim, o capitalismo selvagem atual seria uma fatalidade tão inevitável à humanidade que um cenário alternativo somente poderia emergir após uma hecatombe destruidora de todas as estruturas de poder existentes, assim produzindo um hiato aberto à criação de novas formas. Entretanto, o custo em vidas invalida por completo admitir a hipótese; mesmo considerando a miséria de que padecem milhões e milhões pelo mundo afora, dessa miséria não deve resultar a desconsideração do valor de cada uma dessas vidas.
Por outro lado, mesmo considerado um cenário de pós-hecatombe, uma evolução social positiva dependeria do acaso, de muita boa sorte. A realidade somente seria realmente alterada na hipótese de os sobreviventes não serem nem extremamente egoístas nem apegados em demasia à religião; caso fossem, toda a história pré-hecatombe se repetiria.
Então, a única solução possível e viável, sem a necessidade de hecatombes que no máximo gerariam uma vitória de Pirro, é o exercício da política, apesar de toda e qualquer falha que contenha. As falhas do sistema político precisam ser superadas pelo uso da inteligência para a conquista da disputa hegemônica. E a disputa hegemônica opera, no campo imediato, como jogo jogado e não como estrutura revolucionária, embora, mediatamente, possa conduzir à revolução.
Porém, como se não bastassem os gigantescos obstáculos provocados pela oposição de direita e de extrema direita, governos de esquerda têm que lidar também com o fogo “amigo” representando pelos críticos de “esquerda” (tenho dúvida sincera quanto ao uso do adjetivo para alguns deles), tão ou mais ácidos que os de direita, e que, não por acaso, costumam ser integrantes ou simpatizantes de partidos de esquerda sem viabilidade eleitoral.
Não cansam de repetir a surrada ladainha de rendição dos governos petistas à cartilha neoliberal; sua sujeição às chantagens do Centrão; e sua falta de apetite por promover a conscientização do povo a fim de colocá-lo nas ruas exigindo as reformas estruturais que o capitalismo necessita para possibilitar a redução das desigualdades sociais.
Como esses críticos supõem que reagiria a maioria parlamentar, que faz intensa e suja oposição aos governos de esquerda, se o governo federal se dedicasse a criar espaços de “doutrinação” (na visão dela) para o povo brasileiro? Por muito menos fizeram o impeachment de Dilma e prenderam Lula.
Um deles, famoso, tece duras críticas aos governos petistas por, dentre outras coisas, considerá-los “neoliberais”. Todavia, esse mesmo crítico, um ano atrás, declarou apoio a um candidato adversário, para a eleição presidencial de 2026, caso ele viesse candidato. Trata-se de um apoio totalmente cego às evidências que emanam, não somente da trajetória política desse candidato, mas também ao seu temperamento, evidente narcisismo e violência discursiva, tudo indicativo de uma certa inclinação ao autoritarismo. Ao que parece, esse crítico de esquerda comoveu-se com as promessas que esse candidato escreveu em um livro de campanha.
Um ano após esse crítico de esquerda declarar apoio, esse candidato, como qualquer analista mediano seria capaz de prever a partir da análise de seu histórico, possivelmente por não suportar mais a carga psicológica que decorria da necessidade de manter as aparências, jogou os escrúpulos às favas. Saiu do partido pelo qual foi candidato à presidência; retornou à sua origem de direita, embora num partido muito mal disfarçado de social-democrata, e se aliou à extrema direita na pretensão eleitoral ao governo de um estado do nordeste. Fez isso indo contra o partido do qual mal saíra e contra a própria família.
Caso chegasse à presidência, é praticamente certo que esse candidato diria “esqueçam o que escrevi”, como supostamente disse um correligionário seu, jogaria o seu livro de campanha no lixo e governaria para os ricos. Para sorte dos brasileiros, inclusive do crítico a que me refiro, aparentemente a viabilidade eleitoral desse candidato, ao menos em eleições majoritárias, extinguiu-se. Quanto ao crítico, mostrou-se, no mínimo, contraditório em sua crítica ou deficiente na análise da realidade.
Ao contrário do que afirma a crítica vinda da esquerda opositora, a conscientização do povo, objetivando a mobilização das massas, não deve ser considerado um trabalho cujo ônus é do governo federal, ainda que possa ser realizado de forma secundária e sutil através da propaganda institucional de suas realizações. Trata-se de objetivo a ser perseguido por todos os partidos políticos de esquerda, sindicatos, associações de moradores, associações estudantis, estudantes, artistas, jornalistas de esquerda e outras pessoas e instituições progressistas, inclusive os críticos.
Dificilmente esses mesmos críticos de “esquerda” aceitariam que governos de direita ou de extrema-direita criassem esses espaços de doutrinação das massas em seu benefício. Por isso, criticar o governo porque não produz conscientização no povo é, com todo o respeito, um despautério. Salvo se estiverem se referindo, e certamente não estão, à qualidade da educação formal do povo. Governos eleitos não devem governar somente para os seus simpatizantes, mas para todos. Aliás, essa era uma crítica contumaz da esquerda ao governo de Jair Bolsonaro, que se orientava majoritariamente para agradar aos eleitores de direita, ao menos no plano discursivo, já que, materialmente, a proposta era beneficiar os ricos.
Ficamos assim: um governo federal de centro-esquerda, cujo programa político possui evidente inclinação pela social-democracia, precisa se defender da pecha de comunista que os ativistas de direita tentam lhe rotular. Paradoxalmente, precisa também se defender da pecha de neoliberal com que é atacado pela esquerda oposicionista (e oportunista). Tudo isso enquanto tenta evitar que a extrema direita fascistoide retorne à presidência.
Haja ou não intenção, esses críticos de esquerda atuam como quintas-colunas, aliando-se aos críticos de direita no enfraquecimento eleitoral da única alternativa viável do campo progressista contra o retorno do fascismo ao governo federal. Ah, claro. Esses críticos também atacam o PT por se considerar a “a única alternativa eleitoral viável da esquerda”. Contra isso não há o que argumentar. Seria o mesmo que refutar a afirmação de que “o ar é a única composição gasosa que o ser humano pode respirar”. É um fato que os demais partidos de esquerda ainda não possuem densidade eleitoral suficiente para vencer a disputa pela presidência, o que somente ocorreria caso o PT renunciasse a indicar um candidato próprio e viesse a apoiar a candidatura de outro partido de esquerda, assim atraindo os votos de seus eleitores. Por outro lado, creio não existir dúvida alguma de que, caso ocorresse de algum outro partido de esquerda chegar ao segundo turno contra um partido de direita, seria naturalmente a escolha também dos eleitores petistas. O que desejam os críticos da esquerda, na verdade, é a desistência do PT de lançar candidaturas, o que deslegitima a própria razão de existência do partido, pois partidos políticos existem para pacificamente chegar ao poder e é isso que seus eleitores desejam. Renunciar a uma candidatura própria quando existe viabilidade eleitoral é, praticamente, uma traição do partido aos seus eleitores.
Ao lado disso, vale lembrar a fala do economista John Maynard Keynes, segundo a qual “a longo prazo todos estaremos mortos”. Em outras palavras, as políticas públicas devem servir ao povo imediatamente, pois a fome tem pressa e a doença também. Levando isso em conta, o que os críticos costumam esquecer e interessa de fato, é que os governos petistas introduziram uma novidade histórica nos mais de quinhentos anos do Brasil: uma introdução relevante dos desvalidos no orçamento público.
Os críticos de esquerda não costumam tecer consideração alguma sobre a realpolitik, ou seja, sobre os limites do possível político. Ou, quando tecem, é para repudiar o conceito, como se antecipar benefícios fosse um pecado; como se somente quem chegasse ao destino final importasse, não os que caminham até ele; como se o sacrifício de milhões de desvalidos durante o percurso, por fome, sede ou frio, fosse um dano colateral aceitável.
Para eles, é como se todo o processo político operasse num campo de magia e tudo dependesse apenas e tão somente de um feitiço chamado “vontade política”, seja para alcançar o resultado total, seja para mobilizar as massas de uma hora para outra. O mundo, meus caros, não é assim. Tudo deve ser arrancado através de fórceps imediato ou longo convencimento. O fórceps revolucionário e sanguinário deve ser uma última e desesperada tentativa, não um elemento impositivo para a conquista de poder e modificação da realidade.
No limite do que o horizonte político permite e dentro da normalidade constitucional, os governos do PT alcançaram resultados invejáveis. Os mais importantes deles, segundo penso, foram os aumentos reais significativos na renda coletiva. Ao longo dos anos, salário mínimo, aposentadorias e a inclusão de dezenas de milhões de pessoas no programa de transferência de renda Bolsa Família incluíram dezenas de milhões de necessitados em condições de consumo e assim, finalmente garantir o almoço e o jantar em todos os dias. Isso está longe de ser pouco. Trata-se, praticamente, de uma revolução no campo social. Contadas todas as pessoas beneficiadas direta ou indiretamente por essa injeção de renda, mais de uma centena de milhões de pessoas passou a ter segurança alimentar. Em 2014, o Brasil saiu do mapa da fome da ONU; em 2018 voltou ao mapa, logo após o fim do governo Temer e início do governo Bolsonaro; em 2025, novamente saiu do mapa da fome. Dados os percalços geopolíticos que costumam trazer em seu bojo, muito possivelmente uma revolução comunista, que esses críticos tanto desejam (mas que dela muitos fugiriam em direção à Europa) não seria capaz de atingir tal objetivo e atender a tantos em tão pouco tempo.
Apesar de dar o peixe, não se trata de não ensinar a pescar. O Bolsa Família é, também, um projeto de futuro, pois envolve a necessidade de matrícula escolar, assim como o aumento de salários e aposentadorias certamente refletiria positivamente na educação infantil e juvenil. Também são projetos de futuro outros programas com finalidade educacional como a multiplicação extraordinária da quantidade de escolas técnicas e institutos federais Brasil afora (140 foram criadas nos quinhentos anos antes dos governos petistas, que criaram mais de 400 novas unidades), Prouni, Pronatec, Fies, Ciência Sem Fronteiras, Mais Cultura nas Escolas, Caminhos da Escola e outros.
Em habitação e saúde, tem-se o Minha Casa, Minha Vida, Luz Para Todos, Farmácia Popular e o Mais Médicos. Na segurança hídrica, a transposição do São Francisco beneficiou dezenas de milhões de pessoas e o programa Cisternas No Sertão já atendeu cerca de um milhão e meio de famílias, o que, em média, significa beneficiar seis milhões de pessoas (quatro por família).
Estamos falando de centenas de milhões de pessoas diretamente beneficiadas nos campos de renda, segurança alimentar e hídrica, educação, saúde, energia elétrica, fora outros. De fato, ainda que não seja a quantidade utópica ou ideal de pessoas (que seria a totalidade do povo), estamos falando, materialmente, de uma inegável redução das desigualdades sociais que beneficiou uma quantidade de pessoas muito maior do que a população total da maioria dos países mundo afora.
Porém, através do consenso político, sem revolução, os críticos de esquerda não aceitam. Problema dos pobres que morrerem de fome enquanto aguardam a revolução, daqueles que morrerem nas batalhas da revolução e dos que morrerem de fome após a revolução em virtude dos embargos econômicos que certamente virão.
Esses críticos, em lugar de exaltar pública e incessantemente tantas conquistas sociais eleitoralmente favoráveis, silenciam sobre elas, focando apenas no que enxergam como problemas. Enquanto isso, o eleitorado de direita segue aumentando.
Estabelecido que os eleitores são enganados por uma narrativa de poder que lhes é inculcada desde o nascimento e renovada diariamente pela grande mídia (como na escandalização pesada e atravessada da corrupção em governos de esquerda), fica fácil entender por que se movem na direção do voto em propostas com as quais pessoalmente não concordam, sem estabelecer um liame de causalidade entre o voto que deram e a dor padecida individual e coletivamente. Trata-se do resultado da incontestável vitória da disputa hegemônica pelos ricos.
Como já sugerido, o poder somente chegará em benefício dos desvalidos em duas situações: (a) pela vitória na disputa hegemônica ou (b) por revolução. Ocorre que a própria revolução depende de vitória do discurso ideológico, não aquela capaz de conduzir ao consenso político e torná-la desnecessária, mas para convencer as forças que integrarão os combates, notadamente os militares.
Contra a revolução, contudo, depõem os efeitos trágicos que dela decorrem, que teriam uma dimensão incalculável se considerada a tecnologia militar atual. Sendo assim, as forças progressistas devem focar suas energias no espaço narrativo, na conscientização popular. Portanto, afora a equivocada condenação do governo pelos críticos de esquerda, sim, a conscientização do povo é importante, porém em direção ao voto e não à revolução.
Para isso, o eleitor precisa
O eleitor precisa ter consciência de que há uma histórica batalha política que envolve duas forças políticas antagônicas, esquerda x direita, e ter noção dos objetivos que cada uma dessas forças persegue. Precisa, também, identificar, para além de qualquer dúvida, de qual lado dessa batalha está a força política que o defende.
Esquerda e direita buscam soluções sociais em dimensões ideológicas diametralmente opostas que tendem a se aproximar ao centro. A Ciência Política define a dimensão ideológica como um gradiente que se estende, principalmente em termos de política econômica, de “controle governamental pleno” (esquerda) até “mercado completamente livre” (direita). O centro político é uma zona cinzenta situada entre esses extremos. Portanto, o eleitor precisa definir o seu voto a partir daquilo que entender como o melhor caminho para que os resultados da economia nacional o beneficie em termos de obtenção de emprego e de renda. Suas opções são o controle pleno pelo Estado (esquerda); o controle médio (centro); ou o controle mínimo (direita).
De modo geral, há consenso científico de que os principais objetivos políticos e econômicos da direita são voltados para o liberalismo econômico e redução do tamanho do Estado, para isso produzindo forte defesa de princípios como propriedade privada, livre iniciativa e livre mercado. Afora isso, a direita é conservadora na pauta de costumes (o que essencialmente significa defender um moralismo vazio de sentido), extremista no combate à criminalidade, com apoio a mortes sem julgamento, praticadas por policiais e por milícias (ou seja, defende esquadrões da morte), além de propostas de agravamento de penas e redução da maioridade penal, que são “soluções” cujos resultados são altamente questionados no seio da ciência criminal. Não bastasse, ainda defendem, no Brasil, a prevalência religiosa do Cristianismo e a Teologia do Domínio, o que significa essencialmente o fim da liberdade religiosa e do Estado Laico.
Os objetivos dos partidos de direita os definem, sem dúvida, como partidos defensores do sistema que autoriza a existência de bilionários, atuando como capitães do mato dos ricos.
Por outro lado, a preocupação da esquerda está nas políticas de generosidade, ou seja, fundadas no altruísmo social, como redução da desigualdade social; defesa e ampliação dos direitos humanos; proteção das minorias; e fornecimento de serviços públicos essenciais gratuitos para a população, principalmente em educação e saúde, dentre outros. Para isso, embora podendo ser mantida a propriedade privada e o livre comércio, entende necessária a intervenção estatal na extensão do direito de propriedade, que deve cumprir uma finalidade social para além da individual, e no direcionamento da economia para o bem comum da coletividade, sem visar somente a conquista de lucro e o aumento da riqueza individual.
Os partidos de esquerda, dados os seus objetivos, devem ser definidos como partidos que, embora integrem o sistema político, são contra o sistema econômico que defende a riqueza ilimitada, ou seja, atuam como defensores dos pobres. Nesse específico sentido, somente a esquerda poderia ser definida como antissistema; não fora do sistema político, mas fora do conluio sistêmico criado para garantir a exploração máxima da maioria dos seres humanos com vistas somente ao enriquecimento pessoal dos poucos exploradores.
As propostas da direita são, em seu conjunto, lesivas para a conquista da felicidade coletiva mesmo quando praticadas com honestidade intelectual (é raro, mas acontece), de modo que sobre isso muito há a falar, mas não nesse texto. Aqui vou focar em dois objetivos da direita que se chocam com o interesse coletivo. Estou falando da redução do tamanho do Estado e aa manutenção de juros da dívida pública em patamares elevados.
A redução do tamanho do Estado objetiva a diminuição, o mais próxima possível do zero, de investimentos públicos em setores que, pela ótica do livre mercado (ideal da direita) devem ser geridos pela iniciativa privada, o que inclui educação e saúde. O gigantismo estatal em áreas de interesse da elite não é um problema para a direita, como gastos militares e policiais, atividades voltadas para a defesa do patrimônio.
Como consequência, a diminuição da destinação orçamentária em programas direcionados aos pobres reduz o número de unidades destinadas ao atendimento popular e a quantidade (ou aviltamento de salários) dos respectivos servidores (professores, enfermeiros, médicos, agentes administrativos e outros), o que compromete a capacidade do Estado de prestar bons serviços à população ou mesmo impede totalmente o atendimento. Se o déficit na prestação de serviços populares ocorrer num governo de direita, a mídia hegemônica não dará muito relevo; caso seja de esquerda, a dificuldade de o governo encontrar soluções será instrumentalizada para escandalizar, ainda que o problema decorra das decisões de um parlamento com maioria de direita, p.ex., estabelecendo limites para os gastos naquela área ou o fim de programas populares. Foi o que ocorreu, p.ex., com a imposição de um “teto de gastos” para a educação, uma jabuticaba brasileira. Em países mais preocupados com o futuro, costuma existir um piso orçamentário para a educação e não um teto, já que a educação costuma capitanear o crescimento.
Governos de direita, em nome da “austeridade fiscal”, costumeiramente realizam redução nos repasses para a educação e em outros setores voltados para o público pobre. São exemplos o Brasil durante Collor, Temer e Bolsonaro, e a Argentina com Milei. Bolsonaro, em quatro anos, reduziu em treze por cento o orçamento da educação; se tivesse mais quatro anos, a redução poderia ter ido muito mais longe.
Esses governos, por outro lado, dificilmente alteram o perfil de fixação dos juros da dívida pública, mantido em percentual benéfico aos investimentos feitos pelos ricos. Quanto a isso, insistente manutenção dos juros da dívida pública em percentual alto, cabe indagar: para que serve e a quem beneficia? A propaganda hegemônica diz que o objetivo é promover o equilíbrio fiscal e conter a inflação, mas isso é somente propaganda.
Juros altos, especificamente no caso do Brasil, é um meio de assaltar a riqueza nacional. Não é muito diferente do que ocorria quando Portugal era nossa metrópole, na época colonial, rapinando nosso ouro e outras riquezas. É um saque escancarado de parte substancial de nossa arrecadação tributária, que por esse meio é transferida para os cofres dos piratas e corsários do mundo. Com uma Selic a quinze por cento ao ano, como a atual, se o bilionário investir um bilhão de reais em títulos da dívida pública receberá, um ano depois, cento e cinquenta milhões de reais. Pior: não há sequer necessidade de que o valor do investimento saia do cofre do bilionário. Ele pode lançar mão de alavancagem financeiro. Um exemplo: um bilionário vai ao Japão e toma um empréstimo equivalente a um bilhão de reais a juros de dois por cento ao ano, que é o praticado naquele país (às vezes, menos); traz essa dinheirama para o Brasil e compra títulos da dívida pública, que o Brasil devolve com juros de quinze por cento ao ano, que é o atual percentual da Selic. Um ano depois, o investidor bilionário recebe de nosso governo o valor de um bilhão e cento e cinquenta milhões de reais. Com essa dinheirama no bolso, o bilionário volta ao Japão, paga o empréstimo com um bilhão e vinte milhões de reais e embolsa os cento e trinta milhões de reais restantes. Ou seja, sem tirar um centavo de seu cofre, o bilionário ganhou cento e trinta milhões de reais.
Destaque-se que tudo isso é feito “honestamente”, dentro da normalidade de um arcabouço jurídico criado para beneficiar os ricos. Não há razão alguma para que esse bilionário invista em produção e crie emprego e renda se ele é capaz ampliar exponencial a própria riqueza através da apropriação “licita” do produto dos impostos pagos sofridamente pelo povo brasileiro. Praticamente nenhum investimento no setor produtivo é capaz de gerar tanto retorno e com tão pouco trabalho. Trata-se da corrupção lícita ou sistêmica de que nos fala o economista Ladislau Dowbor, que também se materializa em duvidosas isenções fiscais e subsídios concedidos aos ricos.
Apesar de a manutenção de juros altos ser um projeto de uma direita que se afirma capitalista, trata-se de um projeto que prejudica o capitalismo, que é um sistema econômico que depende da existência de produção e renda disponível para o consumo para funcionar adequadamente. Como vistos, o investimento apontado como exemplo não produz nem um nem outro.
O garantidor de juros altos é um Banco Central que se tornou independente para assim os manter, seja qual for o perfil do governo. Sem surpresa alguma, a independência do Banco Central é também um objetivo dos partidos de direita. Essa “independência”, porém, é somente em relação ao governo, pois há intensa dependência entre os dirigentes do Banco Central e o sistema financeiro que deveria regular. É a chamada “porta giratória” do Banco Central. O dirigente indicado é proveniente do setor financeiro e para lá voltará após o mandato, o que causa indiscutível conflito de interesses. Notem que os juros altos são mantidos tanto em governos de direita como nos de esquerda, efeito direto da porta giratória.
Os juros altos da dívida pública consomem mais de cinquenta por cento do orçamento federal. O bolsa-família consome apenas pouca mais de dois por cento do mesmo orçamento. Apesar disso, a mídia tradicional, propriedade dos bilionários, jamais se preocupa em levantar dúvidas sobre a validade da manutenção de juros altos, porém não cansa de escandalizar o impacto dos gastos sociais com os pobres por conta do bolsa-família. Fazem o mesmo com outras despesas de natureza social, como com educação, saúde, aposentadorias e outros. Por conta dessa seletividade midiática, os juros altos constituem um assunto distante da realidade do cidadão comum, que não chega a ter ciência da impressionante quantidade de tesouro nacional que é roubada pelos bilionários. Consequentemente, na hora do voto o eleitor não pesa esse projeto político daninho, que é de direita.
Aliás, a pretensão de redução do tamanho do Estado se encontra diretamente vinculada à manutenção de juros altos para a dívida pública. Afinal, quanto menos gastos públicos com os pobres, maior a capacidade de o Estado pagar aos ricos o investimento feito.
O projeto de redução do tamanho do Estado é uma proposta com maior conhecimento do público. Por conta disso, a análise do binômio “voto x interesses efetivos” provoca perplexidade ante a constatação de que parte expressiva do eleitorado desfavorecido vota em candidaturas da direita, o que significa apoio a um projeto que contraria amplamente seus interesses.
De fato, caso dez pessoas aleatórias nas ruas fossem indagadas sobre se elas consideram importante o ensino público, sem dúvida alguma pelo menos sete ou oito delas diriam que sim. Se idêntica pergunta envolver a saúde pública; segurança pública; investimentos em infraestrutura sanitária, rodoviária e de transportes coletivos de massa (mobilidade urbana); programas de assistência social aos necessitados e idosos; e programas de preservação ambiental, o resultado seria o mesmo: a imensa maioria das pessoas diria desejar a concretização dessas políticas públicas. Caso a pesquisa indagasse desses eleitores de direita desfavorecidos se eles acham justo que metade do que pagam em impostos seja direcionada aos ricos, certamente diriam ser injusto. No entanto, caso essas mesmas pessoas fossem questionadas quanto ao seu perfil político, pouco menos de quatro delas se afirmariam de direita; pouco mais de duas, neutras; e um pouco menos de quatro diriam ser de esquerda.
O paradoxal é que todas as políticas mencionadas na pesquisa são, essencialmente, de esquerda, sendo repudiadas pela direita, e a execução de todas elas é prejudicada, total ou parcialmente, pelo projeto de redução do Estado. A única conclusão possível é que parte significativa dos eleitores vota na direita mas deseja a implementação de políticas públicas de esquerda, como educação e saúde públicas, políticas essas que exigem um Estado maior e mais forte, não menor. Ou seja, grande parte dos eleitores da direita, ainda que não tenham consciência disso, possuem um perfil político de esquerda. Votam na direita mas são de esquerda.
Ao serem capturados pela propaganda da narrativa hegemônica e votarem na direita, atentam contra si próprios, contra as próprias necessidades e aspirações sociais. E estão de tal forma contaminados pelo discurso hegemônico dos bilionários que assim fazem com a maior paz de espírito, como se estivessem fazendo a coisa mais acertada que alguém já fez na história da humanidade. Fórmula perfeita para a frustração.
Quando surge a inevitável frustração eleitoral decorrente da percepção das consequências materiais que lhes batem à porta (fome, desemprego, falta de vagas nas escolas, falta de assistência médica e outras), os eleitores pobres da direita, que almejam resultados de esquerda, apontam os mais variados culpados, menos o próprio voto: são os “comunistas”; são os opositores de um governo de direita “tão bom”; ou até culpados sobrenaturais, como o diabo.
Para finalizar a questão esquerda e direita, três coisas precisam ser pontuados: (1) partidos de direita e de esquerda cometem falhas e podem possuir integrantes de índole duvidosa, como acontece em qualquer instituição humana, inclusive bancos, judiciário, ministério público, igrejas e outras; (2) partidos e políticos de direita e de esquerda integram o sistema político, sendo absurda e ridícula a ideia de políticos “antissistema”, principalmente aqueles que participam ativamente do sistema por décadas antes de ser apresentarem como “antissistema”, somente merecendo esse adjetivo uma revolução de natureza comunista; (3) a corrupção do sistema político é estrutural e promovida incessantemente pelos bilionários, portanto atingindo, como sempre atingiu, tanto governos de direita como os de esquerda.
Nenhuma dessas três circunstâncias é adequada para indicar a maior ou menor honorabilidade desse ou daquele partido de direita ou de esquerda e tampouco para a definição do voto do eleitor. O eleitor que vota no que a propaganda diz ser o partido ou o candidato “menos corrupto” ou “o mal menor”, certamente está sendo enganado.
No que toca ao item (1), o eleitor deve estar atento ao procedimento usual do partido em relação às falhas cometidas e aos malfeitos de seus integrantes. Se apura, retifica e pune, está correto; caso se omita, deve evitar votar na agremiação.
Quanto à corrupção, o eleitor deve investigar em que governos ocorreu maior quantidade de investigações e condenações, pois, ao contrário do que supõe o senso comum, quanto menor essa quantidade, maior o descompromisso com a luta anticorrupção. Nos governos FHC não houve praticamente nenhuma investigação sobre corrupção, embora sabidamente tenha ocorrido uma enxurrada delas, notadamente nos processos de privatização; isso porque havia um Engavetador Geral da República que não permitia o andamento dos processos. Situação similar ocorreu nos governos Temer e Bolsonaro. Nesse último, pelo contrário, restou público que houve intervenção nas investigações promovidas pela Polícia Federal, o que determinou, inclusive, a saída do então ministro da justiça que, na época, irado, saiu grasnando alto contra o governo Bolsonaro. Nada como um dia atrás do outro na vida sem escrúpulos dos alpinistas que escalam a montanha dos próprios interesses; são aliados novamente.
O principal ponto a merecer atenção do eleitor é quanto ao propósito principal contido nos estatutos dos partidos, nos discursos dos candidatos e nas políticas públicas por eles comprovadamente implementadas ou que venham a ser confessadas nos atos falhos presentes nos discursos. Um candidato que faz piada sobre a validade de salário menor para a mulher por menstruar ou engravidar nada mais está fazendo que revelar o seu ânimo misógino. Mulheres não deveriam votar nesse candidato. O mesmo se pode dizer de outras confissões ou atos falhos que revelem racismo, homofobia, necessidade de jornadas de 10 horas em seis dias da semana e por aí vai, caso em que negros, homossexuais e trabalhadores inteligentes deveriam ser afastar dessa candidatura.
A cada quatro anos se abre uma janela de oportunidade imensa para que o eleitor decida o projeto político que deseja seja implementado. São as eleições parlamentares.
O eleitor precisa estar ciente de que de pouco adianta: (1) votar em presidente progressista e permitir que o parlamento seja recheado de representantes dos bilionários que o impedirão de realizar seus projetos de campanha; e (2) votar em candidatos de direita e desejar receber programas de esquerda, como educação e saúde públicas.
O eleitor deve levar em conta, ainda, que o Brasil se tornou um alvo geopolítico para a maior potência do mundo, que busca nos colonizar para saquear nossas riquezas, além de se manter consciente da necessidade de eleição de parlamentares progressistas, preocupados com questões sociais relevantes, como redução da desigualdade de renda e riqueza e direitos das minorias políticas (negros, mulheres, homossexuais, indígenas e outras), eleição tão ou até mais importante do que a escolha presidencial.
Esse é um tema recorrente em meus textos, dado o teor de preocupação que provoca. Foi assim em 2015, aqui, e em 2016, aqui. Está sendo assim agora, mais uma vez.
Termino repetindo o que disse em outubro de 2015 e em outubro de 2016: esquerda, atenção ao legislativo!
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