Argentina e Inglaterra: quando a geopolítica entra em campo
por Francisco Fernandes Ladeira
Em março deste ano, Lionel Messi e seus colegas do Inter Miami tiveram um encontro com Donald Trump na Casa Branca. Recentemente, o atacante inglês Harry Kane classificou como “surreal” a experiência de jogar golfe com o presidente estadunidense.
O perfil (no mínimo) “isentão” dos dois principais jogadores de Argentina e Inglaterra pode nos sugerir que a partida entre as duas seleções, a ser realizada na próxima quarta-feira (15/7) pelas semifinais da Copa do Mundo, será apenas “um jogo de futebol” sem qualquer componente político. Não por acaso, ao ser questionado sobre a ansiedade que envolve a espera por este clássico, o técnico argentino Lionel Scaloni foi taxativo: “É um jogo de futebol. Ponto. Não tem nada além disso”.
Evidentemente, Scaloni foi diplomático para não acirrar os ânimos. Se voltarmos no tempo quatro décadas, veremos que esse Argentina e Inglaterra vai além das quatro linhas e envolve componentes geopolíticos. Em 1982, ingleses e argentinos se envolveram em um conflito pela posse do arquipélago das Malvinas (chamadas de Ilhas Falkland pelos europeus). A vitória do imperialismo inglês custou a vida de 649 soldados argentinos e o rebaixamento da autoestima de toda uma nação. Isso explica, por exemplo, a letra da música “A Quarta Estrela”, cantada pela torcida argentina nesta Copa: “Pelas Malvinas, pelo Diego (Maradona) e pela última do Leo (Messi)”.
Nesse clima de rivalidade geopolítica, Argentina e Inglaterra entraram em campo pelas quartas-finais da Copa do Mundo realizada no México em 1986. Claro que uma partida de futebol não interfere nas relações internacionais tampouco pode recuperar as perdas humanas de um conflito. Porém, é inegável que aquela não seria “apenas uma partida de futebol”. Mesmo antes de a bola rolar, já houve registro de confrontos entre torcedores. “Muitos dos jogadores tinham, pelo menos do lado argentino, amigos ou familiares que tinham sido recrutados, talvez até tivessem perdido sua vida [nas Malvinas]”, escreveu a jornalista e especialista em futebol sul-americano, Marcela Mora y Araujo, em artigo publicado no site da CNN Brasil.
Em campo, um personagem marcou a partida, com dois gols emblemáticos: Diego Maradona. O primeiro gol, com a mão (ou “la mano de dios”), provocou a ira dos ingleses. Sempre politizado, Maradona declarou: “Foi como se a gente batesse a carteira de um inglês”. Sobre o lance, um jornal argentino apresentou a seguinte manchete: “El que roba a un ladrón” (equivalente ao ditado brasileiro: “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”).
Pouco tempo depois, Maradona, ao driblar mais de meio time inglês antes de estufar as redes, faria aquele que é considerado o gol mais bonito da história das Copas. Uma espécie de versão do livro “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, feita com os pés. Foi a vingança simbólica pela perda do conflito quatro anos atrás. “Ele destruiu as tropas de Sua Majestade sem outras armas, exceto o número 10 costurado em sua camisa”, aponta um verso da música “Maradó”, lançada pela banda Los Piejos. A manchete de outro jornal da Argentina não deixou dúvida sobre o componente político do jogo: “Malvinas 2, Ingleses 1”.
Para a anteriormente citada Marcela Mora y Araujo: “o que aconteceu no espaço de alguns minutos foi que tudo o que é possível num jogo de futebol se materializou ali, na frente de todos que assistiam, e feito por um homem. O bom e o mau, o feio e o belo, a ilegalidade e a perfeição: tudo aconteceu ali”.
Pelo contexto e pelo personagem principal envolvido, talvez não haja outra partida em Copas do Mundo que tenha melhor representado a luta dos povos oprimidos contra o imperialismo.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)
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