11 de julho de 2026

Neymar e a pós-meritocracia no futebol – 2, por Francisco Ladeira

Na eliminação do Brasil pela Noruega, Neymar chegou a entrar em campo. Foi uma boa oportunidade para gerar conteúdo para as redes sociais.
Reprodução TV Globo

Neymar foi convocado para a Copa do Mundo mais por imagem e marketing do que por desempenho técnico atual.
Na partida contra a Noruega, Neymar gerou conteúdo nas redes sociais, apesar da queda de rendimento da seleção.
Políticos da extrema direita defenderam Neymar, alegando que ele teria mudado o resultado se jogasse desde o início.

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Neymar e a pós-meritocracia no futebol – parte 2

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por Francisco Fernandes Ladeira

Duas semanas atrás, escrevi um artigo aqui no GGN, relacionando a convocação de Neymar para a Copa do Mundo ao conceito de pós-meritocracia, elaborado pelo professor Wilson Ferreira. Nessa lógica, fatores como imagem midiática, apelo comercial e influência superam o desempenho técnico e a assiduidade em campo.

Ou seja, a posição do jogador no topo do futebol independe de sua entrega física atual, sendo sustentada por uma máquina de marketing, engajamento digital e contratos publicitários gigantescos. Assim, esperava-se que o camisa 10 da seleção brasileira atuasse mais como influencer do que propriamente como atleta durante o Mundial. Dito e feito!

Na eliminação do Brasil pela Noruega, Neymar chegou até a entrar em campo. Não importa se o rendimento do time caiu e o adversário passou a dominar o jogo. Foi uma excelente oportunidade para gerar conteúdo para as redes sociais. Assistir a um jogo dentro do próprio campo. Isso sim é uma experiência imersiva. Promessa de um story com milhões de visualizações. Quem sabe uma selfie?

Portanto, era preciso chamar a atenção, não pelo desempenho (como na lógica “meritocrática”), mas pelo engajamento e comentários (vide pós-meritocracia).

Provocar o adversário, por exemplo, é um corte interessante para viralizar na internet. Primeiramente, com um cartão amarelo ao acertar um pontapé em um jogador da Noruega. Depois, com o jogo encaminhando para o final, surgiu um pênalti para o Brasil. Marcar um gol é uma excelente oportunidade para gerar conteúdo. Neymar corre para a marca da cal e acerta. Naquele momento, o placar apontava 2 a 1 para a Noruega. As chances eram remotas. Mas ainda havia alguma possibilidade.

Como manda o roteiro, era pegar a bola e correr para o meio de campo para tentar o empate no tempo que restava. Mas isso não gera conteúdo, tampouco engajamento. É antiquado, do tempo do futebol analógico. Parece coisa de quem joga para o time.

Então o Menino Ney escolhe a opção mais sensata na lógica da “pós-meritocracia”: bater boca com o goleiro. A seleção brasileira que se dane. O importante é o corte perfeito.

Em tempos de polarização ideológica, Neymar teve o apoio de seus parças da extrema direita. Nikolas Ferreira, Gabriel Monteiro e Flávio Bolsonaro saíram em defesa do jogador. Criaram uma realidade alternativa, uma espécie de terraplanismo futebolístico: se Neymar estivesse em campo desde o início da partida, teria convertido o pênalti que foi perdido e o Brasil teria se classificado.

Só esqueceram de mencionar que Neymar não aguenta uma partida completa (a não ser de pôquer) – afinal, não foi convocado pelo desempenho – e, após ele entrar em campo, a Noruega fez dois gols.

Em outros termos, se ele tivesse entrado desde o início, teria feito dois gols e o Brasil teria levado pelo menos cinco. Pensando bem, seria uma boa ideia: na lógica da pós-meritocracia, o que importa é o conteúdo nas redes sociais, não o placar em campo.

***

Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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