Seguindo a tradição, PCO sai em defesa das bets
por Francisco Fernandes Ladeira
No debate público nacional, o Partido da Causa Operária (PCO) é conhecido por suas posições excêntricas, motivo de chacota na esquerda e entusiasmados elogios por parte da extrema direita. No contexto da pandemia da Covid-19, por exemplo, abraçou o bolsonarismo nos discursos negacionistas e antivacina.
No entanto, em períodos de Copa do Mundo, o PCO apresenta visões mais esdrúxulas do que as habituais. Em 2014, acusou Guilherme Boulos de ser o responsável pela derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1. Talvez Boulos fosse um atacante germânico e não o conhecemos. Sabe-se lá. No último Mundial, a grande partida final entre França e Argentina foi classificada pelo PCO como um jogo medíocre. Tudo isso sem contar a histérica defesa de Neymar.
Seguindo a tradição, na presente edição da Copa, o PCO decidiu sair em defesa das bets. Em um editorial do veículo de imprensa do partido, intitulado “Ataque às bets na CazéTV é defesa do monopólio da Globo”, é apontado que a “cruzada moral” contra as apostas online é orquestrada pelos bancos para ocultar os saques promovidos pelo sistema financeiro. Ou seja, no binarismo forçado do PCO, você deve escolher um lado: ou bets ou bancos. Inexiste a possibilidade de se criticar ambos. Não importa se as bets têm causado maior impacto negativo nas famílias da classe trabalhadora.
Do mesmo modo, no universo paralelo do PCO, denunciar as incontáveis propagandas de bets nas transmissões de jogos na CazéTV é “defender o monopólio da Globo”. Da forma como é colocado no editorial, parece que o canal do YouTube é a vanguarda da imprensa de esquerda contra a mídia conservadora.
Esse modus operandi já é manjado. Para defender o indefensável, o PCO recorre a determinados espantalhos, fáceis de serem criticados. E aí promovem o maniqueísmo: um lado ou outro. Nessa lógica, para ocultar a admiração por Donald Trump, os textos do PCO insinuam que os indivíduos que atacam o atual presidente estadunidense estão defendendo o Partido Democrata e políticos repugnantes como Joe Biden ou Kamala Harris.
Se os elogios a Trump e Neymar estão no campo cômico, servindo para testar até onde vai a fidelidade dos seguidores do PCO, dispostos a passar ridículo nas redes sociais, o apoio às bets tem outros interesses. No anteriormente citado veículo de imprensa do partido – Diário Causa Operária – há publicidades com títulos como “Aposte em escanteios seguindo estratégias e dicas práticas” e “Apostas esportivas: os eventos mais populares entre os brasileiros”.
Não é só busca por engajamento, são motivos econômicos também. Pequeno partido, grandes negócios. No fim, a defesa das bets revela menos uma convicção ideológica do que uma conta bancária a ser alimentada.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)
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