Neymar e a pós-meritocracia no futebol
por Francisco Fernandes Ladeira
Historicamente, as discussões sobre futebol ultrapassam (e muito) o que acontece dentro das quatro linhas do campo. Sartre dizia que o esporte mais popular do planeta é uma metáfora da vida, pois representa as incertezas, esperanças e escolhas que fazemos ao longo de nossa existência. Para Roberto DaMatta, o futebol é a única instância na qual o falacioso discurso da meritocracia pode ser de alguma forma aplicado. Não há apadrinhamento, o sujeito entra em campo porque realmente sabe jogar, não por causa de seu capital social. É impossível fingir ser um jogador.
Nesse sentido, é emblemática a declaração do técnico da seleção brasileira, às vésperas da convocação para a Copa do Mundo, sobre só chamar atletas em plenas condições físicas. No entanto, a convocação de Neymar, que há anos se arrasta nos gramados, a ponto de muitos o chamarem de “ex-jogador em atividade”, contradiz a lógica “meritocrática”. O camisa 10 do Santos é o maior símbolo da “pós-meritocracia” no futebol.
Segundo o professor Wilson Ferreira, do blog Cinegnose, no atual cenário do capitalismo já não é mais possível sustentar a narrativa de que, se um indivíduo se esforçar o suficiente, vai se dar bem na vida. A falta de perspectiva, sobretudo dos jovens, é um terreno fértil para uma nova ideologia: a pós-meritocracia.
Diferentemente da tradicional meritocracia, a pós-meritocracia prega que um sujeito vai subir na vida não pelo esforço, mas “num passe de mágica”, seja como influencer, investindo na bolsa de valores ou apostando em bets. Para quê esperar por algo se posso consegui-lo de imediato? Como alertava Bourdieu: “a esperança mágica é a visão do futuro daqueles que não têm futuro”.
Antes que algum maluco do Partido da Causa Operária (PCO) teleguiado por algoritmos venha aqui me atacar (como sempre fazem), não estou negligenciando o passado de Neymar no futebol. Mas é inegável que seus últimos meses no Santos e sua presença na seleção brasileira refletem de maneira emblemática a pós-meritocracia.
O jogador é notícia pelas dancinhas, corte de cabelo, perfil nas redes sociais, filhos e declarações polêmicas, entre outras questões. Menos pelo desempenho em campo, conforme seria na lógica da “meritocracia”. Lembrando uma recente declaração do presidente Lula, por que jogar quando se pode ser o primeiro convocado em home office do mundo?
Não por acaso, as principais funções de Neymar no espaço público refletem, ironicamente, a pós-meritocracia: influencer no Instagram e garoto propaganda de bets. Seu valor de mercado parece medir-se menos pelo que faz com a bola do que pelo número de seguidores que mobiliza.
Seria cômico se não fosse trágico.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)
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