10 de junho de 2026

O Irã como protagonista da resistência anti-imperialista no Oriente Médio, por Francisco Ladeira

É importante compreender a Revolução Iraniana sob a ótica da luta de classes e do anti-imperialismo, e não como uma “ditadura teocrática”
Irã - Treinamento para defesa do país - Reprodução

Desde 28/02, Irã resiste a agressões dos EUA e Israel, liderando oposição ao imperialismo no Oriente Médio.
Revolução Iraniana de 1979 mudou papel do Irã, tornando-o potência independente e desafiando blocos ocidentais e soviéticos.
Irã lidera “Eixo da Resistência” contra presença dos EUA e expansão sionista na região, enfrentando sanções e conflitos.

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Para além de esquerda e direita: o Irã como protagonista da resistência anti-imperialista no Oriente Médio

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por Francisco Fernandes Ladeira

Desde o último dia 28 de fevereiro, quando sofreu mais uma agressão do imperialismo estadunidense com apoio de Israel, o Irã está no centro da agenda pública global. Como resistência ao expansionismo sionista e aos interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio, não é exagero afirmar que o Irã é o principal representante dos povos oprimidos do planeta no presente contexto.

Apesar de, internamente, ser uma teocracia e um governo que pode ser considerado ideologicamente à direita, no cenário internacional o papel do Irã é extremamente progressista. Isso significa que, quando falamos em relações geopolíticas, conceitos como laico, teocrático, esquerda e direita não são estanques; devem ser analisados à luz da dinâmica de uma determinada conjuntura. Mesmo com suas contradições, que não vêm ao caso serem citadas aqui, o governo de Teerã está na linha de frente contra o imperialismo. Portanto, é dever de todo indivíduo que se considera à esquerda apoiar o Irã.

Conforme apontaram os pesquisadores Murillo do Espirito Santo e Tiago Baldasso em um artigo científico, ao longo do século XX, o Irã foi considerado um importante ator regional na Ásia, sendo peça-chave na condução das políticas das grandes potências para o Oriente Médio e no “tabuleiro de xadrez” da Guerra Fria.

Se, entre as décadas de 1940 e 1970, as reformas socioeconômicas e ocidentalizantes promovidas pelo Xá Reza Pahlavi garantiram aos Estados Unidos grande influência sobre o país, a Revolução Iraniana de 1979, por sua vez, transformou o papel do Irã no cenário internacional, emergindo como um novo poder desafiante, independente e não alinhado – tanto em relação ao Ocidente quanto ao bloco socialista liderado pela União Soviética.

A princípio, a importância estratégica do Irã está ligada às suas características físicas. O país possui um território montanhoso, situado entre o Mar Cáspio e os Golfos Pérsico e de Omã, sendo também área de passagem entre o Oriente Médio e a Ásia Central, fator que explica, em parte, a histórica cobiça estrangeira sobre a antiga Pérsia e o atual Irã. Além disso, pelo Estreito de Ormuz – um dos pontos de antagonismos entre iranianos e estadunidenses – passam cerca de 20% do consumo global de petróleo e mais de 25% do gás natural liquefeito do mundo.

Ainda segundo Espirito Santo e Baldasso, por quase um século e meio (aproximadamente de 1800 a 1940) o Irã esteve sob dominação ou influência de potências estrangeiras. Durante o século XIX, o país se envolveu em conflitos com a Rússia, sofrendo perdas territoriais e, eventualmente, sendo ocupado pelo exército russo. Posteriormente, com a Primeira Guerra Mundial, foi ocupado pelo Reino Unido. Na Segunda Guerra, houve novas invasões britânicas e soviéticas, dessa vez sob o pretexto de garantir combustíveis e linhas de suprimentos vitais aos aliados, uma vez que Teerã havia declarado neutralidade naquele conflito.

A partir de 1941, com o governo do Xá Reza Pahlavi, o Irã entrou na esfera de influência estadunidense, sofrendo um processo de ocidentalização, com a entrega de suas riquezas naturais como principal marca desse período. Dez anos depois, foi eleito primeiro-ministro do Irã Mohammed Mossadegh, político liberal, mas nacionalista. Sua principal medida foi a nacionalização da produção de petróleo do país, fator que o tornou extremamente popular.

Os principais interesses afetados foram os da companhia britânica Anglo-Persian Oil Company (atual British Petroleum), que explorava petróleo no país desde o início do século e cuja propriedade fora nacionalizada. Outras companhias de petróleo também foram expulsas do país, gerando uma crise diplomática com o Reino Unido e com os Estados Unidos.

Em 1953, inaugurando a era de derrubadas de governos não submissos aos interesses imperialistas, Mossadegh foi deposto por um golpe orquestrado pelos serviços secretos britânico e estadunidense, os quais juntaram forças para reconduzir o Xá Reza Pahlavi ao poder. O poder ditatorial do Xá foi ampliado e iniciou-se um período de acelerada modernização e ocidentalização, de caráter secular e autoritário, conhecido como “Revolução Branca”.

Para eliminação das classes políticas opositoras, o regime contava com a SAVAK, polícia secreta criada com a ajuda da CIA e do Mossad, descrita como a “instituição mais odiada e temida do Irã” por causa de sua prática de torturar e executar opositores do regime. Também foram feitas obras de infraestrutura, e o país avançou no processo de industrialização, o que condicionou o surgimento de uma classe trabalhadora que, anos depois, seria fundamental na mobilização popular que culminou com a revolução de 1979. No plano regional, o regime do Xá, principal aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio, reconheceu o Estado de Israel, causando atrito em suas relações com os países árabes.

Em janeiro de 1978, ocorreram as primeiras mobilizações populares contra o governo pró-Ocidente, duramente reprimidas pelas forças militares do Xá. Por outro lado, os Estados Unidos, antevendo a perda de seu principal aliado no Oriente Médio, apressaram-se para articular a aproximação entre Israel e outra potência da região: o Egito. Dessa forma, teve início o Acordo de Camp David, com o governo do Cairo reconhecendo o Estado sionista. Se Washington e Tel Aviv perderam o Irã, em contrapartida ganharam o capitulador Egito.

Em 1979, com a derrubada do regime do Xá, concretizou-se a Revolução Iraniana, tendo o aiatolá Ruhollah Khomeini como figura central. Chamada em plebiscito para decidir sobre a forma de governo, a população optou, em sua esmagadora maioria, pela República Islâmica. Desde então, o Irã tem um líder supremo – escolhido pela Assembleia dos Peritos – e um presidente – eleito pelo voto popular. Os principais setores da economia foram estatizados e colocados a serviço da industrialização do país. Estava selada a ruptura do Irã com o bloco ocidental liderado pelos Estados Unidos.

Não por acaso, nas últimas cinco décadas, o Irã tem sido alvo de intensa campanha orquestrada pelo imperialismo, seja por meio de guerras por procuração (como no caso das provocações do Iraque de Saddam Hussein), sanções econômicas (sob alegação de um suposto programa nuclear que visaria à produção de uma bomba atômica), desinformações via grandes grupos de comunicação, guerra híbrida (por meio do financiamento de “protestos espontâneos” contra o governo) e ataques diretos, conforme temos observado atualmente.

É importante compreender a Revolução Iraniana sob a ótica da luta de classes e do anti-imperialismo, e não como uma “ditadura teocrática”, como noticiado pela mídia hegemônica e mesmo por setores da esquerda. O país persa lidera o chamado “Eixo da Resistência”, aliança informal político-militar cujos objetivos são combater a presença dos Estados Unidos no Oriente Médio e oferecer um contraponto ao expansionismo sionista.

Portanto, se os termos esquerda e direita ainda podem ser utilizados para classificar visões de mundo de pessoas e organizações partidárias, quando falamos em geopolítica global, a questão se torna mais complexa. Um governo considerado à esquerda, como o de Gabriel Boric, no Chile, quando serviu como “papagaio de pirata” dos Estados Unidos na campanha de ataques à Venezuela, atuou de forma altamente reacionária e contrária aos interesses dos povos latino-americanos.

Por outro lado, como dito no início deste texto, grupos com forte influência religiosa, como Hamas e Hezbollah (que muita gente classificaria como “direita”), quando combatem o sionismo – principal pilar do imperialismo no Oriente Médio – passam a desempenhar um papel geopolítico progressista. Ou seja, a associação automática entre religiosidade e atraso político é uma visão incompleta e reducionista para entender as complexidades que envolvem as relações internacionais.

Em suma, lembrando o velho Marx, o motor da história não são moralismos religiosos ou posicionamentos laicos, mas a luta de classes e, no plano global, a luta contra o imperialismo, bem como suas respectivas expressões em cada tempo e espaço.

Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)

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