23 de julho de 2026

Pix, patrimônio intocável do Brasil: por que o assunto predomina no mundo digital?, por Eliara Santana

Somos o país do Pix (não mais do futebol!), um sistema gratuito e para todos, sem discriminação, que facilita a vida dos cidadãos.
Imagem gerada por ChatGPT

Pix se torna símbolo nacional de autonomia e soberania em reação ao tarifaço dos EUA, vigente desde 22 de julho.
Pix ampliou inclusão financeira, com 70 milhões integrados ao sistema formal, impactando positivamente regiões informais.
Redes sociais registram 42 mil menções diárias ao Pix; ataques atribuídos à família Bolsonaro e interesses norte-americanos.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

do PT Nacional

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Coluna Hora da Verdade

Pix, patrimônio intocável do Brasil: por que o assunto predomina no mundo digital?

Sistema nacional de pagamentos, gratuito, desperta a sensação de pertencimento, como fez o futebol. Isso explica a força da narrativa e o alcance nas redes

por Eliara Santana

A narrativa dominante nesses últimos dias nas redes sociais é sobre o mais novo queridinho do Brasil: o Pix. Desde o anúncio do novo tarifaço do governo norte-americano contra o Brasil, o assunto predomina no mundo midiático digital sob o mote “o Pix é nosso, e ninguém mexe”.

Nesse turbilhão de acontecimentos que envolve a pressão econômica dos EUA sobre o Brasil, com a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, o tarifaço, que entra em vigor hoje, 22 de julho, é muito interessante e importante observar como, rapidamente, o Pix deixou de ser somente um sistema de pagamentos muito eficiente para se tornar uma ideia.

E uma ideia potente que mobiliza defensores e chama a atenção do mundo todo. Porque o Pix conseguiu aglutinar a mobilização em torno de conceitos difíceis de serem compreendidos como “autonomia’ e “soberania”. Defender o Pix é tudo isso e muito mais. É organizar e consolidar uma narrativa forte em relação à Nação que envolve emoções e sentimentos importantes como proteção, orgulho, empoderamento, altivez: nós nos tornamos o Brasil do Pix. Somos o país do Pix (não mais do futebol!), um sistema gratuito e para todos, sem discriminação, que facilita a vida e o dia a dia dos cidadãos.  

E o que pode explicar essa força narrativa?

Antes da reflexão, vamos ao conceito, porque é importante entender – e muito bem – que narrativa não é simples relato ou apenas “contar uma história”. A narrativa é um projeto argumentativo capaz de construir um processo de convencimento; a narrativa organiza e ordena as coisas do mundo e produz um imaginário.

Essa narrativa de defesa do Pix, que conquista os brasileiros e toma conta de todas as redes e discussões, tem um pano de fundo que é muito importante, para além da mobilização dos conceitos e emoções aos quais me referi. Trata-se do sentimento de pertença, ou pertencimento.

A narrativa de defesa de um sistema de pagamentos que é gratuito e para todos evoca essa perspectiva do pertencimento. Um pouco como faz – ou fazia – o futebol ao unir, juntar, congregar pessoas diferentes em torno de um único sentimento, o de pertencer a algo, o de fazer parte de algo bom, grande, expressivo. Por isso, em contraposição, quem se posiciona e ameaça esse conjunto é traidor, e não somente do Brasil, mas desse algo “grande” que mobiliza.

A ideia de pertencimento ao país passou a ser dada pela percepção de que o Pix representa algo que é, sim, inclusivo, porque é gratuito e para todos os perfis de brasileiros, ricos e pobres. Um sentimento que congrega, certamente, a sensação positiva de que há, com o Pix, uma espécie de “autorização” para todo mundo poder participar do sistema bancário sem ser explorado, sem ter de pagar taxas altíssimas por transação, tudo gratuito, e algo brasileiro, que atende aos brasileiros.

De acordo com dados do Banco Central, pelo menos 70 milhões de pessoas passaram a integrar o sistema financeiro formal desde o lançamento do Pix. Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio, divulgados pelo jornal O Globo, mostram que instituições financeiras (bancos) em municípios com maior adoção do Pix registraram maior crescimento de depósitos, e que esse efeito foi ainda mais forte nas regiões com grande volume de economia informal.

O nome disso é inclusão financeira, e os brasileiros entendem porque há uma conexão real com a vida de todo mundo, da manicure ao empresário. Por isso, mexer com o Pix é mexer com o Brasil.

Outro aspecto importante a se considerar é o binômio, em oposição, DEFESA X TRAIÇÃO. Esse entendimento se fortaleceu bastante e se impôs quase como lógica  de partido político, ou melhor, de time de futebol. Há os que defendem o Pix e há os traidores, aqueles que querem entregar um bem nacional a um país estrangeiro. Simples assim.  

O alcance das reações nas redes

Para termos uma noção do alcance e da potência das reações, levantamento da Agência Pública em sua newsletter mostrou alguns comentários bem raivosos, como este a seguir, que circulou no Bluesky:

“Índia, Tailândia e Singapura também têm sistemas de pagamento semelhantes ao Pix. E por que Trump não ataca esses países? Porque nenhum desses países tem uma família desgraçada [sic] de traidores atacando e querendo entregar o próprio país”.

O levantamento da Agência Pública, divulgado em sua newsletter, informa que o tema “Pix” tem dominado as conversas nas redes: “segundo dados da plataforma Meltwater, o termo “Pix” registra, em média, 42 mil menções diárias no X e no YouTube. O volume de publicações atingiu seu maior patamar em 2 de junho, após o governo dos EUA acusar o Banco Central do Brasil de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento”. 

De acordo com levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, os temas “O Pix é do Brasil” e “Brasil soberano” figuraram em destaque nas redes na semana passada (16 e 17 de julho), ainda sob o impacto da imposição do“tarifaço”.

o assunto é tão relevante que ganhou destaque na imprensa internacional. Na edição desta semana, divulgada ontem (20 de julho), a revista The Economist publicou reportagem afirmando que o “amado sistema de pagamentos do Brasil” atraiu a ira de Donald Trump e que a tarifa de  ataque ao Pix apenas faz com que os brasileiros o amem – e a Lula – muito  mais. 

Na mesma medida da defesa do sistema de pagamentos está a responsabilização pelos ataques. E isso é imputado à família Bolsonaro e, mais especificamente, a Flávio e Eduardo Bolsonaro, que há bastante tempo se articulam para que os EUA imponham sanções econômicas ao Brasil. Nesse contexto, segundo o levantamento da Lupa, há duas narrativas que se impuseram nesses dias e que viralizaram:

  • 1 – Trump quer atacar o Pix para beneficiar empresas de cartão de crédito e big techs norte-americanas

O mote dessas postagens é que o Pix incomoda interesses econômicos das empresas de cartão de crédito e das empresas de tecnologia. Como mostrou o levantamento da Lula, “as mensagens apontam que o governo norte-americano tenta forçar o Brasil a recuar em seu sistema próprio e que a investida contra o Pix é uma retaliação porque o modelo serve de precedente para que outros países emergentes construam redes públicas eficientes”.

  • 2 – Família Bolsonaro é a responsável pelo ataque dos EUA ao Brasil

As mensagens com mais engajamento afirmam que o tarifaço (25%) imposto aos produtos brasileiros é resultado de articulações da família Bolsonaro com Donald Trump. Nesse sentido, ressalto dois pontos: o primeiro é que essas duas narrativas que viralizaram estão envoltas pelo eixo macronarrativo “O Pix é do Brasil”, porque é ele  o mote principal articulador, é ele que dá o tom das reações, das mobilizações, das contrapartidas, das manifestações – e esse eixo é um potente construtor de imaginários sociodiscursivos. O segundo ponto é que outras narrativas, sob esse viés, vão surgir e se consolidar ao longo das semanas.

A despeito da maior ou menor viralização nas redes nestas semanas, o fato é que o tema “Pix” permanece e vai se manter com muita força mobilizadora e agregadora, ou seja, até mesmo quem não é favorável ao presidente Lula e ao PT entende que a defesa do sistema de pagamentos nacional – gratuito e universal – extrapola meras questões ideológicas ou partidárias e é algo que pertence aos brasileiros. Essa, sim, é uma percepção que não tem volta.   

Eliara Santana – Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Eliara Santana

Eliara Santana é jornalista, doutora em Linguística e Língua Portuguesa, com foco em Análise do Discurso. Ela é pesquisadora do Observatório das Eleições e integra o Núcleo de Estudos Avançados de Linguagens, da Universidade Federal do Rio Grande. Coordena o programa Desinformação & Política. Também Desenvolve pesquisa sobre desinformação, desinfodemia e letramento midiático no Brasil.

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