André Mendonça: o ministro-reverendo do caos
por Luís Delcides
Com a sua voz mansa, o ministro-reverendo do STF André Mendonça, com a sua prática de justiça seletiva, usa sua retórica de cordeiro para, na prática, repetir a tática da Lava Jato: vazar investigações, criminalizar adversários e rasgar o processo legal, tudo sob o manto da moralidade. Que Jesus, o justiceiro dos vendilhões do templo, tenha piedade de nós.
Há algo profundamente perturbador em ver o ministro André Mendonça, com sua voz pausada e discurso de “manso cordeiro”, transformar o Supremo Tribunal Federal num ringue de vale-tudo. Não me refiro à sua fé. Todos têm o direito de crer. O problema é quando a teologia pessoal se confunde com o exercício de um cargo que exige, acima de tudo, impessoalidade e respeito ao rito constitucional. O problema, caro leitor, é quando o reverendo esquece a batina e veste a túnica do algoz jurídico.
O artigo de Luciana Bauer e Reynaldo Aragon no GGN não deixa margem para dúvidas: a atitude de Mendonça ao expor uma investigação em curso sobre Alexandre de Moraes e outros é um golpe de estado “por dentro”, uma repetição cínica da cartilha da Lava Jato. A lógica é a mesma: vaza-se uma suspeita, ainda sem conclusão judicial, para que a opinião pública faça o trabalho sujo. A prova vem depois, ou nem vem. O que importa é a destruição da reputação, a desestabilização da Corte e a produção de um “facto político” em pleno período eleitoral.
Como jurista, Mendonça deveria saber que o tempo da investigação não é o tempo da política. Mas, como observam Aragon e Bauer , o ministro-reverendo “determinou que a PF elaborasse, em 72 horas, um relatório específico”, separou o material e, antes mesmo da manifestação da PGR, “retirou o sigilo e empurrou o caso para o centro da arena pública”. Isso não é prudência; é estratégia de guerrilha. É usar a máquina estatal para criar um curto-circuito institucional, onde a Polícia Federal contesta o procedimento e a PGR é colocada como suspeita. O método é tão grave quanto o conteúdo.
É aqui que a hipocrisia se torna mais gritante: André Mendonça é um dos pregadores da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, onde fala de salvação, Jesus e misericórdia. O mesmo Jesus que, nos Evangelhos, expulsou os vendilhões do templo com uma chicotada. Pois bem, que imagem de Cristo ele está projetando no Supremo? A do pastor que apascenta o rebanho ou a do juiz que, como os fariseus, apedreja a adúltera sem ouvi-la, sem contraditório e sem prova?
Não se trata de defender A ou B, mas de defender o processo. Se Moraes cometeu crimes, que seja investigado, com direito à ampla defesa. Mas a atitude de Mendonça é a antítese disso. Ele não está lavando o templo; está incendiando a casa, abrindo as portas para que a extrema direita e os interesses internacionais transformem o Judiciário num campo de batalha da “guerra híbrida”. Ao fazer isso, o ministro-reverendo não honra o Deus que prega. Ele serve ao deus do caos.
Espero, como o senhor sugere, que Jesus volte e dê uma chicotada no lombo de André Mendonça. Não por vingança, mas como um chamado à razão. Uma chicotada para lembrá-lo de que, antes de ser pregador, ele é juiz da República. De que sua “voz mansa” precisa ser usada para pacificar, e não para destruir. Afinal, como bem concluem Bauer e Aragon, o próximo golpe “talvez não precise invadir o Supremo. Basta fazê-lo desabar por dentro”. E Mendonça, infelizmente, está segurando a marreta.
Luís Delcides – Advogado e jornalista
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário