7 de setembro de 2026

André Mendonça: o ministro-reverendo do caos, por Luís Delcides

A atitude de Mendonça ao expor uma investigação em curso sobre Alexandre de Moraes e outros é um golpe de estado "por dentro"
Acervo Agência Brasil

Ministro André Mendonça expôs investigação sobre Alexandre de Moraes, vazando dados antes da PGR se manifestar.
Mendonça ordenou que PF fizesse relatório em 72h e retirou sigilo, gerando conflito institucional no STF.
Críticas apontam que Mendonça mistura fé pessoal com função pública, afetando a imparcialidade e o processo legal.

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André Mendonça: o ministro-reverendo do caos

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por Luís Delcides

Com a sua voz mansa, o ministro-reverendo do STF André Mendonça, com a sua prática de justiça seletiva, usa sua retórica de cordeiro para, na prática, repetir a tática da Lava Jato: vazar investigações, criminalizar adversários e rasgar o processo legal, tudo sob o manto da moralidade. Que Jesus, o justiceiro dos vendilhões do templo, tenha piedade de nós.

Há algo profundamente perturbador em ver o ministro André Mendonça, com sua voz pausada e discurso de “manso cordeiro”, transformar o Supremo Tribunal Federal num ringue de vale-tudo. Não me refiro à sua fé. Todos têm o direito de crer. O problema é quando a teologia pessoal se confunde com o exercício de um cargo que exige, acima de tudo, impessoalidade e respeito ao rito constitucional. O problema, caro leitor, é quando o reverendo esquece a batina e veste a túnica do algoz jurídico.

O artigo de Luciana Bauer e Reynaldo Aragon no GGN não deixa margem para dúvidas: a atitude de Mendonça ao expor uma investigação em curso sobre Alexandre de Moraes e outros é um golpe de estado “por dentro”, uma repetição cínica da cartilha da Lava Jato. A lógica é a mesma: vaza-se uma suspeita, ainda sem conclusão judicial, para que a opinião pública faça o trabalho sujo. A prova vem depois, ou nem vem. O que importa é a destruição da reputação, a desestabilização da Corte e a produção de um “facto político” em pleno período eleitoral.

Como jurista, Mendonça deveria saber que o tempo da investigação não é o tempo da política. Mas, como observam Aragon e Bauer , o ministro-reverendo “determinou que a PF elaborasse, em 72 horas, um relatório específico”, separou o material e, antes mesmo da manifestação da PGR, “retirou o sigilo e empurrou o caso para o centro da arena pública”. Isso não é prudência; é estratégia de guerrilha. É usar a máquina estatal para criar um curto-circuito institucional, onde a Polícia Federal contesta o procedimento e a PGR é colocada como suspeita. O método é tão grave quanto o conteúdo.

É aqui que a hipocrisia se torna mais gritante:  André Mendonça é um dos pregadores da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, onde fala de salvação, Jesus e misericórdia. O mesmo Jesus que, nos Evangelhos, expulsou os vendilhões do templo com uma chicotada. Pois bem, que imagem de Cristo ele está projetando no Supremo? A do pastor que apascenta o rebanho ou a do juiz que, como os fariseus, apedreja a adúltera sem ouvi-la, sem contraditório e sem prova?

Não se trata de defender A ou B, mas de defender o processo. Se Moraes cometeu crimes, que seja investigado, com direito à ampla defesa. Mas a atitude de Mendonça é a antítese disso. Ele não está lavando o templo; está incendiando a casa, abrindo as portas para que a extrema direita e os interesses internacionais transformem o Judiciário num campo de batalha da “guerra híbrida”. Ao fazer isso, o ministro-reverendo não honra o Deus que prega. Ele serve ao deus do caos.

Espero, como o senhor sugere, que Jesus volte e dê uma chicotada no lombo de André Mendonça. Não por vingança, mas como um chamado à razão. Uma chicotada para lembrá-lo de que, antes de ser pregador, ele é juiz da República. De que sua “voz mansa” precisa ser usada para pacificar, e não para destruir. Afinal, como bem concluem Bauer e Aragon, o próximo golpe “talvez não precise invadir o Supremo. Basta fazê-lo desabar por dentro”. E Mendonça, infelizmente, está segurando a marreta.

Luís DelcidesAdvogado e jornalista

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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