Dom Timóteo Amoroso Anastácio, o Abade da resistência nas terras de São Salvador!
por Rômulo de Andrade Moreira[1]
No ano de 1966 diversas manifestações de estudantes iniciaram-se nas ruas brasileiras, a maioria delas protestando pacificamente contra a ditadura civil-militar que se instalara no país após o golpe que depôs o governo de Jango, em 1964, e que mergulhou a nação no período mais sombrio de sua história, em todos os termos e em todos os aspectos. E na Bahia não seria diferente.
No dia 08 de agosto de 1968, portanto, há exatos 58 anos, estudantes baianos marcharam durante vários dias pelas ruas de Salvador, protestando contra os aumentos abusivos das passagens de ônibus na capital baiana, e também contra a opressão política, quando foram duramente reprimidos e perseguidos pela Polícia Militar, até se concentraram, finalmente, na Praça Castro Alves, bem no centro da cidade.
A repressão foi absurda e desproporcionalmente violenta, transformando as ruas em uma verdadeira batalha campal: a polícia armada com fuzis, lançando bombas de gás lacrimogêneo e atiçando cães ferozes contra os estudantes, homens e mulheres. À época, o histórico e icônico Jornal da Bahia, de oposição ao regime, na edição do dia seguinte à barbárie, publicou um editorial, “Selvageria, Não!”, no qual se lia:
“O clima de violências policiais que se vinha formando ultimamente em Salvador atingiu, ontem, um paroxismo brutal. Não precisamos descer aos detalhes, evocando as cenas de selvageria e crueldade que se registraram em vários pontos da cidade, mesmo porque, diante de certos fatos, as palavras se colocam muito aquém da realidade. A população viu a polícia agredir, espancar, maltratar desnecessariamente pessoas pacatas e indefesas, lançar cães contra senhoras e crianças, investir indiscriminadamente contra tudo e contra todos, humilhar e até atirar para matar, num delírio que jamais presenciamos. Nada poderia justificar – absolutamente nada – que a pretexto de coibir passeatas ou comícios, a polícia baiana partisse para a deplorável opção dos desmandos mais absurdos, da insânia mais revoltante, ou da própria chacina erigida em instrumento de defesa da coletividade.”[2]
Acuados, os estudantes acorreram em direção ao Mosteiro de São Bento, localizado logo depois da Praça Castro Alves, e procuraram refúgio contra as agressões covardes dos policiais militares, que ameaçavam invadir a abadia, nada obstante se tratar de um lugar inviolável.
Foi, então, que surgiu a figura imponente – apesar de ser um homem fisicamente frágil – do religioso Dom Timóteo Amoroso Anastácio, o abade do Mosteiro de São Bento de Salvador entre os anos de 1965 a 1981, um verdadeiro herói da resistência à ditadura militar.
Dom Timóteo Amoroso – que estava descansando em sua cela -, ao ser alertado por um dos monges que os estudantes estavam acossados à porta da abadia, e cercados pelos policiais armados, determinou aos seus religiosos que abrissem imediatamente as portas do templo, para permitir a fuga dos estudantes por uma saída aos fundos, enquanto ele se postava corajosamente à frente da porta do mosteiro tentando impedir a entrada dos policiais, alertando-os que ali se tratava de um domicílio e que, portanto, seria preciso uma ordem judicial para entrar.
Algo inesperado, no entanto, ocorreu: de dentro do claustro ouviu-se um tiro, precipitando a invasão (o autor desse disparo nunca foi identificado). O episódio foi narrado, 25 anos depois, pelo próprio Dom Timóteo:
“A polícia arrombou a porta da igreja, comandada por um tenente E aí fui lá e falei com ele: ´Eu protesto vocês entrarem aqui. Nem invoco ser um templo religioso, mas um domicílio civil. Vocês têm um mandado judicial?` (Resposta do tenente) ´Que mandado judicial, vocês estão acoitando aí bagunceiros e comunistas!` Eu estava dando tempo dos meninos escaparem pela porta dos fundos. Eles foram fazendo pressão e, quando chegaram no claustro, os soldados, que são supersticiosos, ficaram meio transidos com aquilo. Mas nessa hora, aconteceu uma coisa que até hoje não tem explicação: ouviu-se um tiro dentro do mosteiro, e os soldados ficaram furiosos e começaram a vasculhar a casa toda. Pegaram alguns meninos que não tinham fugido pelos fundos e fizeram até corredor polonês na escada. E eu ali, dizendo ´vocês são uns selvagens`. Levaram a meninada para a Secretaria de Segurança Pública e mantiveram o mosteiro cercado.”[3]
Nesse episódio ocorreu uma situação ainda mais delicada para o abade: entre as dezenas de estudantes que adentraram a abadia estavam, obviamente, várias jovens, o que era terminantemente proibido pelas leis eclesiásticas:
“A presença feminina em um cenóbio masculino era considerada uma falha grave, e foi preciso contornar o protesto do arcipreste do mosteiro, Dom Vilibaldo, que pediu a destituição do abade por ter permitido a transgressão do “direito canônico”. Ele chegou a redigir uma carta de renúncia em nome de Dom Timóteo. O abade disse que, polidamente, fez Dom Vilibaldo entender que se tratava de uma situação excepcional, e evocou os tempos em que as abadias serviram de refúgios em situações de guerra.”[4]
No dia seguinte à invasão, Dom Timóteo orientou os estudantes – numa estratégia inteligente, corajosa e astuta – que saíssem da abadia misturando-se com os fiéis que haviam assistido à missa celebrada pela manhã, e assim o fizeram, evitando-se novas prisões.
Dois dias depois da invasão, o Jornal da Bahia publicou uma nota assinada por Dom Timóteo:
“Como abade do Mosteiro de S. Bento, venho renovar de público o protesto que fiz de viva voz ao Exmo. Sr. Secretário de Segurança e a outras autoridades contra a invasão armada da igreja e do Mosteiro de S. Bento, cometida ontem, por volta de 17 horas, por tropas embaladas da Polícia Militar, da Guarda Civil e por agentes da Polícia Civil, que, forçando a porta principal da igreja, penetraram violentamente, apesar dos meus protestos veementes, no templo e nas dependências do mosteiro, violando o nosso domicílio particular. A degradante ação tornou-se ainda mais repulsiva, quando assumiu aspectos de selvageria em atos praticados no interior do mosteiro por aqueles elementos contra jovens indefesos, muitos deles menores e moças, que saíram presos, através de um ´corredor polonês´ de socos e pontapés, consumados à minha vista e não obstante os meus protestos e esforços para impedir tal brutalidade.”[5]
Em outro depoimento, o abade desabafou: “Não satisfeitos com os espancamentos praticados, os policiais foram até a cozinha do mosteiro e comeram os mantimentos que se encontravam no local”. E lembrou a invasão do mosteiro há 300 anos, quando holandeses “hereges” ocuparam o cenóbio, em 1624: “o que é mais lamentável e melancólico é que, enquanto a primeira invasão foi feita por estrangeiros, inimigos do Brasil, a de ontem foi processada por soldados da Polícia Militar baiana.”[6]
Também no velho e combatente Jornal da Bahia, fez-se publicar um manifesto assinado por vários intelectuais baianos, entre eles o velho comunista Jorge Amado, denunciando a “selvageria dos atentados e em solidariedade às vítimas”. Afirmavam, ainda, que a Bahia tinha sido “ofendida em sua consciência histórica, nas suas tradições de liberdade e de humanismo” e que o Estado “precisava ser alertado, a fim de que não se reproduzam nas ruas desta cidade cenas que tanto comprometem a dignidade de nossa civilização”.[7]
Dom Timóteo sempre foi, mesmo após esse episódio, uma voz corajosa contra a ditadura militar, inclusive em 1968, quando foi editado o AI 5; aliás, sobre esta época, disse ele, décadas depois:
“Eu sentia que todo mundo estava ficando calado, opressivamente. Então, eu não medi limites para falar, seja na igreja, seja na imprensa, quando ainda podia publicar as coisas. Aqui foi crescendo a minha própria consciência da dor horrenda que há na supressão da liberdade. Me pus a serviço dessa causa, talvez não tanto quanto eu devia ter feito. Até hoje bato no peito e digo que talvez tenha me omitido muitas vezes. Mas, de um modo geral, solicitado pelos acontecimentos ou pelas pessoas, eu botava a boca no mundo e procurava também abrir brechas naquela situação monolítica.”[8]
Eis um episódio que mostra como se pode resistir à força de um regime político autoritário e fascista, e como todos nós devemos lutar cotidianamente, usando dos meios possíveis, para evitar que tempos de exceção voltem a cobrir os céus do nosso país, inclusive votando.
Viva a memória de Dom Timóteo Amoroso Anastácio!
“Uma coisa é certa: o homem não morre de todo, onde assistiu e amou”
(Dom Timóteo Amoroso Anastácio)
[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.
[2] Jornal da Bahia, Salvador, 09 de agosto de 1968, p.1.
[3] Entrevista em áudio gravada pelos jornalistas Olivia Soares e Eduardo Diogo Tavares, cujo CD encontra-se em mãos do jornalista Everaldo de Jesus, autor do excelente livro “Do Silêncio do Claustro ao Ruído das Ruas – Dom Timóteo Amoroso Anastácio e a resistência à ditadura civil-militar na Bahia”, publicado em 2024 pela Dialética Editora.
[4] Everaldo de Jesus, obra citada, p. 105.
[5] Jornal da Bahia, Salvador, 10 de agosto de 1968.
[6] Everaldo de Jesus, obra citada, p. 107.
[7] Jornal da Bahia, Salvador, 09 de agosto de 1968.
[8] Revista da Bahia, Salvador, março de 1989, p. 16.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário