5 de junho de 2026

O voo sem volta da Embraer, por Gilberto Maringoni

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O voo sem volta da Embraer

por Gilberto Maringoni

Os principais feitos do governo Temer em política externa não estão no esvaziamento da Unasul, na mitigação do Mercosul ou no papel acentuadamente irrelevante que o Brasil assume nos BRICS. Os pontos de destaque estão na desnacionalização da produção energética, através do desmonte da área de refino da Petrobrás e do fim do regime de partilha, e na desnacionalização da Embraer.

O impacto desses dois eventos se dará não apenas na indústria e na economia (a Petrobrás chegou a representar 14% do PIB e a Embraer é nossa principal exportadora de tecnologia). O baque maior está na sinalização de que desenvolvimento e projeto nacional saem de cena e que nosso destino é a periferia do mundo.

A VENDA DA EMBRAER à Boeing representa um passo decisivo no desmonte produtivo/tecnológico do país. O negócio coloca em tela a sequência do processo de privatizações iniciado nos anos 1990, durante os governos tucanos. Assim como a Vale privatizada deixou de ser uma empresa de ponta em 27 áreas diferentes para se tornar uma mineradora, a Embraer pode virar apenas uma montadora de projetos vindos de fora.

A empresa apresenta pelo menos três jóias que a tornam atraente ao capital externo: a expertise na fabricação de jatos regionais, de caças turbohélices e – agora – de cargueiros aéreos.

A BOEING SE INTERESSA especialmente pelo primeiro filão, visando exibir um portfólio completo de aviões de passageiros. Absorvendo a empresa brasileira, ela disputará de igual para igual com a Airbus (consórcio alemão, britânico e francês) os mercados de jatos de longo e curto alcance, podendo obter ganhos de escala em todas as modalidades da aviação comercial.

O mercado mundial dessa modalidade é extremamente competitivo e concentrado em poucas empresas. Ele é dominado por quatro corporações, Boeing, Airbus, Bombardier (Canadá) e Embraer. As duas primeiras dividem cerca de 60% do mercado planetário, a Embraer é líder mundial em jatos de até 150 lugares, seguida pela Bombardier. O restante é disputado pelo consórcio entre as russas Irkut e Yakovlev (United Aircraft Corporation), pela Mitsubishi japonesa, pela Comac (Commercial Aircraft Corporation of China).

Embora a Irkut (1932) e a Yakovlev (1934) tenham longa tradição no setor, a fusão entre as duas data de 2004 e seu nicho de mercado ainda é restrito à Rússia e a alguns países do leste europeu. A chinesa foi fundada em 2008 e somente agora passa a disputar espaços além fronteiras. A Mitsubishi fabricou um dos caças-ícones da II Guerra Mundial (o A6M5 Zero), mas seu avião comercial, o Mitsubishi Regional Jet (MRJ) fez seu primeiro voo apenas em 2015.

ASSIM, A ÚNICA POSSIBILIDADE para a Boeing enfrentar a concorrência da Airbus é algum tipo de associação com a Embraer. Isso faz com que o poder de barganha dos acionistas da brasileira seja altíssimo.

É bem possível que a Embraer não seja viável no médio prazo, caso se mantenha como está, ou seja, disputando apenas os nichos de aviação comercial e militar (que fica fora da negociação), sem oferecer em sua carteira aeronaves maiores.

Há infinitas possibilidades de associação com a gigante estadunidense, além de sua venda pura e simples. Essa opção aliena um conhecimento acumulado ao longo de meio século, implica que dentro de alguns anos suas linhas de produção sejam transferidas para os EUA. Além disso, torna-se questão de tempo a quebra de dezenas de empresas nacionais de componentes aeronáuticos e o desaparecimento de milhares de postos de trabalho. As carreiras de engenharia aeronáutica e aeroespacial perderão muito de seu sentido , passando a atender empresas de aeronaves de pequeno porte. Ou seja, o abalo interno será pesado.

POR FIM, UM COMENTÁRIO LATERAL. A Boeing irá adquirir 80% da divisão de aviação comercial da Embraer por US$ 4,2 bilhões.

Para efeito de comparação, o desenvolvimento e fabricação do Embraer KC-390, o maior e melhor cargueiro militar aéreo do mundo, é resultado de uma soma de investimentos públicos (BNDES, PAC e FAB) que atingem US$ 3,9 bilhões. Seu mercado potencial alcança US$ 60 bilhões para a próxima década. Este setor faz também parte da negociação e mostra a magnitude das cifras do setor. Em 2016, a receita líquida da empresa foi de US$ 6,1 bilhões.

A venda da Embraer representa a alienação de um patrimônio e de investimentos públicos de décadas, a quebra de um setor industrial de ponta e a conformação de um projeto que implica empurrar cada vez mais o Brasil para a periferia. Não é à toa que conta com o apoio entusiasmado de Jair Bolsonaro e de alguns militares marcados por um patriotismo de fachada e um entreguismo de alma.

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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10 Comentários
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  1. Jackson da Viola

    18 de dezembro de 2018 9:31 am

    Embraer fica com 20%

    mas pode vender tudo para Boeing a qualquer momento

    https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2018/12/17/embraer-boeing-opcao-de-venda-20.htm

  2. Luis Armidoro

    18 de dezembro de 2018 9:39 am

    Prezados camaradas do

    Prezados camaradas do blog

    Uma vez Nassif aqui fez um post, comentando que o Estado de SP tem infra-estrutura de páis europeu. Depois de 20 anos de destruição sitemática tucana, temos escombros (que vão ser reduzidos a cinzas por doriana Jr, discípulo do Maligno)

    No Brasil, aconteceu a mesma coisa, e não há visão de país em temer e sua quadrilha (e nem no boçal que vai sentar na cadeira a partir de janeiro); há uma visão de capitalismo predador (aquele que se observa nos saques de piratas): é faturar e embolsar o que puder; e até logo.

    Ontem li o post sobre os lobbies (sempre os mesmos, com aquela figura sinistra e malévola de jp lemann rodeando a estatal que irá assaltar); e em uma análise com os artigos magistrais de André Araújo, você pode constara que nossa regressão (ou queda no Abismo) é impressionante; pois passamos de uma economia relativamente industrailizada até 1990 para uma plantation (que exporta soja, petróleo cru e minério bruto).

    Eu sou engenheiro de manutenção de hospital, e só encontro peça de reposição xing ling: não há mais fabricantes brasilieor de lãmpadas, os de materisl elétrico estão desaparecendo e os de materia lhidráulico passam por dificuldades. Tudo porque “empresários” como aquele careca com cara de espertazóide, dono de uma loja que venda tranqueiras e bugigangas; enche um contãiner de porcaria made in xing ling, sonega imposto,  cobra metade do fabricante nacional, e arrota para o mundo que é sufocado pelo Estado e não consegue trabalhar. 

    Tudo por causa de 30 dinheiros, que a classe dominante vai gastar em Miami (que lembra miasma). Não temos elite, porque elites pensam o país. As elites foram consumidas pelo neoliberalismo a partir de 1990.

    Obs.: Apenas os dignos (ou, como disse Isaac Newton, os gigantes sobre quais ombros nos apoiamos) merecem ter seus nomes escritos com maíúsculas. Os pequenos, insignificantes, como todos estes punguistas de nossa sociedade; vão de letra minúscula, que refeltem seus tamanho  

    1. Romanelli

      18 de dezembro de 2018 11:35 am

      É uma falácia o que vc nos

      É uma falácia o que vc nos trás

      MUITO ANTES dos chinglings NÓS não tínhamos, e nunca tivemos, empresas produtoras de material hospitar, lampadas etc  ..qdo muito, até com brinquedos, eram licenciadas dos europeus e americanos ..mas na maioria, CONTROLADAS estrangeiras que por aqui tratavam de fagocitar as genuinamente nacionais que se atreviam a existir desde os anos 50. …raras sobreviveram

      Exemplos abundam, e dos setores mais dramáticos seriam os de maior valor agregado, intensivos e semi intensivos em tecnologia e capital, carentes de M.O. de qualidade como veiculos e peças, aviação, telefonia e eletro eletrôncos como linha branca e cinza, fora todo PARQUE ALIMENTÌCIO que praticamente se foi, até em boa parte do agronegócio …e agora o de serviços, no atacarejo, seguros, planos de saúde, rede de ensino, concessão em transportes, farmacias etc  ..aqui é terra arrazada faz tempo !!!

      Mas antes dos CHINESES ainda havia uma DIFERENÇA estratégica, E-N-O-R-M-E, pra pior

      ..o FMI e EUA que nos mantinham como escravos a seus interesses, eles que sequer importavam os nossos básicos, PIOR  ..que ainda viviam criando caso e nos enfraquecendo no crescimento, independência e integração com outros povos

      DITO isso, eu não temo em afirmar que uma das, senão a principal inspiração, razão e FORÇA do atual golpe, foi nosso alinhamento com o BRICS

       

  3. Romanelli

    18 de dezembro de 2018 11:55 am

    permita-me um desabafo:TODA

    permita-me um desabafo:

    TODA VEZ que você, daqui pra frente, escudar a palavra GOLDEN SHARE, pra proteger os interesses do país em casos de privatização de setores e empresas estratégicas ..você deverá estufar o peito e gritar de forma consciente :

    – ENFIA NO CÚ !!!!!!!!!

  4. Fábio de Oliveira Ribeiro

    18 de dezembro de 2018 11:58 am

    Uma doação feita “com o STF

    Uma doação feita “com o com tudo”. No novo livro de Jessé Souza (A classe média no espelho, Estação Brasil, RJ, 2018) um advogado narra como um juiz recebeu propina em dinheiro e em serviços sexuais. O que os ministros do STF ganharam da Boeing para foder o Brasil?

     

     

    1. Maria Luisa

      18 de dezembro de 2018 5:07 pm

      Impressionante…

      Como diz meu primo procurador “deixa de ser bobinha” 🙂 Alias, colocar esse livro do Jessé de Souza na lista para leitura. Valeu, Fabio. 

  5. ze sergio

    18 de dezembro de 2018 12:07 pm

    ANTICAPITALISMO DE ESTADO ESPINHA DORSAL DESTES 88 ANOS

    Na compra dos Caças pela FAB, os NorteAmericanos demonstraram que nunca tiveram interesse algum em qualquer tipo de parceria com o Brasil. O que eles vêem é um país que tem extremo potencial em ser seu principal concorrente nas Américas e no Mundo. A sorte deles é que o corpo é gigantesco, mas o cerebro quase insignificante. E principalmente, descobrimos que não existe parceria ou sociedade alguma. É uma COMPRA pura e simples. Compra do segmento do setor aéreo que mais cresce no planeta, que são os Vôos Regionais. As Grandes Aeronaves da Boeing e Airbus, como o novissimo A 380, já estão encalhando nas vendas pela falta de operacionalidade. O que aviões médios como os da EMBRAER tem de sobra. Mas para béns Brasil e Brasileiros. Esta aventura medíocre PRIVATARISTA começo na Redemocratização, passando por Governos Socialistas e Progressistas ( que defenderiam o Brasil de todas as formas) em Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer… Uma Empresa entregue à Redemocracia sendo 100% Nacional. Empregos Altamente Especializados e Remunerados, Tecnologia Brasileira, toda Cadeia Produtiva de Manutenção e Fornecimento de Peças foram destruídos e saqueados em apenas 20 anos. “AntiCapitalistas” TODOS se garantiram em Cidadanias Estrangeiras e em Fatias Generosas de Estatais Privatizadas escondidos atrás de S / A’s. Sociedades Anônimas. Anonimamente em Contas, Passaportes e Bolsa de Valores Estrangeiros. Estamos TODOS de parabéns pelo excelente Projeto de Nação. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.    

  6. Maria Luisa

    18 de dezembro de 2018 2:15 pm

    E os sindicatos? A oposição?

    E os sindicatos? A oposição? Outro dia um juiz coibiu a venda e depois outro juiz deu aval, enfim, o povo brasileiro vai nessa sem saber a verdade do que fazem com o patrimônio brasileiro e aqueles que deveriam e podem fazer alguma coisa, não estão fazendo nada, ah não ser artigos apontando a privataria do Temer e a que vira com Guedes. 

    1. Jackson da Viola

      18 de dezembro de 2018 2:30 pm

      Metalúrgicos: Não existe “acordo” com a Boeing,

      mas venda da Embraer; produção de cargueiro vai para os Estados Unidos

      https://www.viomundo.com.br/politica/metalurgicos-nao-existe-acordo-com-a-boeing-mas-venda-da-embraer-producao-de-cargueiro-vai-para-os-estados-unidos.html

  7. jose antonio santos

    18 de dezembro de 2018 9:18 pm

    chocado mas não surpreso.

    Ouvi esta semana, na rádio francesa, que o governo frances não está gostando nada da “desenvoltura” de um fundo americano na empresa de bebidas lider francesa (P.Richard?) 

    O fundo americano esta interessado numa “fusão” com a concorrente britanica (GEO?), também ela lider mundial.

    E o governo frances não é nem um pouco de esquerda. Mas sabe definir os interesses nacionais.

    Já aqui, nos tropicos, vamos vendendo tudo na bacia das almas…

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