O movimento social de combate à Aids no Brasil, que teve papel importante na construção de políticas públicas de saúde e na consolidação do SUS, perdeu parte de sua força política nas últimas décadas. A conclusão é de um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), publicado na revista Sociology of Health & Illness.
A pesquisa foi conduzida por Helena Achcar, do Centro de Política e Economia do Setor Público da FGV (Cepesp-FGV), e aponta que a desmobilização do ativismo não está relacionada apenas à redução de recursos financeiros. Segundo a pesquisadora, mudanças no perfil das pessoas que vivem com HIV, a fragmentação das organizações, a alteração das prioridades do movimento e a crescente medicalização da resposta à epidemia contribuíram para o enfraquecimento da mobilização social.
O Brasil é considerado uma referência internacional na resposta ao HIV. O país foi pioneiro entre as nações em desenvolvimento na oferta gratuita de tratamento e construiu, ao longo das décadas, uma política marcada pela atuação conjunta de movimentos sociais, pesquisadores, profissionais de saúde e governo.
Essa mobilização ajudou a garantir o acesso universal aos medicamentos antirretrovirais, estimular o desenvolvimento de testes diagnósticos no país e viabilizar medidas como o licenciamento compulsório do efavirenz, em 2007.
De movimento político a campo fragmentado
Nas décadas de 1980 e 1990, o ativismo contra a Aids era marcado por forte atuação política. Lideranças como Betinho e Herbert Daniel ajudaram a transformar a epidemia em uma pauta relacionada não apenas à saúde, mas também à democracia, aos direitos humanos e à justiça social.
Esse movimento mantinha vínculos importantes com setores da classe média e com o movimento da reforma sanitária, que defendia a construção de um sistema público e universal de saúde.
Com o passar dos anos, porém, o perfil da epidemia mudou. O HIV passou a atingir de maneira mais intensa populações socialmente vulneráveis, com menor renda e escolaridade. A chegada desses novos grupos ao movimento trouxe demandas relacionadas a alimentação, moradia, acesso aos serviços públicos e outras necessidades básicas.
Para Achcar, essa transformação também modificou a dinâmica interna do ativismo. Questões relacionadas à sobrevivência e ao acesso a direitos passaram a dividir espaço com as pautas políticas que haviam marcado a mobilização das primeiras décadas.
A contribuição de Pierre Bourdieu
Para analisar esse processo, a pesquisadora utilizou conceitos da sociologia de Pierre Bourdieu (1930-2002). O estudo considera o movimento de combate à Aids como um campo social no qual diferentes grupos disputam espaço, recursos e legitimidade.
Entre os conceitos utilizados estão o de campo, entendido como o espaço de disputa entre diferentes agentes; o de habitus, relacionado às formas de pensar e agir incorporadas pelos indivíduos; o de capital, que envolve recursos econômicos, sociais, culturais e simbólicos; e o de doxa, que representa ideias e discursos considerados legítimos dentro de determinado campo.
A partir dessa abordagem, Achcar analisou as transformações internas do movimento e sua relação com mudanças políticas, econômicas e sociais ocorridas no país.
Avanço da abordagem biomédica
Outro ponto destacado pela pesquisa é a crescente medicalização da resposta ao HIV, especialmente a partir dos anos 2010.
O avanço dos medicamentos e das estratégias de prevenção trouxe resultados importantes para o controle da doença. No entanto, segundo a pesquisadora, a valorização de soluções predominantemente biomédicas também contribuiu para reduzir o espaço dado a questões sociais e políticas relacionadas à epidemia.
O discurso sobre o possível “fim da Aids”, por exemplo, teria reforçado a percepção de que o problema poderia ser solucionado principalmente por meio de medicamentos e tecnologias de saúde. Para Achcar, essa visão pode esconder desigualdades estruturais que continuam contribuindo para a disseminação do HIV e dificultando o acesso ao diagnóstico e ao tratamento.
A pesquisadora também aponta a influência de uma lógica de gestão mais técnica e orientada por resultados mensuráveis. Nesse cenário, organizações não governamentais que antes tinham forte atuação política passaram a enfrentar pressão para se profissionalizar e buscar financiamento, assumindo, em alguns casos, funções mais próximas da prestação de serviços.
Menos recursos e novas disputas
A redução da prioridade do Brasil entre organizações internacionais de financiamento no final dos anos 2000 também contribuiu para modificar o cenário. A diminuição de recursos, somada a cortes internos, reduziu espaços de participação social e aumentou a disputa entre organizações.
Entrevistas realizadas durante a pesquisa indicam que ativistas percebem o movimento atual como menos articulado e com menor capacidade de mobilização em comparação com as décadas anteriores.
As diferenças entre organizações tradicionais e novas redes organizadas a partir de identidades específicas também contribuíram para a fragmentação. A identidade mais ampla que anteriormente unificava diferentes grupos deu lugar a disputas por recursos, reconhecimento e legitimidade.
Desigualdade continua no centro da epidemia
Apesar dos avanços médicos e da ampliação do acesso ao tratamento, Achcar alerta que considerar a Aids um problema resolvido pode contribuir para o enfraquecimento das políticas de prevenção e da mobilização social.
Para a pesquisadora, a retomada da força do movimento depende da reconstrução de alianças entre diferentes setores da sociedade civil, do resgate da dimensão política do ativismo e do enfrentamento das desigualdades sociais relacionadas ao HIV.
O estudo A Bourdieusian approach to the demobilisation of Brazil’s AIDS movement foi publicado na revista Sociology of Health & Illness e analisa as transformações do ativismo brasileiro contra a Aids a partir da perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu.
*Com informações da Agência Fapesp.
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