Lula IV, entre o capital e a sociedade
O giro à esquerda como condição para derrotar a extrema direita
por Flaviano Correia Cardoso
Há algo de extraordinariamente simbólico no fato de Luiz Inácio Lula da Silva ter iniciado sua campanha de 2026 justamente na Vila Euclides. Quarenta e sete anos antes, aquele espaço recebera as assembleias dos metalúrgicos que ajudaram a romper o silêncio político imposto pela ditadura e projetaram nacionalmente uma nova liderança operária. Em 16 de agosto de 2026, Lula voltou ao mesmo lugar como presidente da República e candidato a um quarto mandato. Entre um momento e outro cabe praticamente toda a história recente da esquerda brasileira.
Não é apenas a história de um homem.
É também a história da transformação de uma classe em movimento, de um partido que nasceu tentando constituir sua autonomia política e de uma estratégia que, ao conquistar progressivamente governos, parlamentos e finalmente a Presidência, passou a ser modificada pelas próprias mediações através das quais buscava transformar a sociedade.
O Manifesto de Fundação do Partido dos Trabalhadores, aprovado em fevereiro de 1980, dizia que as grandes maiorias que produziam a riqueza nacional queriam “falar por si próprias”. A formulação condensava algo muito mais profundo do que a criação de uma nova legenda eleitoral. O PT surgia da hipótese de que os trabalhadores deveriam converter sua existência social em força política própria, em vez de permanecer como massa eleitoral de projetos concebidos pelas elites.
Quarenta e seis anos depois, o problema histórico talvez possa ser formulado de outra maneira: depois de ter aprendido como chegar ao Estado, pode o PT reconstruir força social suficiente para alterar as estruturas que limitam aquilo que consegue fazer dentro dele?
É essa, e não apenas a próxima eleição presidencial, a questão de fundo colocada diante de um eventual Lula IV.
DA NEGAÇÃO À CONQUISTA DO GOVERNO
Mauro Luis Iasi oferece uma chave particularmente fértil para compreender essa trajetória. Em As metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento, seu objeto não é simplesmente a história administrativa de um partido. Iasi investiga o movimento da consciência de classe que passa do indivíduo ao grupo e do grupo à classe e, em seguida, observa como esse movimento se expressa historicamente na experiência petista entre 1980 e 2002.
A própria estrutura de sua investigação é reveladora. Ela acompanha a formação inicial do PT, a definição da Estratégia Democrático-Popular no 5º Encontro Nacional, o Programa de Ação de Governo de 1989, a inflexão moderada posterior a 1990 e o percurso que desembocaria na vitória presidencial de 2002. Iasi não reduz esse processo a uma narrativa moral de fidelidade ou traição; procura compreender uma metamorfose política e social.
Essa diferença é fundamental.
Em 1989 e ainda de maneira muito clara no início da década de 1990, conquistar o governo aparecia nos documentos petistas como parte de uma estratégia de transformação das relações de poder. A administração federal não era concebida simplesmente como destino final da luta social, mas como uma possível alavanca para reformas estruturais apoiadas pela mobilização popular.
A resolução preparatória para 1994 chegou a afirmar que transformações estruturais envolveriam conflitos de classe, choques e rupturas, e que a própria governabilidade de um governo democrático-popular deveria começar a ser construída na campanha por meio da mobilização social. O programa deveria conquistar votos, mas também organizar forças capazes de sustentá-lo contra as resistências previsíveis das classes dominantes.
O programa de 1994 ainda falava numa “revolução democrática no Brasil”, articulando reformas estruturais, radicalização democrática e horizonte socialista. Não se propunha implantar o socialismo por decreto, mas compreendia reformas econômicas, agrárias, políticas e sociais como deslocamentos na própria relação de poder entre trabalhadores e capital.
É importante perceber a diferença conceitual.
Política social melhora condições de vida.
Reforma estrutural modifica mecanismos que reproduzem continuamente aquelas condições.
Essa distinção atravessará toda a história posterior do PT.
A METAMORFOSE
A década de 1990 modificou violentamente o terreno sobre o qual aquela estratégia havia sido formulada.
A derrota de 1989, o colapso soviético, a ofensiva neoliberal internacional, o Plano Real, a reorganização da burguesia brasileira, as experiências municipais e estaduais do próprio PT, a crescente profissionalização eleitoral e a necessidade de construir maiorias nacionais exerceram pressões reais sobre o partido.
Não seria historicamente sério explicar esse processo apenas por uma degeneração moral de dirigentes.
Também seria insuficiente chamar toda adaptação de amadurecimento.
O que ocorreu foi uma transformação das mediações através das quais o PT concebia sua relação com a sociedade e com o poder.
A própria reconstrução de Iasi identifica, depois de 1989, uma inflexão moderada; registra uma tentativa posterior de recomposição à esquerda e, novamente, uma trajetória de moderação que desemboca na estratégia vitoriosa de 2002.
A Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002, é provavelmente o documento simbólico mais conhecido desse deslocamento.
Ela continua afirmando que o modelo existente estava esgotado, defende reformas estruturais, mercado interno de massas, desenvolvimento, reforma agrária e redução da vulnerabilidade externa. Mas introduz uma mediação decisiva: a mudança deveria ocorrer mediante uma transição negociada, preservando contratos e obrigações e construindo uma ampla aliança nacional.
A ruptura não desaparece inteiramente do horizonte; muda de forma.
A transformação passa a ser pensada crescentemente como resultado de crescimento econômico, ampliação do mercado interno, políticas sociais, fortalecimento do Estado, valorização do trabalho e pactuação entre interesses sociais distintos.
Nascia a arquitetura que posteriormente conheceríamos como lulismo.
A GRANDE REALIZAÇÃO E O GRANDE LIMITE DO LULISMO
Seria intelectualmente desonesto reduzir os governos petistas a continuidade neoliberal.
Milhões de brasileiros experimentaram modificações concretas em suas condições de existência.
Valorização do salário mínimo, aumento do emprego formal, expansão universitária, políticas de transferência de renda, crédito popular, habitação, fortalecimento dos bancos públicos, interiorização do ensino superior e técnico e ampliação do mercado interno produziram mudanças sociais reais.
O mérito histórico do lulismo foi demonstrar que a democracia brasileira podia melhorar materialmente a vida dos pobres sem provocar o colapso econômico anunciado por seus adversários.
Mas precisamente aí aparece sua contradição.
A inclusão ocorreu sem uma correspondente reorganização estrutural da propriedade e do poder.
A concentração fundiária permaneceu.
A democratização dos meios de comunicação não ocorreu.
O sistema tributário continuou durante décadas extraordinariamente regressivo.
A financeirização avançou.
O poder das grandes corporações permaneceu praticamente intocado.
E, sobretudo, a melhoria material da classe trabalhadora não se converteu, na mesma proporção, em poder social organizado capaz de tornar aquelas conquistas politicamente irreversíveis.
Essa é a diferença entre distribuição e transformação.
Enquanto crescimento, crédito, mercado interno, demanda internacional e valorização das commodities permitiram a expansão simultânea dos rendimentos do trabalho e do capital, a conciliação funcionou.
Quando essa margem diminuiu, reapareceu a pergunta que havia sido temporariamente suspensa:
quem pagará pela crise?
O primeiro governo Dilma ensaiou uma intervenção mais dura sobre juros, bancos públicos, tarifas e margens empresariais. Encontrou resistência. Depois, diante da deterioração econômica e política, o segundo governo iniciou 2015 com uma inflexão fiscal que atingia precisamente a base social que deveria sustentar um governo progressista.
O desfecho de 2016 possui determinações políticas, institucionais e sociais que não podem ser reduzidas à economia. Mas revelou brutalmente uma fragilidade: conquistas sociais extensas haviam sido construídas sem alteração equivalente da correlação estrutural de forças.
A EXTREMA DIREITA APRENDEU A ORGANIZAR O RESSENTIMENTO
O bolsonarismo introduziu outro elemento.
A direita brasileira deixou de ser apenas eleitoralmente conservadora e economicamente liberal. Passou a construir identidade, comunidade, militância, linguagem, símbolos, redes territoriais e presença cotidiana.
Conseguiu oferecer radicalidade política para realizar um programa material profundamente regressivo.
Privatização passou a ser apresentada como libertação.
Destruição de direitos como modernização.
Ataque a sindicatos como defesa do indivíduo.
Retirada do Estado social como liberdade.
Enquanto parcelas do progressismo aprendiam a tratar os limites da ordem como expressão de prudência, a extrema direita aprendeu a apresentar a própria regressão como rebeldia.
Essa assimetria ajuda a compreender por que derrotar eleitoralmente a extrema direita não basta.
Uma sociedade atravessada por endividamento, insegurança econômica, trabalho precarizado, ansiedade social, fragmentação comunitária e sensação de perda permanente continuará produzindo matéria-prima para o ressentimento político.
A extrema direita transforma sofrimento social em guerra contra falsos inimigos.
A esquerda somente poderá derrotá-la de forma duradoura se conseguir revelar as relações materiais que produzem aquele sofrimento e organizar politicamente aqueles que o experimentam.
LULA III: RECONSTRUÇÃO REAL, LIMITES TAMBÉM REAIS
O terceiro governo Lula voltou a demonstrar que política econômica e política social importam.
No trimestre encerrado em maio de 2026, o desemprego estava em 5,6%, menor índice registrado para o período na série da PNAD Contínua, e o rendimento médio do trabalho chegava a R$ 3.726, 4% acima do observado um ano antes. O PIB crescera 2,3% em 2025 e avançara 1,1% no primeiro trimestre de 2026.
São resultados incompatíveis com qualquer descrição intelectualmente séria de Lula III como mera continuidade de Bolsonaro.
Mas há outra face.
A taxa de investimento brasileira permaneceu em 16,8% do PIB em 2025. No mesmo ano, os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado chegaram a R$ 1,0076 trilhão, equivalentes a 7,91% do PIB. Em 5 de agosto de 2026, o Banco Central reduziu a Selic, mas ela permaneceu em extraordinários 14% ao ano.
É necessário tratar esses números com precisão.
Um trilhão de reais em juros nominais não equivale simplesmente a um trilhão de reais entregue a banqueiros. Os títulos públicos estão distribuídos entre bancos, fundos, empresas, fundos de pensão, investidores individuais e outras instituições.
O problema é mais profundo.
Uma economia que remunera aplicações líquidas e de baixo risco em patamar excepcional cria permanentemente uma referência de rentabilidade contra a qual todo investimento produtivo precisa competir.
O rentismo não é apenas o comportamento moral de indivíduos que preferem aplicações financeiras.
É uma estrutura de incentivos e de poder.
Juros elevados encarecem o crédito, aumentam o custo financeiro do Estado, pressionam o investimento público e elevam a rentabilidade mínima exigida para projetos industriais, tecnológicos e de infraestrutura.
A disputa em torno dos juros é, portanto, uma disputa acerca do destino do excedente social.
O RETORNO DAS REFORMAS ESTRUTURAIS
É aqui que 2026 oferece uma novidade histórica que merece muito mais atenção.
O 8º Congresso do PT, realizado em abril, não produziu apenas uma plataforma eleitoral defensiva contra a extrema direita.
Seu manifesto volta a empregar uma linguagem que parecia progressivamente distante do centro da formulação petista.
O documento caracteriza a crise contemporânea como crise do capitalismo neoliberal, fala na captura de renda pelo capital financeiro, identifica as novas oligarquias tecnológicas, relaciona democracia e transformação material e afirma que a disputa central de nosso tempo é uma disputa de hegemonia.
Mais importante: o documento afirma que reformas estruturais precisam ser sustentadas por uma correlação de forças capaz de enfrentar privilégios e recupera expressamente o socialismo democrático como horizonte programático.
E formula uma frase que dialoga quase diretamente com os dilemas acumulados desde os anos 1980:
“Sem hegemonia social, não há reforma estrutural sustentável.”
Não estamos diante da reprodução do programa de 1989.
A história não retorna dessa forma.
O capitalismo brasileiro mudou, a classe trabalhadora mudou, o Estado mudou, o sistema internacional mudou e o próprio PT mudou.
Mas algo reaparece: a percepção de que políticas públicas, por mais relevantes que sejam, tornam-se politicamente vulneráveis quando não alteram também relações de poder.
O 8º Congresso propõe reformas política, tributária, tecnológica, do Judiciário, administrativa, agrária e da comunicação; defende reconstrução do papel indutor do Estado, distribuição de renda, riqueza e patrimônio, transição produtiva e tecnológica e enfrentamento do rentismo. O programa partidário detalha ainda uma reforma do sistema financeiro, fortalecimento dos bancos públicos, redução estrutural do custo do crédito e maior regulação financeira.
O que durante muitos anos aparecia como reivindicação quase exclusiva da esquerda petista voltou, portanto, ao programa oficial do partido.
A questão já não é saber se existe formulação.
É saber que força social poderá realizá-la.
O SEGUNDO PROGRAMA DE 2026
Aqui surge talvez a contradição mais reveladora da conjuntura.
Poucos meses depois do 8º Congresso, a chapa Lula–Alckmin registrou suas diretrizes de governo para 2027–2030.
O texto mantém compromissos importantes: soberania, desenvolvimento, neoindustrialização, ampliação do investimento, redução das desigualdades, valorização do trabalho, defesa dos bancos e instrumentos públicos, transição ecológica, educação, saúde e o fim da escala 6×1 com redução da jornada para 40 horas sem redução salarial.
Mas a linguagem sofre uma nova mediação.
O programa eleitoral de uma coalizão com sete partidos precisa acomodar forças muito mais amplas do que o programa partidário.
A centralidade do enfrentamento ao rentismo aparece menos frontalmente. A economia é apresentada pela combinação entre crescimento, investimentos públicos e privados, inflação controlada e responsabilidade fiscal.
Essa diferença não deve ser denunciada simplesmente como fraude.
Ela deve ser interpretada.
Estamos diante da mesma tensão que atravessa a história petista: a diferença entre o horizonte programático construído pelo partido e as mediações necessárias para constituir uma maioria eleitoral e governamental.
A questão decisiva é saber se a coalizão funciona como mediação para avançar ou como limite permanente do avanço.
É aí que a reflexão de Mauro Iasi retorna com enorme força.
Não para estender mecanicamente sua conclusão de 2002 aos acontecimentos posteriores, mas para utilizar seu método: partidos são também expressões condensadas de movimentos da consciência, da organização e da luta de classes.
O que acontece com uma organização que nasce negando determinada ordem, aprende progressivamente a administrá-la e, décadas depois, descobre que a própria continuidade de suas conquistas pode exigir voltar a questionar alguns dos mecanismos estruturais dessa ordem?
Talvez estejamos diante de uma nova metamorfose ainda inconclusa.
O PROBLEMA DE LULA IV
Breno Altman vem formulando uma pergunta semelhante por outro caminho.
Ao analisar a crise do progressismo ocidental, Altman chama atenção para uma contradição: governos progressistas conseguem implementar políticas favoráveis aos trabalhadores, mas encontram enorme dificuldade para produzir instituições e forças sociais capazes de deslocar permanentemente a hegemonia neoliberal.
A questão aparece de maneira ainda mais explícita quando pensa um Lula IV: soberania, reindustrialização, defesa tecnológica e melhoria da renda exigirão enfrentar simultaneamente juros muito elevados e restrições ao investimento estatal.
Essa contradição não será resolvida por comunicação.
Tampouco por uma proclamação abstrata de radicalidade.
Será resolvida — ou não — pela construção de força.
Um giro à esquerda não significa abandonar a institucionalidade democrática, negar alianças ou imaginar que relações capitalistas desapareçam por decreto.
Significa algo mais concreto.
Reformas somente são estruturais quando alteram os mecanismos que reproduzem desigualdade e modificam, ainda que parcialmente, a relação de poder entre os grupos sociais.
Uma reforma tributária progressiva não é apenas mecanismo arrecadatório: desloca recursos e poder.
Uma reforma financeira não é apenas mudança administrativa: modifica quem controla o crédito e quais atividades econômicas recebem prioridade.
Reindustrialização não é apenas crescimento fabril: define se o Brasil será produtor de conhecimento, máquinas, semicondutores, inteligência artificial, biotecnologia e tecnologias energéticas ou fornecedor subordinado de commodities.
Redução da jornada não é apenas política trabalhista: redefine a distribuição social do tempo.
Democratização da comunicação não é apenas regulação setorial: interfere diretamente na produção da hegemonia.
Reforma agrária não é apenas distribuição de terras: altera relações de propriedade.
É nesse sentido que a luta contra o rentismo deixa de ser pauta técnica de economistas.
Quem decide o destino da riqueza social?
Quanto irá para juros?
Quanto irá para salários?
Quanto financiará educação, ciência, saúde, indústria e infraestrutura?
Quem possui poder para tomar essas decisões?
Esse é o núcleo material da democracia.
CONCILIAÇÃO É INSTRUMENTO, NÃO PROGRAMA HISTÓRICO
O grande mérito do lulismo foi mostrar que milhões de pessoas que historicamente haviam sido tratadas como excedentes podiam ocupar algum espaço no orçamento, na universidade, no consumo e na vida política nacional.
Seu limite histórico foi não converter suficientemente essa inclusão em poder social organizado.
Por isso, o possível Lula IV não deveria simplesmente repetir Lula I, II ou III em escala maior.
O desafio é qualitativo.
Na convenção de 2 de agosto, Lula afirmou que “quem fez pode prometer mais” e falou em um novo salto de qualidade. A frase somente adquirirá dimensão histórica se esse “mais” deixar de significar apenas maior quantidade das políticas anteriores e começar a representar mudança na relação entre Estado, trabalho e capital.
Isso exige preservar as conquistas.
Mas exige também produzir novas condições para que elas não possam ser facilmente destruídas no ciclo político seguinte.
A experiência brasileira talvez tenha demonstrado algo que a esquerda latino-americana terá de enfrentar com crescente clareza:
governar melhora a vida; organizar transforma a correlação de forças.
Um governo progressista pode administrar o Estado sem grande mobilização popular.
Dificilmente transforma estruturalmente a sociedade sem ela.
Derrotar a extrema direita em 2026 é uma tarefa democrática elementar.
Mas derrotá-la eleitoralmente sem combater as condições materiais que a reproduzem apenas posterga o confronto.
A extrema direita compreendeu que o ressentimento pode ser organizado.
A esquerda precisa reaprender que esperança também pode.
Não se trata de negar alianças.
Conciliação pode ser necessária como instrumento para construir maiorias e governar uma sociedade complexa.
Mas conciliação é instrumento, não programa histórico.
Entre administrar uma economia submetida à lógica financeira e reorganizá-la em função do desenvolvimento; entre preservar a correlação de forças e mobilizar a sociedade para modificá-la; entre derrotar eleitoralmente a extrema direita e diminuir as condições que permitem sua reprodução, encontra-se a verdadeira decisão histórica de um Lula IV.
Talvez essa seja a grande ironia da trajetória petista.
Depois de quarenta e seis anos aprendendo a chegar ao centro do Estado brasileiro, o Partido dos Trabalhadores pode descobrir que sua possibilidade de permanecer ali depende de reencontrar aquilo que existia em sua origem: uma sociedade em movimento.
A Vila Euclides, nesse sentido, não precisa ser apenas cenário nostálgico de uma campanha.
Pode ser metáfora.
O partido que nasceu quando trabalhadores decidiram falar por si próprios talvez tenha chegado ao momento em que precisa novamente criar condições para que eles possam fazê-lo.
Não apenas para governar o Brasil.
Mas para modificar as estruturas que, até hoje, determinam os limites dentro dos quais qualquer governo brasileiro consegue governar.
Flaviano Cardoso é advogado humanista, militante sindical, pesquisador independente, bancário na Caixa e articulista do Le Monde Diplomatique Brasil, GGN e JL Política e Negócios.
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