O roteiro se repete: a corrupção como arma política
por Daniel Costa
Entramos em setembro e, faltando pouco mais de um mês para o primeiro turno das eleições, um velho tema conhecido da população brasileira ganha novamente destaque no noticiário da mídia hegemônica. O leitor atento deverá se questionar: afinal, de qual tema este articulista está falando? Saúde, educação, cultura, habitação, soberania nacional? Não. O que vem à baila mais uma vez é a questão da corrupção.
É óbvio que tal tema não pode ser relegado a um plano marginal dentro do debate público e político. Porém, o que estamos assistindo novamente é mais uma vez setores da imprensa atuando como atores políticos. Frente à consolidação, ainda que apertada, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro lugar, e diante da possibilidade concreta de vitória no segundo turno, essa imprensa que se apresenta como imparcial e defensora do interesse público passa a atuar como linha auxiliar das candidaturas de oposição. Contudo, aqueles que conhecem a história recente do país reconhecem esse roteiro. E sabem que por trás da retórica moralista, há um projeto político calculado.
A instrumentalização do combate à corrupção como arma de destruição política não é novidade no Brasil. Desde meados da década de 1950, quando figuras como Carlos Lacerda adotaram o tema como trunfo para desestabilizar governos, o enfrentamento concreto às práticas corruptas foi relegado a um vergonhoso segundo plano. O que importava já naquela época não era a moralização da administração pública, mas a deslegitimação do adversário político. Essa malfadada tradição iria encontrar seu apogeu no processo que culminou com a destituição da presidenta Dilma Rousseff, momento em que a narrativa da corrupção foi construída meticulosamente, não importando que a presidenta jamais tivesse sido acusada diretamente de qualquer ato ilícito. O que importava era criar uma atmosfera de suspeição que contaminasse todo aquele campo político.
Como observa o historiador Lincoln Secco, em artigo publicado no livro “O Golpe de 2016: origens, mecanismos e consequências“, recém lançado pela Fundação Perseu Abramo, a indignação contra a corrupção em 2016 foi profundamente seletiva, dirigindo-se não contra esses atos em si, mas contra um partido específico. Enquanto a classe média se mobilizava contra o PT, governos estaduais “afundados há decênios num lodo de suspeitas de corrupção” permaneciam imunes a protestos de mesma magnitude, revelando o verdadeiro caráter da cruzada moralista: não era contra a corrupção, era contra o adversário político.
Ainda de acordo com Secco, as Jornadas de Junho de 2013 foram o laboratório perfeito para testar a fórmula que seria aplicada em 2016. O que começou como um movimento legítimo foi rapidamente capturado por uma onda antipolítica e amplificada por uma cobertura midiática que passou a demonizar os partidos políticos e, especialmente, a esquerda. Nesse ínterim, a grande imprensa, além de noticiar os protestos, conseguiu, mesmo que de forma implícita, tornar-se uma de suas lideranças, impondo pautas e transformando segmentos da sociedade em massa de manobra contra o governo. Foi nesse cenário que a narrativa da corrupção floresceu. A verdade factual foi substituída pela repetição exaustiva de acusações, alimentadas por uma enxurrada de memes, vídeos e hashtags que transformaram o antipetismo em uma estética política. A corrupção não precisava ser provada; bastava ser repetida.
Foi nesse contexto que a Operação Lava Jato assumiu seu papel central. Ela não foi apenas uma investigação criminal, mas um espetáculo jurídico-midiático cuidadosamente orquestrado para desestabilizar o governo e criar as condições políticas para a destituição de Dilma Rousseff. De acordo com Lincoln Secco, a Lava Jato operou com “vazamentos seletivos, prisões arbitrárias e atropelo do devido processo legal”. A teatralização das ações judiciais, com o juiz Sérgio Moro transformado em herói nacional, criou a percepção de que uma grande cruzada moral estava em curso. O procurador Deltan Dallagnol, com seu famoso PowerPoint, converteu a acusação em espetáculo, transformando a luta contra a corrupção em um grande reality show transmitido em tempo real para a população.
O caso mais emblemático dessa farsa foi a condução coercitiva do então ex-presidente Lula em 4 de março de 2016. A medida, que se tratava de uma figura jurídica prevista apenas para casos em que o depoente se recusava a comparecer à justiça, o que não era o caso, deixou naquele momento de ser um ato processual, transformando-se em um espetáculo de humilhação pública transmitido ao vivo pelas emissoras de televisão. Dessa forma, a operação Lava Jato, que se apresentava como uma cruzada contra a corrupção, terminou por produzir o resultado oposto: colocou no poder um grupo de políticos investigados pelos mesmos crimes que supostamente combatia. O que estava em jogo não era a moralidade pública, mas a interrupção de um projeto de desenvolvimento que beneficiava os mais pobres.
Agora, em 2026, vemos o mesmo roteiro sendo reencenado. A ausência de escândalos concretos envolvendo o governo Lula é preenchida pela criação de suspeitas em torno de seu filho, Fábio Luís. A falta de materialidade comprovada não importa; o que importa é a narrativa, a repetição exaustiva, a conexão vaga com o presidente, como quando de sua participação na sabatina promovida pelo Jornal Nacional, onde um dos entrevistadores levantou a possibilidade da ocorrência de ilicitudes na antessala do gabinete presidencial. Ao mesmo tempo, casos como o do Banco Master, com materialidade comprovada envolvendo diretamente um candidato da oposição, são tratados com a cautela de quem não quer queimar cartas importantes. Assim, a imprensa hegemônica, mais uma vez, atua como linha auxiliar da oposição, repetindo o papel que desempenhou em 2016. Ou seja, o objetivo central não é mais informar, e sim construir uma realidade paralela, onde a acusação se torna mais relevante do que a prova. Dessa forma, o que temos até aqui, como em 2016, não é a defesa da moralidade pública ou do republicanismo. Trata-se de mais uma vez buscar interromper a construção de um projeto que, mesmo com suas contradições, procura colocar a população pobre no centro das decisões. Cabe ao eleitor atento reconhecer a farsa e não se deixar levar pelo discurso fácil trazido por essa imprensa que, de imparcial, não tem nada.
*Daniel Costa é mestre em História pela Universidade de São Paulo e desenvolve pesquisa acerca da corrupção no decorrer do século XVIII.
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