A pequenez política mostrada através de um tapete
por Daniel Costa
No último sábado, durante sua passagem por São Paulo, o presidente da Argentina, Javier Milei, foi agraciado pelo governador Tarcísio de Freitas com a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Poder Executivo estadual. Não pretendo discutir o mérito específico da condecoração a uma figura de perfil ideológico tão alinhado ao governador, ainda que o simbolismo do ato dispense comentários sobre sua oportunidade política. O que, mesmo de passagem, merece reflexão é a banalização dessas distinções, prática que passa por administrações de distintos matizes partidários. Seja em gestões identificadas com a esquerda ou com a direita, tais honrarias têm servido, com frequência, menos ao reconhecimento de relevantes serviços prestados à sociedade e mais ao engrandecimento de aliados próximos, correligionários e, por vezes, até de familiares, em detrimento de nomes que, por trajetória e contribuição efetiva, seriam de fato merecedores da distinção.
Porém, o que despertou ainda mais atenção foi o fato de o mandatário argentino ter sido recebido com um tapete azul em substituição ao tradicional tapete vermelho. Em um primeiro momento, o leitor pode até perguntar: por que este articulista se dedica a escrever sobre um tapete? Pois bem, a questão é muito mais profunda do que o simples objeto e sua cor.
Para além de buscar simbolizar a ascensão da “onda azul” no continente, movimento que tem levado ao poder central em diversos países da América Latina presidentes que vão desde a direita moderada até figuras ultraconservadoras, para dizer o mínimo, o próprio governador Tarcísio declarou diversas vezes à imprensa não gostar da cor vermelha por sua associação à esquerda. A tradição do tapete vermelho em cerimônias oficiais remonta à Antiguidade, muito antes de qualquer cisão entre esquerda e direita. Na Grécia antiga, já se estendiam tapetes vermelhos para receber figuras ilustres, e a cor sempre esteve associada a prestígio, realeza e solenidade, não a partidos políticos. Portanto, ao substituí-lo por um tapete azul, o governador revela menos um gesto simbólico de alinhamento ideológico e muito mais uma postura provinciana e tacanha, que confunde tradição com política e demonstra uma incapacidade preocupante de separar o simbólico do ideológico.
Tal atitude expõe, com clareza, a pequenez daqueles que dizem combater um suposto autoritarismo, mas agem com a mesma rigidez sectária que atribuem aos adversários. Mudar a cor de um tapete não é um gesto inocente; é um sintoma de intolerância. E a pergunta que fica é: se não suportam a cor de um tecido, o que fariam diante de ideias, visões de mundo e projetos de sociedade distintos dos seus? Será que, em um estado de exceção, essas mesmas autoridades iriam banir ou até mesmo fazer algo pior com pessoas que se identificam como de esquerda? Acredito que sim. Pois se não são capazes de conviver com a cor de um tapete, imaginem com o pensamento crítico, com a diversidade de opiniões e com a pluralidade que é a essência da democracia.
A situação me fez lembrar de um episódio ocorrido na capital paulista quando o então prefeito Fernando Haddad começou a implantar as ciclovias na cidade e foi acusado por setores da oposição de fazer propaganda partidária simplesmente por pintar as pistas com a cor vermelha, que, como se sabe, é o padrão internacional para essas vias.
A semelhança entre os dois casos nos mostra um padrão de leitura enviesada da realidade, em que tudo é reduzido a uma guerra cultural estéril e simplificadora. Se no episódio das ciclovias o vermelho foi lido como comunismo, agora o azul celebra uma espécie de triunfo conservador. Em ambos os momentos, perde-se de vista o essencial: a cor de um tapete ou de uma ciclovia deveria ser questão de tradição ou de técnica, nunca de intolerância. O que está em jogo, no fundo, é a qualidade da nossa vida pública e a maturidade política de nossas lideranças, que parece diminuir na mesma proporção em que cresce sua obsessão por símbolos.
Esse episódio, por sua vez, gerou pouca repercussão naquela imprensa ainda vista como hegemônica. E aí fica uma questão: em seus editoriais, muitas vezes os jornais dizem que o presidente Lula estimula a polarização, o “nós contra eles” e outros chavões do gênero. Porém, honestamente, pergunto: quando um governo democrático e popular, ou mesmo de centro, como é o terceiro mandato do presidente Lula, fez algo parecido? Nunca.
O que se vê, na realidade, é que a parcela que efetivamente estimula a divisão, que não preza pela convivência com o outro e que transforma diferenças em trincheiras não é exatamente aquela que se autodenomina defensora da democracia. Essa postura sectária, que reduz o mundo a aliados e inimigos, não parte do campo democrático e popular, mas justamente de seus opositores, que insistem em enxergar fantasmagorias comunistas em cada gesto ou símbolo.
Enquanto isso, a grande imprensa faz coro silencioso ou trata o episódio com uma naturalidade que beira a conivência. Afinal, se o tapete fosse vermelho e um governador de esquerda o substituísse pelo azul, certamente haveria manchetes e editoriais inflamados sobre autoritarismo e censura simbólica. Mas como o gesto partiu de um governador alinhado ao conservadorismo, o caso é relegado a uma nota de rodapé, quando não ignorado por completo.
Essa assimetria no tratamento da notícia expõe um velho vício do jornalismo brasileiro: apegado a uma suposta isenção que, na prática, sempre pende para o lado que lhe é mais confortável. Critica-se com veemência o governo federal por qualquer deslize retórico, mas relativiza-se ou omite-se atos igualmente sintomáticos quando praticados por opositores. O resultado é um debate público empobrecido, em que a polarização é atribuída apenas a um lado, enquanto o outro age impune sob o manto da normalidade.
A verdade, porém, é que a democracia não se constrói com tapetes azuis ou vermelhos, nem com a demonização de cores, símbolos ou ideias. Ela se fortalece com a capacidade de conviver com o diferente e de distinguir o que é política do que é puro preconceito. Enquanto nossos governantes e nossa imprensa não aprenderem essa lição elementar, continuaremos a assistir a episódios menores revelarem feridas maiores, e o país seguirá refém de uma guerra simbólica que só interessa a quem tem medo do que realmente importa: o debate de ideias e de projetos para o futuro do país.
Daniel Costa é historiador e jornalista
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