O ouro vem recuperando espaço no sistema financeiro internacional e se consolidando como um dos principais instrumentos de proteção diante das incertezas econômicas e geopolíticas. O movimento ocorre em paralelo à diversificação das reservas dos bancos centrais e à redução gradual da dependência do dólar, em um cenário de crescente dispersão do poder econômico global.
Segundo o artigo “The Golden Bridge to Monetary Multipolarity”, publicado pelo Project Syndicate e assinado pelo economista Hippolyte Fofack, o ouro já ultrapassou os títulos do Tesouro dos Estados Unidos como principal ativo de reserva mundial, de acordo com dados confirmados pelo Banco Central Europeu (BCE) em junho.
A mudança não significa que o dólar esteja perto de perder sua posição hegemônica, mas o processo aponta uma transformação mais gradual: em vez da substituição de uma moeda hegemônica por outra, ganha força um sistema no qual dólar, euro, renminbi e ouro desempenham funções complementares.
O movimento dos bancos centrais ajuda a explicar essa mudança. No ano passado, as reservas de ouro registraram a quarta maior expansão da história. Pesquisa do Official Monetary and Financial Institutions Forum indica que mais bancos centrais pretendem reduzir suas reservas em dólares do que ampliá-las na próxima década.
Levantamento do World Gold Council de 2026 aponta na mesma direção: 74% dos bancos centrais consultados esperam uma redução moderada ou significativa da participação do dólar em suas reservas nos próximos cinco anos.
Geopolítica muda cálculo de risco das reservas
A valorização do ouro está relacionada não apenas à busca por proteção contra inflação ou turbulências financeiras, mas também a uma mudança na percepção sobre o risco soberano.
Em um ambiente marcado por guerras, sanções, disputas comerciais e crescente fragmentação geopolítica, cresce a preocupação com a possibilidade de determinados ativos financeiros se tornarem inacessíveis, e o ouro apresenta uma característica particular nesse cenário: não depende do compromisso financeiro de outro Estado. Por não carregar risco de contraparte soberana, pode funcionar como reserva de valor mesmo quando as relações entre países se deterioram.
A transformação também aparece na estratégia de países emergentes. O Banco Popular da China (PBoC) elevou suas reservas de ouro pelo 21º mês consecutivo em julho, alcançando 76,08 milhões de onças troy. Pequim também vem ampliando seus estoques físicos de ouro em Hong Kong, enquanto a cidade desenvolve mecanismos próprios de compensação e liquidação do metal.
Dólar ainda domina, mas mundo financeiro se diversifica
O avanço do ouro, contudo, não deve ser confundido com uma substituição imediata do dólar. O renminbi ainda enfrenta limitações importantes para assumir uma posição comparável à moeda americana, entre elas os controles de capital e a menor profundidade dos mercados financeiros chineses.
A internacionalização da moeda avançou por meio de acordos bilaterais de swap, mecanismos de liquidação comercial e expansão da emissão de títulos denominados em renminbi, mas isso não significa que Pequim esteja perto de retirar o dólar de sua posição central.
O euro enfrenta obstáculos diferentes. A moeda europeia ganhou espaço no mercado internacional de títulos verdes e sustentáveis e vem sendo impulsionada por mecanismos de liquidez e pela expansão da dívida denominada em euros. A ausência de uma política fiscal unificada e de mercados de capitais plenamente integrados, entretanto, limita sua capacidade de substituir o dólar em escala global.
É justamente nesse espaço entre as diferentes moedas que o ouro ganha importância. Como ativo que não pertence a nenhum bloco monetário específico, o metal pode funcionar como uma espécie de elo entre diferentes sistemas financeiros.
Sua crescente participação nas reservas internacionais acompanha iniciativas para ampliar pagamentos em moedas locais, inclusive entre países do Brics, e reduzir a utilização do dólar em operações comerciais e financeiras.
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