Dois pesos para o mesmo risco
O mesmo perigo que a Casa Branca trata como embuste dentro de casa já justificou desligar modelos de fronteira no mundo inteiro e agora ganha um comando próprio dentro do governo americano. Em uma semana decisiva para o futuro global da tecnologia, a cúpula com Xi Jinping vai definir quem escreve a regra e uma queda de braço dentro do próprio governo de Donald Trump define se ela será escrita em registro militar.
por James Görgen
No sábado, 19 de setembro, Donald Trump anunciou em post na sua rede social a criação de uma “AI Force”, comparada por ele à Space Force de seu primeiro mandato, e a futura nomeação de um czar de inteligência artificial. No mesmo texto, classificou como embuste politicamente motivado os apelos por desaceleração da implementação da IA, que vinham de parlamentares dos dois partidos e dos próprios laboratórios de fronteira, afirmou que seu governo não vai obstruir o crescimento da indústria e sustentou que o sistema criminal e civil já existente basta para coibir abusos. A Casa Branca não esclareceu se o novo órgão será militar ou civil.
Três meses atrás, esse mesmo governo ordenou à Anthropic que suspendesse o acesso aos modelos Fable 5 e Mythos 5 para qualquer estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos, incluindo os funcionários da própria empresa sem cidadania americana. A justificativa foi segurança nacional, sem detalhamento público. O controle só caiu depois de negociação que produziu novas classificadoras de segurança e um acordo com o Departamento de Comércio.
Entre os dois episódios existe uma política coerente. O risco da inteligência artificial é tratado como embuste quando limitaria o crescimento da indústria americana e como ameaça concreta quando define quem, fora dos Estados Unidos, tem acesso à tecnologia. São dois pesos para o mesmo perigo e o que determina qual deles entra na balança é a nacionalidade de quem seria afetado.
Dentro de casa
Internamente, a política de Washington é de aceleração declarada. Trump prometeu que o governo vai zelar pela indústria em vez de obstruí-la, projetou que a inteligência artificial pode chegar a 25% do PIB do país e afirmou que os Estados Unidos estão à frente da China e do restante do mundo. Classificou como desvairada a reação popular contra data centers, que virou tema das eleições de meio de mandato e divide o próprio Partido Republicano, onde parlamentares acompanham a preocupação dos eleitores com conta de luz e perturbação da vizinhança.
O aparato de fiscalização anunciado opera depois do dano. Aplicar a lei criminal e civil existente transfere ao prejudicado o ônus de provar a lesão, num campo em que a assimetria de informação entre desenvolvedor e vítima é o problema central. Nenhuma obrigação prévia de teste, documentação ou auditoria decorre do anúncio de sábado.
A Câmara dos Representantes entrou em recesso em 17 de setembro e retorna em 9 de novembro, ausente durante toda a semana decisiva. David Sacks, que deixou o posto de czar de inteligência artificial em março e hoje copreside o conselho presidencial de assessores para ciência e tecnologia, criticou tanto os documentos de junho quanto o ensaio de setembro dos laboratórios. E uma ação protocolada em 18 de setembro em tribunal federal da Califórnia acusa as empresas de inteligência artificial de violar a lei antitruste ao coordenar a desaceleração, o que entrega ao campo do acelerador uma arma judicial contra o campo do freio, ainda que os autores digam não se opor a que as empresas peçam ao governo regulação própria ou isenção antitruste.
Na fronteira
Do lado de fora, a mesma tecnologia é tratada como ativo estratégico sob controle. O episódio de junho provou que o desligamento remoto existe, funciona globalmente e depende de decisão administrativa de um governo estrangeiro. Foi acionado sem explicação pública e revertido depois de semanas de negociação da empresa com a Casa Branca e o Departamento de Comércio. Cinco dias depois, o presidente da França, Emmanuel Macron, advertiu, no almoço do G7 em Évian, que a capacidade americana de desligar a chave a qualquer momento corrói a confiança nas próprias empresas dos Estados Unidos. A advertência chegou com o botão já testado.
Em torno desse mecanismo se organizou uma arquitetura inteira. A Pax Silica reuniu 35 países sob compromissos de regulação pró-inovação e alinhamento em minerais críticos, energia e semicondutores, com carta do Departamento de Estado proibindo dupla filiação com a WAICO chinesa. Os clubes de acesso a modelos avançados, do Glasswing ao arcabouço não publicado da Casa Branca, definem quem recebe o quê e em que condições. A Índia, signatária da Pax Silica, precisou pedir garantia de que a tecnologia já concedida não seria desligada. As duas doutrinas que sustentam essa exclusão vêm de origens políticas opostas e chegam ao mesmo veredito.
O desenho externo opera como válvula, com abertura calibrada país a país, e o mesmo Bureau of Industry and Security que interrompeu o Fable mantém política permissiva de exportação de semicondutores de ponta aos alinhados. A Pax Silica chega a prever exportação conjunta da pilha tecnológica americana pelos signatários, o que converte parte dos aliados em revendedores. O peso mais alto recai sobre quem está fora do clube como é o caso da maior parte dos países do Sul Global.
A destilação como linha de corte
O ensaio de Dario Amodei de 12 de setembro tornou essa lógica explícita em um ponto específico. A margem para desacelerar existe, argumenta ele, porque os Estados Unidos mantêm distância da China, e por isso o texto pede controle de exportação de chips mais duro somado à repressão à destilação não autorizada.
Destilação é o procedimento pelo qual um desenvolvedor treina um modelo menor a partir das respostas de outro já lançado, capturando parte de sua capacidade a uma fração do custo de treinamento original. Para quem não dispõe de dezenas de bilhões de dólares em computação, ela é a rota economicamente viável para produzir modelos especializados em língua, jurisprudência, currículo escolar ou protocolo clínico próprios. Somada aos pesos abertos, forma o caminho de capacitação mais acessível a países de renda média.
Esse caminho ficou mais atraente pelo custo. As comparações de custo por tarefa hoje disponíveis favorecem os modelos chineses de pesos abertos sobre os equivalentes ocidentais, o que converte a adoção de pesos abertos em decisão orçamentária. A camada aberta sobre a qual repousa boa parte das estratégias de difusão formuladas em Washington foi produzida por política industrial estatal chinesa, fato que os analistas americanos registram sem extrair a consequência.
A contradição aparece quando se olha o pacote inteiro. O arcabouço federal americano isentou os pesos abertos de obrigações, resultado de campanha organizada desde fevereiro pelas próprias empresas, enquanto um laboratório de fronteira pede a repressão global ao mecanismo que dá a esses pesos utilidade prática fora do centro. Liberdade de circulação para o artefato, controle sobre quem consegue convertê-lo em capacidade. Restringir a destilação fecha a porta mais barata que restava e transforma a desaceleração proposta em nome da humanidade em barreira de entrada custeada por quem chegou depois.
O andar que faltava
Os laboratórios de fronteira pediram, desde junho, dois andares de um mesmo edifício. Um regime de teste obrigatório por terceiros com poder legal de bloquear lançamentos e um órgão operacional financiado pela indústria sob supervisão estatal. A divergência entre eles nunca se resolveu e era sobre quanto Estado aceitar na sala.
A AI Force responde essa pergunta por uma via que nenhum deles pediu. Institui presença estatal sem obrigação prévia, recusa o freio e reserva à Casa Branca o poder de policiar condutas sob lei americana aplicada a uma infraestrutura usada no mundo inteiro. Os laboratórios pediram um freio e podem acabar recebendo um comando.
Semana decisiva
A semana que começa concentra a decisão. Na quarta-feira, o governo americano convoca evento de alto nível sobre inteligência artificial à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, com vários países convidados, no mesmo dia em que o Conselho de Segurança se reúne sobre inteligência artificial e segurança, com Sam Altman, da OpenAI, esperado para informar os membros. Na quinta, Xi Jinping chega a Washington para a primeira visita de Estado de um presidente chinês à capital americana em mais de uma década, com chips avançados na pauta ao lado de Taiwan e da validade da trégua comercial de Busan. A Casa Branca confirmou que segurança em inteligência artificial está na agenda. Na mesma noite, Altman, Jensen Huang, da Nvidia, e Sundar Pichai, da Google, participam do jantar em homenagem ao visitante.
Se a distância entre EUA e China for negociada na quinta-feira, a premissa que sustenta toda a arquitetura de freio de Amodei desaparece antes de ser testada. Se as restrições forem endurecidas, a mesma arquitetura ganha respaldo político. Nos dois cenários, o ritmo da inteligência artificial que o Brasil e os demais países fora dessas mesas vão importar terá sido definido em sala sem representação do Sul Global.
O que não depende de convite
Qualquer país com capacidade administrativa pode adotar três instrumentos, detalhados na conclusão da série sobre os laboratórios de fronteira. Vedação normativa e contratual à interrupção unilateral de acesso a serviços já contratados por ato administrativo de governo estrangeiro, com cláusula de continuidade e plano de contingência exigíveis em compras públicas. Obrigação de execução local de modelos em saúde, finanças, defesa e segurança pública, onde dado sensível não pode depender de infraestrutura sujeita a decisão externa. Auditoria independente das alegações de capacidade dos modelos de fronteira comercializados em território nacional, com perícia própria e resposta a incidentes.
A execução tem uma régua conhecida e ela vem da Espanha. Madri cortou a Palantir de Telefónica, Indra, Navantia e Correios, derrubou um acordo quase fechado com a construtora naval militar e um projeto negociado com a Guarda Civil, vetado pelo ministro do Interior, tudo acompanhado de aporte de 115 milhões de euros na catalã Openchip, dentro de um projeto de gigafábrica de 5 bilhões de euros financiado majoritariamente pela holding estatal. O aporte é o que sustenta o veto. O limite do caso também ensina, porque o contrato que sobreviveu intacto foi justamente o do Centro de Inteligência das Forças Armadas, de 16,5 milhões de euros, assinado em 2023, sobre o qual as chefias do Exército e da Marinha pressionam pela renovação. No caso espanhol, a periferia civil se mostrou cortável enquanto o núcleo de defesa resistiu. É nele que a dependência se aloja.
Novo arranjo institucional
A comparação escolhida por Trump tem consequência institucional. A Space Force foi criada em 2019 como ramo das Forças Armadas, com orçamento, cadeia de comando e domínio operacional próprios. Aplicar esse molde à inteligência artificial significa tratar a camada que responde a estudantes, hospitais, tribunais e órgãos públicos de dezenas de países como teatro de operações. Até o fechamento deste texto, a Casa Branca não havia esclarecido o ponto.
A indefinição reflete uma disputa em curso dentro do próprio governo. O Departamento de Comércio impôs controle de exportação sobre os modelos de uma empresa americana poucos dias depois do lançamento deles, sob a vigência de uma ordem executiva do mês anterior concebida para evitar que exigências regulatórias atrasassem o setor. O Pentágono classificou a Anthropic como risco de cadeia de suprimento, categoria historicamente reservada a adversários estrangeiros, foi processado pela empresa em março e viu a medida derrubada na Justiça, enquanto a Agência de Segurança Nacional seguia usando o modelo Mythos. Em 1º de maio, oito grandes empresas de tecnologia assinaram acordos para operar em redes classificadas sob a cláusula de uso operacional lícito, com o Departamento de Defesa na posição de redator de regra geral de contratação de inteligência artificial para a máquina federal e US$ 54 bilhões reservados no orçamento de 2026 para inteligência artificial e autonomia. Do outro lado da mesma administração estão os investidores de risco e os parlamentares que tratam qualquer obrigação prévia como perda de terreno para a China.
A AI Force pode cair de qualquer um dos dois lados e os efeitos para o resto do mundo divergem. Um órgão civil de aplicação da lei mantém a assimetria atual, com regra estadunidense alcançando infraestrutura global por via contratual. Um braço militar converte a mesma infraestrutura em domínio de comando, com doutrina e cadeia de comando próprias. Isso torna a distinção entre serviço comercial e ativo estratégico uma decisão de Washington a cada caso. Países que rodam saúde pública, arrecadação e defesa sobre modelos estrangeiros passam a depender de um arranjo cuja natureza jurídica sequer foi anunciada.
Os dois pesos do risco funcionam enquanto os países que recebem o produto aceitarem a pesagem alheia. Definir em lei o que é admissível na inteligência artificial que opera em território nacional, com obrigação exigível e perícia própria para verificá-la, é a resposta que não depende de cadeira em mesa alguma. Enquanto isso não for feito, o que vale em território brasileiro seguirá sendo decidido em Washington.
James Görgen é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e Assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços
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