Uma eventual vitória do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ainda no primeiro turno na disputa pelo governo de São Paulo defenderá um duro golpe nas pretensões do campo governista e obrigará a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a passar por um imediato e profundo reposicionamento estratégico. A avaliação é do cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando.
Segundo ele, o esvaziamento do palanque no maior colégio eleitoral do país logo na primeira etapa da eleição nacional inviabilizaria a estrutura local articulada pelo PT e exigiria uma reformulação tática para evitar estragos irreversíveis na campanha à reeleição do governo federal.
“Se a derrota for no primeiro turno, a campanha de Lula precisa reposicionar a estratégia para o estado de São Paulo. Porque se tiver uma margem muito grande entre ele e o candidato da oposição em São Paulo, no Rio de Janeiro e nas Minas Gerais, o projeto de reeleição pode ficar comprometido de maneira inexorável. Política não é o que a gente quer, é o que a gente vê. O cientista não fala aquilo que a gente gostaria de falar, mas aquilo que os dados da realidade se apresentam e nos indicam.” — Rodrigo Prando, cientista político.
O conservadorismo do interior e o “efeito prefeitura”
Um dos pilares da força de Tarcísio de Freitas reside na geografia política do estado. Prando aponta que o interior paulista guarda um perfil marcadamente conservador e historicamente avesso às pautas da esquerda, servindo como uma muralha de contenção que compensa a maior diversidade de votos da capital.
Somada ao perfil do eleitorado, a força da máquina estadual impõe mais um obstáculo quase intransponível para Lula. A adesão de prefeitos do interior em prol do governador cria um efeito cascata que mobiliza vereadores e lideranças locais. Prando lembra que esse modelo de “tabelinha” entre o Palácio dos Bandeirantes e os municípios operou por décadas durante a hegemonia do PSDB e foi herdado e adaptado com sucesso pela atual gestão.
Efeito dominó no Senado: risco para Tebet e Marina
Durante a entrevista, o professor também apontou que as consequências de uma vitória avassaladora da direita no estado não se limitam ao governo estadual ou à presidência. Para ele, a força da chapa governista pode puxar votos decisivos para a bancada do Senado, colocando em risco candidaturas do campo amplo de Lula, como as das ministras Simone Tebet e Marina Silva.
A disputa pelas duas vagas ao Senado em São Paulo é classificada pelo cientista político como a mais incerta do pleito. Uma eventual vitória de nomes alinhados à direita atenderia ao objetivo estratégico da oposição: consolidar maioria na Casa Alta para pautar temas de enfrentamento ao Judiciário, incluindo pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Nesse contexto, se a oposição fechar o cerco em São Paulo, o PT será forçado a rever no meio da corrida o peso e os recursos investidos no Sudeste, sob o risco de ver ruir as bases de sua sustentação política nacional.
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