Em apurações e coberturas da imprensa brasileira, acusações envolvendo figuras políticas do espectro da esquerda (como as suspeitas ligadas a Lulinha e à lobista Roberta Luchsinger) costumam receber o mesmo destaque e rigor analítico dedicado às investigações que atingem o grupo bolsonarista, empresários corruptos e setores do Judiciário implicados no Caso Master/Dark Horse. É uma falsa equivalência que não para em pé se olharmos os números e as informações que sustentam cada caso.
Quando comparados sob a ótica dos valores financeiros ainda sob investigação na Polícia Federal e as provas de nexo de causalidade (ou seja, prova de relação entre pagamento de propinas e os negócios que beneficiam o empresário/empresa investigada), surge uma imensa disparidade de escala.
Enquanto as suspeitas envolvendo o entorno de Lulinha tratam de supostos pagamentos na casa dos milhares de reais e relações contratuais pontuais que ainda carecem de apuração, porque ainda não há provas cabais de nexo de causalidade, os desdobramentos do BolsoMaster envolvem fraudes financeiras na casa dos bilhões de reais e negociatas que passam das centenas de milhões.
No caso envolvendo a empresária Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), as apurações da Polícia Federal, vazadas aos veículos de imprensa, destacam repasses diretos a funcionários do governo federal (estes, sim, rastreados) e contratos milionários sob suspeita, na casa das centenas de milhões de reais, só que alguns sequer foram concretizados junto ao governo federal, como é o caso da venda de canabidiol ao Ministério da Saúde, cujo valor propagado é de R$ 626 milhões.
Enquanto isso, o BolsoMaster envolve fraudes financeiras bilionárias de um banco criado por brechas que se abriram no governo de Jair Bolsonaro e na gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central; além das centenas de milhares de reais em pagamentos de vantagens ou benefícios a políticos e projetos de seus interesses (como o filme Dark Horse). Sem contar os contratos advocatícios supostamente ligados à tentativa de consolidar uma rede de proteção e influência em torno do banqueiro Daniel Vorcaro, entre outros negócios.
Abaixo, o quadro ilustra a proporção e os valores citados nas principais reportagens divulgadas até agora:
| Investigação/caso | Figuras citadas | Valores em apuração | Total |
| Roberta Luchsinger/ Lulinha | • Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha) • Cléber Ribas (Dono da 3Structure) • Marco Aurélio Ribeiro (Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula) • 2 servidores do MDS | • R$ 626 milhões em minuta de contrato sob suspeita com o Ministério da Saúde (canabidiol). O negócio NÃO foi concretizado. • R$ 249 mil em pagamentos de despesas pessoais a Marcola por Roberta. • R$ 60 mil em depósitos a servidores do MDS por Roberta, relacionados pela PF a um contrato da 3Structure com a pasta, na casa dos R$ 31 milhões, mais aditivo e novo contrato que somam R$ 21,9 milhões. | R$ 309.000 (se considerados apenas os pagamentos diretos supostamente efetuados por Roberta) ou R$ 53.209.000 (considerando os contratos da 3Structure sob suspeita, mais os pagamentos supostamente efetuados por Roberta) |
| Família Bolsonaro/ Vorcaro/ Filme Dark Horse | • Flávio Bolsonaro • Eduardo Bolsonaro • Mário Frias e Produtora GoUp • Daniel Vorcaro (Banco Master) | • Cerca de R$ 130 milhões pagos por Vorcaro a pedido de Flávio para o filme Dark Horse, além de repasses extras apontados pela PF (US$ 1,6 milhão). • R$ 61 milhões a R$ 68 milhões repassados por Vorcaro para fundo nos EUA administrado por interlocutores de Eduardo Bolsonaro. • R$ 19 milhões movimentados em 51 dias pela produtora Go Up. • R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas por Mário Frias vinculadas à rede da produtora. | R$ 219.000.000 (R$ 219 milhões, considerando todos os repasses sob suspeita) |
| Fraudes no Banco Master (Operação Compliance Zero) | • Daniel Vorcaro e cúpula do Master • Instituições financeiras (ex: BRB) | • R$ 17 bilhões em fraudes dentificadas em carteiras de crédito negociadas • Prejuízo/desfalque total estimado em até R$ 60 bilhões no sistema financeiro e fundos de pensão | R$ 60.000.000.000 (R$ 60 bilhões, considerando o teto estimado do prejuízo) |
| Rede de influência/ magistrados | • Daniel Vorcaro • Barci de Moraes Advogados Associados • Turma do KN (Kassio Nunes) • Instituto Iter (André Medonça) | • Contrato de R$ 131 milhões com escritório da esposa de Alexandre de Moraes, por consultoria estratégica e atuação jurídica em várias instâncias e órgãos reguladores (como Banco Central e Cade). • Pagamento de R$ 427 milhões em contratos de advocacia supostamente em troca de resultados favoráveis ao Banco Master em tribunais superiores que poderiam liberar R$ 8,5 bilhões em precatórios. • Repassse de R$ 5,2 milhões em contrato de empréstimo entre o Iter e a Cedro Participações, uma holding de Lucas Kallas, empresário com participação em negócios que envolveram Vorcaro ou empresas ligadas a ele. | R$ 563.000.000 (R$ 563 milhões, considerando os contratos advocatícios e de empréstimo sob análise) |
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Rui Ribeiro
24 de setembro de 2026 11:06 amAgora pela manhã eu fiz um comentário nesse sentido, inspirado num artigo do Nassif https://jornalggn.com.br/coluna-economica/estadao-o-velho-truque-da-falsa-equivalencia-como-forma-de-apoio/.
Talvez só seja publicado amanhã. Talvez nem seja publicado. Muitos comentários enviados não são publicados e quando são publicados, só o são no dia seguinte.