25 de setembro de 2026

Que política externa a sociedade brasileira quer para a África?, por Vanessa Africani

A trajetória brasileira demonstra que a relação com o continente africano não pode depender exclusivamente do impulso de um governo de turno.

Levantamento do IBRAF mostra que 7 dos 13 presidenciáveis mencionam a África, mas sem estratégias detalhadas.
Relação Brasil-África varia conforme governo; integração entre setores amplia presença e continuidade nas parcerias.
Política externa precisa envolver sociedade brasileira e africana para definir prioridades e construir diálogo efetivo.

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Que política externa a sociedade brasileira quer para a África?

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por Vanessa Africani

Em plena corrida eleitoral de 2026, uma pergunta chama atenção: que política externa os candidatos à Presidência da República pretendem construir para a África? O levantamento realizado pelo Instituto Brasil África (IBRAF), que analisou os programas de governo dos 13 presidenciáveis, revela um cenário significativo: embora sete candidaturas façam alguma referência ao continente, as propostas aparecem de forma desigual e, em geral, sem o detalhamento necessário para configurar uma estratégia consistente de longo prazo. Em alguns programas, a África surge como parceira diplomática ou estratégica; em outros, predominantemente como mercado; e, em seis candidaturas, sequer há menção específica ao continente. O próprio estudo aponta que permanece ausente, de maneira suficientemente clara, uma estratégia capaz de traduzir a importância atribuída à África em objetivos, ações, prioridades e políticas concretas. (IBRAF)

A política externa brasileira é tradicionalmente compreendida como uma prerrogativa do Estado, conduzida pelo Poder Executivo e fortemente influenciada pelas prioridades políticas e estratégicas de cada governo. Essa característica ajuda a explicar as oscilações históricas da relação do Brasil com o continente africano: períodos de aproximação mais intensa foram sucedidos por momentos de retração, acompanhando mudanças de governo, conjunturas econômicas e transformações na ordem internacional.

A trajetória brasileira demonstra, contudo, que a relação com o continente africano não pode depender exclusivamente do impulso de um governo de turno. Quando houve maior convergência entre diplomacia, interesses econômicos, cooperação técnica, universidades, empresas e instituições públicas, a presença brasileira ganhou densidade. Quando essa articulação perdeu continuidade, também se reduziram a capacidade de ação e a previsibilidade da relação.

Mas há uma questão anterior a qualquer discussão sobre prioridades: de qual África estamos falando?

O uso da palavra “África” no singular frequentemente produz uma imagem de homogeneidade que não corresponde à realidade. São 54 Estados, diferentes regiões, sistemas políticos, estruturas econômicas, culturas, línguas, sociedades e interesses. As dinâmicas do Norte da África não são as mesmas da África Ocidental, assim como os desafios da África Central diferem daqueles encontrados na África Oriental ou Austral.

Por isso, talvez seja mais preciso falar em Áfricas.

O plural não significa fragmentar a política externa brasileira. Ao contrário: significa qualificá-la. Uma política eficaz precisa reconhecer diferentes realidades e, a partir delas, combinar perspectivas continental, regional e bilateral. A União Africana é um interlocutor fundamental, mas não substitui as relações com os Estados. Da mesma forma, parceiros históricos do Brasil não devem ser os únicos interlocutores de uma estratégia contemporânea.

Essa diversidade também significa reconhecer que os interesses brasileiros no continente são múltiplos. Comércio e investimentos convivem com ciência, tecnologia, educação, cultura, turismo, segurança alimentar, transição ecológica, economia criativa, mobilidade humana e inovação. A relação com as Áfricas não pode ser reduzida nem à chamada “solidariedade histórica”, nem à busca por mercados. Há espaço para interesses concretos, reciprocidade e construção conjunta de capacidades.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre política externa precisa incorporar uma dimensão ainda pouco explorada: a sociedade brasileira.

Durante muito tempo, a política externa foi tratada como assunto predominantemente diplomático, distante do debate cotidiano. Essa realidade, entretanto, mudou. Empresas internacionalizam suas atividades; universidades e centros de pesquisa constroem redes internacionais; governos estaduais e municipais desenvolvem relações externas; artistas e produtores culturais circulam globalmente; organizações da sociedade civil estabelecem parcerias transnacionais; e novas tecnologias permitem que indivíduos e instituições participem diretamente da produção e circulação de conhecimento sobre o mundo.

A inserção internacional do Brasil tornou-se, portanto, muito mais ampla do que a atuação formal do Estado.

Isso não significa retirar do governo federal sua responsabilidade constitucional pela condução da política externa. Significa reconhecer que uma política externa contemporânea, para ser eficaz e sustentável, precisa dialogar com aqueles que serão diretamente afetados por suas escolhas e também com aqueles que já constroem, na prática, relações internacionais brasileiras.

No caso das Áfricas, essa participação é particularmente importante.

É necessário perguntar às empresas brasileiras quais mercados e parcerias identificam; às universidades, quais conhecimentos e intercâmbios precisam ser fortalecidos; aos pesquisadores, quais países e temas exigem maior atenção; aos setores culturais, quais possibilidades de coprodução e circulação existem; aos governos locais, quais vínculos podem ser construídos; aos estudantes e jovens, que tipo de mobilidade desejam; e à sociedade civil, quais agendas considera prioritárias.

Também é necessário ouvir os próprios parceiros africanos.

Uma política externa construída sem escuta corre o risco de produzir agendas bem formuladas institucionalmente, mas pouco conectadas às necessidades concretas das sociedades que pretende aproximar. Política externa que não ouve a sociedade pode até ser formalmente legítima, mas corre o risco de ser menos eficiente, menos representativa e menos sustentável.

O desafio brasileiro, portanto, não é simplesmente decidir se a África deve ser prioridade. Essa questão, em grande medida, já foi respondida pela própria história das relações entre Brasil e continente africano. O desafio contemporâneo é definir que tipo de presença o Brasil deseja construir nas diferentes Áfricas, com quais objetivos, instrumentos e compromissos de longo prazo.

Para isso, seria necessário criar mecanismos permanentes de consulta e participação social na formulação da agenda brasileira para o continente. Fóruns regulares envolvendo governo, setor privado, universidades, centros de pesquisa, organizações culturais e sociedade civil poderiam identificar prioridades e avaliar resultados. Redes de universidades e instituições de pesquisa poderiam produzir conhecimento mais sistemático sobre os diferentes países africanos. Programas de intercâmbio, mobilidade, cultura, turismo e empreendedorismo poderiam aproximar diretamente as sociedades. E mecanismos de acompanhamento poderiam permitir que a política fosse avaliada não apenas pelo número de visitas oficiais ou acordos assinados, mas pelos resultados concretos produzidos.

Também seria importante superar a percepção de que a relação com as Áfricas pertence exclusivamente às chancelarias. A diplomacia de Estado continua essencial, mas precisa ser complementada por uma diplomacia de sociedade para sociedade.

No século XXI, essa mudança é particularmente necessária. O Brasil não pode pretender construir uma política para as Áfricas sem conhecer melhor suas múltiplas realidades, assim como não pode falar em nome dos interesses brasileiros sem perguntar à própria sociedade quais interesses deseja projetar internacionalmente.

A pergunta, portanto, talvez precise ser reformulada. Não se trata apenas de saber qual política externa o governo brasileiro quer para a África, mas de compreender que relação a sociedade brasileira deseja construir com as Áfricas.

Responder a essa pergunta exige escuta, conhecimento e participação. Exige reconhecer que a África não é uma unidade homogênea, mas um conjunto diverso de sociedades com as quais o Brasil compartilha história, interesses e possibilidades de futuro. E exige, sobretudo, compreender que uma política externa democrática não é aquela que abandona a direção do Estado, mas aquela que consegue transformar a autonomia do Estado em capacidade de escutar, articular e representar uma sociedade que já está, por diferentes caminhos, construindo sua própria presença no mundo.

Talvez seja esse o próximo passo da política brasileira para as Áfricas: deixar de ser apenas uma política feita para a África e tornar-se uma política construída, também, com as sociedades brasileira e africanas.

Vanessa Africani, especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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