29 de setembro de 2026

Jaques Wagner, bode expiatório da “Emenda Master”: o favorecimento ao Banco Master pelo entorno de Bolsonaro

GGN analisa investigação no STF, que aponta que entorno do governo Bolsonaro, não Jaques Wagner, favoreceu Banco Master com medidas parlamentares.
Jair Bolsonaro e Ciro Nogueira - Foto: Isac Nóbrega/PR

Investigação no STF aponta que entorno do governo Bolsonaro, não Jaques Wagner, favoreceu Banco Master com emenda parlamentar.
Jaques Wagner atuou contra interesses do Banco Master; emenda que beneficiaria banco foi de Ciro Nogueira, ex-Casa Civil de Bolsonaro.
Ciro Nogueira é investigado por emenda escrita pelo banco; defesa nega acusações e investigações estão paralisadas no STF.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Não foi Jaques Wagner (PT-BA), mas o entorno do governo de Jair Bolsonaro que atuou a favor de Emenda Parlamentar que favoreceu o Banco Master. Essa é a conclusão obtida após análise das atuações parlamentares e a linha do tempo que envolveram o caso.

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Paralisada há mais de um mês, sem indícios ou conclusões da Polícia Federal após acessar os bens e a casa do então líder do governo no Senado Jaques Wagner (PT-BA), em junho deste ano, a investigação sob relatoria do ministro André Mendonça, no STF, tinha uma tese acusatória: a de que o senador teria atuado a favor do Banco Master em troca de vantagens indevidas recebidas por Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.

A tese partia da premissa de que a proximidade pessoal de Wagner com Lima teria gerado contrapartidas legislativas. Na prática, contudo, os indícios apontados por Mendonça, nos autos da Petição 16.201 no STF, dos quais o GGN acessou, sequer se comprovaram em uma primeira análise.

Isso porque a acusação esbarra na ausência de qualquer ato do parlamentar que tenha efetivamente beneficiado o banco. Ao contrário, Wagner atuou contra interesses do Banco Master no Senado. Ainda, o autor da medida legislativa que beneficiaria o banco é o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro.

Mas seu nome não consta na petição contra Jaques Wagner: o ministro Mendonça preferiu desmembrar a investigação contra o líder do governo Lula, enquanto manteve Ciro como investigado secundário nos autos de Felipe Vorcaro, o primo do banqueiro, concentrando o avanço desta apuração nos demais investigados do caso Master.

Nos autos que André Mendonça destrinchou mirando o ex-líder de Lula no Senado, há a seguinte hipótese investigativa:

Trecho extraído pelo GGN / Reprodução autos STF

Mendonça cita uma série de benefícios e proximidade pessoal com Augusto Lima, incluindo ligações de voz, viagens de avião, ingressos para show e a suspeita de que Jaques Wagner seria o beneficiário de um apartamento em Salvador, ainda que sem a titularidade formal do senador. Os investigadores também levantaram uma transferência de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Lima, a PKL One, à BN Financeira, empresa do enteado de Wagner para investigar se houve recursos ou movimentações ilícitas.

Na tese acusatória, o indicativo de corrupção ou irregularidade só se comprovaria se, para justificar o recebimento dos “benefícios” ou supostamente dos recursos, o parlamentar tivesse atuado a favor do Banco Master no Congresso. Nessa linha é que entra a tentativa de associar Wagner a emendas e projetos de Lei.

Mas nenhuma das movimentações do senador beneficiou o Banco Master. Ao contrário, análise detalhada das matérias legislativas citadas pelos investigadores revela sérias contradições e uma aparente “confusão técnica” por parte da tese acusatória endossada pelo ministro André Mendonça no STF.

As movimentações do governo Lula x do governo Bolsonaro

Em uma delas, a Polícia Federal atribuiu a Jaques Wagner o favorecimento ao mercado de consignados por meio da Emenda nº 30, de forma equivocada. Mas a ampliação da margem consignável é, na verdade, um feito de uma Medida Provisória (nº 1.106/2022) editada pelo então presidente Jair Bolsonaro em março de 2022. À época, o Banco Master sequer era habilitado ou credenciado para operar na modalidade de consignado do Auxílio Brasil/BPC tratada pela norma.

Assim, mesmo que a decisão pudesse se antecipar à mudança na modalidade do banco, ela não foi de autoria do senador do PT, mas do governo Bolsonaro.

Já a Emenda nº 30, de autoria do senador então líder do governo, pretendia o oposto: impor um teto aos juros cobrados, visando proteger os tomadores de empréstimos, o que contrariava os interesses das instituições financeiras como o Banco Master.

Os investigadores também citaram a PEC nº 65/2023. Mas quem apresentou uma emenda à essa PEC que visava favorecer o Banco Master foi outro parlamentar: o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro.

A Emenda nº 11 dessa PEC ficou conhecida justamente como “Emenda Master“, apresentada em agosto de 2024, pelo senador, aliado e ex-ministro de Jair Bolsonaro.

E o que revelaram as investigações originárias, dentro da Petição 15.873 na qual Ciro Nogueira é investigado secundário, é ainda mais grave: o texto da emenda teria sido escrito por integrantes do Banco Master, entregue em um envelope endereçado ao senador em sua residência e, se aprovada, a medida legislativa “sextuplicaria” o negócio do Master e provocaria uma “verdadeira hecatombe” no mercado:

Trecho extraído pelo GGN / Reprodução autos STF

Além de não ser de sua autoria, Jaques Wagner atuou para travar a “Emenda Master” no Senado. O ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, relata publicamente o episódio, afirmando que, após conversas com o senador à época, decidiram travar a emenda com um pedido de vista e orientar a bancada a votar contra o texto.

Mais recentemente, após a emenda não ter sido incorporada ao relatório da PEC 65/2023, o mesmo senador Ciro Nogueira reapresentou o texto na forma de um Projeto de Lei autônomo, buscando ressuscitar a ampliação da garantia do FGC para até R$ 1 milhão.

Como estão as investigações

Ainda em junho deste ano, a defesa de Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, apontou alguns destes equívocos nos autos da Petição 16.201. Nenhuma das decisões seguintes do ministro André Mendonça fez referência a estes erros de investigação ou de tese acusatória da Polícia Federal.

Após as buscas e apreensões pelos policiais, tampouco houve avanços nessa linha acusatória, e apesar de Jaques Wagner ainda figurar como investigado principal da petição no sistema, as decisões seguintes do ministro junto aos investigados não envolveram mais o senador. Antes de o caso ser paralisado pela crise do STF, no dia 12 de setembro, o processo já seguia sem avanços significativos um mês antes, apenas com pontuais petições de defesa.

O ex-ministro de Bolsonaro e senador Ciro Nogueira (PP-PI) nega o conteúdo das investigações e classificou como um “roteiro absurdo de ficção” e uma perseguição eleitoral as informações da Polícia Federal sobre o seu suposto envolvimento com o Banco Master. A investigação dele também foi paralisada pela crise no STF.

De doações a flexibilização no governo Bolsonaro

Para além da atuação direta legislativa recente pelo ex-ministro de Jair Bolsonaro, os registros oficiais mostram um histórico de aproximação financeira e iniciativas no entorno da gestão de Bolsonaro que favoreceram o Banco Master e sua atuação ilícita nos anos seguintes. Confira, abaixo, a cronologia:

Informações e arte: GGN / Ilustrações: Ferramentas IA

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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