29 de setembro de 2026

Bolsonaros Nunca Mais!, por Fernando Nogueira da Costa

Avaliar o governo Jair Bolsonaro é um bom primeiro passo para entender o motivo de não mais Bolsonaros na condução do país.
Reprodução X

Governo Bolsonaro (2019-22) não conseguiu gerar crescimento sustentável e enfrentou crise política e social agravada pela Covid-19.
Mercado de trabalho teve forte impacto na pandemia, com recuperação parcial em 2022 via aumento do Auxílio Brasil e medidas populistas.
Condução da pandemia foi criticada; Brasil teve quase 700 mil mortes, com denúncias de negacionismo e falhas na gestão federal.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Bolsonaros Nunca Mais!

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Fernando Nogueira da Costa

Para avaliar o governo Jair Bolsonaro (2019–2022), de maneira historicamente equilibrada, convém separar problemas herdados, choques externos — sobretudo a Covid-19 — e problemas decorrentes das escolhas do próprio governo. Essa distinção evita atribuir a Bolsonaro tudo o que aconteceu de ruim, no período, mas também evita usar a pandemia como desculpa para seu péssimo governo.

O principal fracasso não foi simplesmente a recessão e a inflação elevada. Foi a impossibilidade de transformar sua agenda neoliberal  em crescimento sustentado, combinada com o enfraquecimento das políticas sociais e uma crise político-institucional permanente.

Na economia, a promessa neoliberal de Guedes entregou pouco crescimento estrutural. O então presidente centralizou todo o poder nele, transformando-o em Ministro da Economia, e lhe deu “carta-branca” até a adoção do populismo de direita, no ano eleitoral, significar um “passa-fora, moleque”.

Bolsonaro assumiu uma economia já debilitada pela recessão de 2015-16 e pela recuperação muito lenta de 2017-18. Portanto, a estagnação não começou em 2019: crescimento de apenas 1,2% no primeiro ano da gestão.

O governo, praticamente comandado por Paulo Guedes, apostava na em uma sequência ideológica ilusória: ajuste fiscal → reformas → privatização / desestatização → confiança empresarial → investimento privado → crescimento.

A reforma da Previdência de 2019 foi uma mudança estrutural para cortar direitos trabalhistas. Houve também marcos regulatórios impostos pelo Congresso Nacional, como a autonomia formal do Banco Central, ou aprovados por ele, como concessões e privatizações, inclusive da Eletrobras e da lucrativa BR Distribuidora.

Mas o elo decisivo da cadeia — aceleração do investimento produtivo, multiplicação da renda e decorrente aumento da produtividade — não apareceu para produzir um novo regime de crescimento. Pelo contrário, houve depressão.

A Covid torna injusta uma simples comparação de PIB com queda de 3,9%. O choque de 2020 foi mundial. A questão relevante é outra: antes da pandemia, em 2019, o Brasil já crescia pouco, e a recuperação posterior (alta de alta de 4,6% em 2021 por causa da baixa no PIB comparativo de 2020) não inaugurou trajetória claramente superior àquela observada antes da crise.

O governo negacionista foi omisso a respeito no período. O não intervencionismo era visto como fosse uma virtude. Portanto, o experimento falseou a hipótese neoliberal de crowding-in: reduzir Estado e aumentar confiança empresarial não garante automaticamente investimento privado produtivo.

O mercado de trabalho sofreu muito, embora terminasse 2022, graças ao populismo eleitoreiro, em recuperação, isto é, “menos ruim”.

É necessário distinguir as fases. A pandemia produziu enorme destruição de ocupações em 2020. Informalidade, trabalhadores de serviços presenciais e população de baixa renda foram especialmente atingidos. A perda de postos de trabalho incidiu desigualmente sobre os grupos sociais.

Entretanto, não se pode caracterizar todo o governo Bolsonaro por desemprego crescente. Em 2022 houve recuperação expressiva do mercado de trabalho pela razão apontada: “intervenção populista” na economia. Foi positiva o aumento da Bolsa Família (cinicamente rebatizada de “Auxílio Brasil”) e provou o erro da estratégia neoliberal anterior de omissão diante da estagflação.

Assim, a trajetória foi aproximadamente: desemprego herdado elevado → choque extraordinário em 2020 → efeito-base e recuperação 2021-22. O problema estrutural permaneceu sendo a baixa qualidade de boa parte das ocupações, com informalidade elevada e rendimentos pressionados pela inflação.

A inflação de alimentos e energia corroeu o poder de compra. Depois da deflação internacional inicial da pandemia, ocorreu forte inflação mundial, em 2021-22, associada à reabertura das economias, gargalos nas cadeias produtivas, commodities em alta e, posteriormente, à guerra da Ucrânia.

O Brasil acrescentou fatores domésticos, inclusive crise hídrica e desvalorização cambial. Isso afetou particularmente os pobres, porque alimentos, energia, gás e transportes possuem peso maior em seus orçamentos.

Portanto, mesmo quando a renda nominal aumentava: renda nominal ↑ – custo de alimentação/energia ↑↑ = poder aquisitivo pressionado.

Novamente, não seria adequado atribuir toda essa inflação a Bolsonaro: tratou-se em boa medida de fenômeno internacional. A crítica é por o desmanche de políticas públicas não propiciou elas amortecerem os perversos efeitos distributivos.

O paradoxo do Auxílio Emergencial é uma das maiores ironias econômicas daquele governo de aliança entre neofascismo e o neoliberalismo. Uma administração eleita com discurso de redução do Estado acabou executando, durante a pandemia, uma das maiores transferências monetárias da história brasileira.

Por iniciativa e decisão do Congresso Nacional, a imposição do Auxílio Emergencial foi eficaz em 2020. As transferências sociais buscaram neutralizar, naquele ano, o choque da pandemia sobre a pobreza.

Mas há uma qualificação política importante: o valor inicial defendido pelo Executivo era inferior aos R$ 600, finalmente, aprovados pelo Congresso.

Quando o auxílio foi reduzido, em 2021, antes de o mercado de trabalho ter se recuperado integralmente, o resultado distributivo foi forte. Segundo o Ipea, a pobreza em 2021 atingiu, para diferentes linhas consideradas no estudo, o maior nível da série da PNAD Contínua iniciada em 2012.

Tivemos então uma experiência didática. Em 2020, com transferência pública maciça, a pobreza caiu apesar da recessão. Em 2021, a transferência diminuiu e a pobreza aumentou, apesar da recuperação econômica. É uma demonstração de como PIB e bem-estar social não são equivalentes – e a necessidade de política pública compensatória.

Houve descontinuidade na política social O Bolsa Família havia desenvolvido, ao longo de muitos anos, uma institucionalidade relativamente consolidada.

O governo Bolsonaro, com o desejo de destruir todas as conquistas sociais da Era Petista, extinguiu-o (assim como o Minha Casa Minha Vida foi substituído pelo Casa Verde e Amarela) para criar nova “marca” (Auxílio Brasil), em 2021, posteriormente elevado a R$ 600 em 2022. O problema não estava necessariamente no aumento do benefício — evidentemente favorável aos beneficiários —, mas na instabilidade institucional, financiamento e forte expansão às vésperas da eleição.

Isso representou uma contradição da agenda neoliberal de Paulo Guedes. Em 2019, dada sua incompetência em fazer qualquer ação produtiva, houve austeridade fiscal e Estado menor. Em 2020, por iniciativa do Congresso Nacional, houve extraordinária expansão fiscal emergencial. Em 2021, Guedes fez uma tentativa-e-erro de retorno à contenção estatal. Em 2022, recebeu um “cala-a-boca” – e houve a expansão das transferências e benefícios por razão eleitoreira. O governo de incompetentes, para seus importantes cargos, terminou bastante diferente do programa econômico com o qual começou.

O maior problema social específico foi a condução da pandemia. Esse é provavelmente o ponto no qual é mais difícil separar economia, sociedade e política.

O Brasil acumulou cerca de 699,3 mil óbitos confirmados pelas Secretarias Estaduais de Saúde e Ministério da Saúde por Covid-19 até o fim de 2022. É impossível determinar quantas seriam evitáveis por uma simples comparação internacional, porque idade da população, urbanização, comorbidades, desigualdade, capacidade hospitalar e metodologia estatística diferem entre países.

Mas houve problemas documentados na condução federal: conflitos com ministros da Saúde, defesa de tratamentos sem eficácia comprovada, resistência a medidas de distanciamento e controvérsias sobre a aquisição e promoção das vacinas. O “negacionismo científico” do despreparado para o cargo maior da República demonstrou não só sua ignorância, como sua falta de empatia com os parentes das vítimas fatais. O povo brasileiro não deve se esquecer disso.

A CPI da Pandemia do Senado foi extraordinariamente crítica e recomendou diversos indiciamentos, inclusive do presidente. Isso constitui conclusão de uma comissão parlamentar, não condenação judicial, distinção indispensável. Caso tivesse recebido logo um impeachment, evitaria o vergonhoso quebra-quebra, no dia 8 de janeiro de 2023, para executar sua tentativa de golpe militar.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados