16 de setembro de 2026

Comparações entre Ideologias nos Estados Unidos e no Brasil, por Fernando N. da Costa

Enquanto a política dos EUA se organiza sob rígido bipartidarismo, a política brasileira se destaca por ser das mais fragmentadas do mundo.
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EUA têm bipartidarismo rígido; Brasil tem sistema partidário fragmentado com cerca de 30 partidos ativos.
Esquerda brasileira é consistente e fiel em votações e doações; direita brasileira é mais dispersa e contraditória.
Governabilidade no Brasil depende do Centrão; EUA operam com blocos ideológicos rígidos e polarizados.

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Comparações entre Ideologias nos Estados Unidos e no Brasil

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por Fernando Nogueira da Costa

Comparar o cenário político dos Estados Unidos com o do Brasil exige compreender o seguinte: embora ambos os países passem por fortes processos de polarização, as regras do jogo e a estrutura partidária de cada um moldam comportamentos ideológicos muito distintos.

Enquanto a política norte-americana se organiza sob um rígido bipartidarismo, a política brasileira se destaca por ser uma das mais fragmentadas do mundo. Para decifrar essa complexidade, a análise do GPS Partidário da Folha de S.Paulo, atualizado com dados de 2026 (publicado em 07/09/26), possibilita um paralelo sobre como as esquerdas e as direitas de ambos os países se posicionam e se comportam na prática.

Como dito, a primeira diferença diz respeito à estrutura de sistemas dos partidos: bipartidarismo vs. extrema fragmentação.

Nos Estados Unidos, o sistema eleitoral de voto distrital e bipartidarismo monopoliza os votos entre Democratas e Republicanos. Isso impede o surgimento de terceiros partidos fortes. Historicamente, por exemplo, o Partido Socialista falhou em se estabelecer de forma independente.

Consequentemente, as diferentes correntes — dos democratas moderados aos socialistas radicais (como o DAS – Democratic Socialists of America) — precisam disputar espaço nas primárias e “pegar carona no partido-ônibus” do Partido Democrata, usando-o como uma porta de entrada secundária para alcançar algum poder local. É o caso do atual prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, declaradamente um socialista democrático, filiado ao Partido Democrata.

No Brasil, com cerca de 30 partidos em atividade, o posicionamento oficial de uma legenda muitas vezes não reflete as decisões práticas de seus representantes. O GPS Partidário mapea a posição real das siglas a partir de cinco indicadores comportamentais: votações na Câmara, frentes parlamentares, migrações de partido, coligações eleitorais e doações de campanha.

O primeiro indicador contabiliza como cada parlamentar se posicionou no painel da Câmara dos Deputados. A métrica inclui as votações de janeiro de 2023 a julho de 2026 e contempla 565 deputados presentes, incluindo suplentes.

Essa métrica indica, na maior parte das votações, o bloco da esquerda e o centrão votaram com o governo Lula, somando 423 deputados contra 142 da oposição. Nas 1.097 votações observadas, 9 em cada 10 votos (91,5%) saíram como o líder do partido orientou. De modo geral, quanto mais o parlamentar vota com o governo, mais alinhado à esquerda; do contrário, mais alinhado à direita. Nesta primeira métrica, o PT é o partido mais à esquerda.

Quanto à composição da esquerda, nos Estados Unidos, o “liberalismo de esquerda” (left-liberalism) baseia-se na busca pela social-democracia e pela “não dominação”, exigindo do Estado uma rede de proteção contra monopólios e insegurança econômica. No entanto, a esquerda norte-americana divide-se atualmente entre o establishment moderado, os identitários focados em costumes (Woke 1) e os socialistas do DSA (Woke 2), estes impulsionados por um eleitorado jovem e diplomado com propostas pautas inconsequentes, como o fim das prisões e dos aluguéis.

No Brasil, com o pluralismo de siglas, a esquerda é fragmentada em múltiplos partidos formais. Porém, no atual governo de Frente Ampla Democrática, apresentou forte consistência ideológica nas votações e doações. De acordo com o GPS Partidário, PT e PSOL figuram de forma consistente na ponta esquerda do mapa político em todos os cinco indicadores comportamentais.

O PT é estatisticamente o partido mais à esquerda no painel de votações da Câmara. A esquerda brasileira possui altíssima fidelidade ideológica de financiamento: nas doações de campanha, os pares de partidos de esquerda dividem quase o triplo de doadores em comum do que o previsto pelo mero acaso estatístico.

Partidos mais radicais, como o PSTU (junto ao UP), ocupam a extrema esquerda e vivem em relativo isolamento político. Quase nunca dividem chapas com partidos fora de seu campo ideológico direto, sendo as exceções com Rede ou PSOL.

A direita se diferencia entre o conservadorismo de livre mercado norte-americano e a dinâmica brasileira.

Nos Estados Unidos, a direita divide-se entre a ala tradicional do livre mercado (liberalismo clássico focado em desregulamentação) e o populismo nacionalista de direita (Trumpismo). Este foca na reação cultural contra as pautas identitárias e na oposição direta à burocracia estatal.

No Brasil, o espectro da direita também apresenta subdivisões bem demarcadas. O Novo consolida-se como o partido mais à direita do espectro político brasileiro. Ele faz a defesa pura do livre mercado no liberalismo clássico. O PL é a grande força de oposição e conservadora, abrigando parlamentares de oposição neofascista, como a deputada Julia Zanatta (PL-SC), apontada estatisticamente como a parlamentar mais à direita da Câmara.

Diferente da esquerda, a direita brasileira apresenta menor fidelidade ideológica financeira. O compartilhamento de doadores entre partidos de direita é apenas um quinto (20%) superior ao esperado pelo acaso, demonstrando uma articulação mais dispersa.

Há também contradições práticas individuais: deputados de partidos de direita (como PL, PP e Republicanos) costumam assinar, ao mesmo tempo, frentes parlamentares ideologicamente opostas, como a do Livre Mercado e a da Reestatização da Eletrobras. São ignorantes “sabidos” ou oportunistas.

A grande diferença prática entre os dois países reside em como a governabilidade é construída.

Diante do enfraquecimento de valores individualistas e do avanço de identitarismos rivais, a política americana funciona cada vez mais como blocos rígidos (“batalhões uniformizados”). Travam guerras culturais e legislativas sem espaço para negociação centralizada.

No Brasil, exceto nos impeachments de Collor e o de Dilma, adota-se por prudência, para evitar o impedimento presidencial com pautas-bombas, o Presidencialismo de Coalizão. Para governar, o Executivo federal precisa atrair o chamado “Centrão”.

No painel da Câmara, o bloco de esquerda e o centrão frequentemente votam juntos com o governo petista, somando maiorias folgadas. Siglas de centro, como o MDB e o PSD, mantêm-se equilibradas no meio da régua do GPS Partidário em todos os critérios.

Curiosamente, no Brasil, em raras situações as pontas ideológicas se unem contra o centro. O GPS mapeou, em mais de mil votações analisadas, as duas pontas (PT/PSOL de um lado e PL/Novo do outro) votaram juntas contra os partidos de centro em apenas três ocasiões. O exemplo mais marcante ocorreu, em junho de 2025, quando a esquerda e a direita ideológica votaram unidas para tentar impedir um projeto de lei de aumento o número de cadeiras na Câmara dos Deputados, em benefício dos partidos do Centrão. Perderam, mas o presidente Lula vetou.

Em termos de frentes parlamentares, a divisão brasileira se assemelha à polarização norte-americana: temas de renda, minorias e meio ambiente concentram a esquerda, enquanto livre-mercado, armas, agronegócio e defesa dos costumes tradicionais agrupam a direita.

As principais propostas da esquerda americana não são distintas da brasileira.

  • Saúde pública universal: defesa de um sistema de saúde gratuito ou acessível para todos os cidadãos.
  • Green New Deal: grandes investimentos estatais em energias limpas para combater as mudanças climáticas.
  • Direitos trabalhistas: fortalecimento de sindicatos e aumento real do salário mínimo.
  • Justiça social: expansão de serviços sociais

Distinguem-se pela proposta de redução do financiamento policial tradicional. Aqui, a segurança pública está entre as prioridades da esquerda.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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