31 de agosto de 2026

Nova Indústria Brasil, por Fernando Nogueira da Costa

NIB responde aos desafios da concorrência internacional e da ascensão chinesa por meio de uma mudança de paradigma nas políticas públicas
Foto Agência Brasil

O plano Nova Indústria Brasil busca reverter a desindustrialização com políticas públicas ativas e cinco frentes estratégicas.
Investimentos chineses em eletromobilidade enfrentam desafios como baixo enraizamento local e dependência de importações.
Brasil aposta em minerais críticos para reindustrialização, mas precisa de políticas para evitar “reprimarização verde” e impactos socioambientais.

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Nova Indústria Brasil

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por Fernando Nogueira da Costa

A ascensão da China impactou o processo de desindustrialização brasileira, já iniciado desde o fim da Era Desenvolvimentista (1950-1980), e o advento da Era Neoliberal, por meio de diferentes canais macroeconômicos, comerciais e produtivos. Ganhou propulsão com o boom de commodities e apreciação cambial persistente.

O plano Nova Indústria Brasil (NIB), implementado no Governo Lula III, responde aos desafios da concorrência internacional e da ascensão chinesa por meio de uma mudança de paradigma nas políticas públicas brasileiras, abandonando a lógica puramente neoliberal anterior para recompor a capacidade estatal de planejamento e coordenação. A sua estratégia de resposta estrutura-se em cinco frentes principais de ação.

A primeira é a abordagem por missões e fortalecimento institucional. Em vez de adotar medidas estritamente horizontais, voltadas apenas ao ambiente de negócios, a NIB adota uma estratégia orientada por seis missões prioritárias de desenvolvimento, entre as quais, agroindústria sustentável em transição ecológica, bioeconomia e segurança alimentar, saúde, infraestrutura, transformação digital e defesa / soberania nacional. Essa retomada de políticas ativas é sustentada de maneira coordenada pela recriação do MDIC e pelo fortalecimento do BNDES e da FINEP.

Para mitigar o risco de os investimentos chineses (especialmente no setor automotivo e de eletromobilidade) atuarem apenas como montadoras de baixo enraizamento, dependentes de componentes importados, a NIB enfatiza requisitos de conteúdo local e metas de gastos em P&D. O principal instrumento nesse sentido é o programa Mover no setor automotivo, desenhado exatamente para incentivar o desenvolvimento e a incorporação de elos tecnológicos locais.

Frente à perda de mercado interno para produtos importados baratos, a NIB busca utilizar o poder de compra governamental para garantir demanda previsível para a indústria doméstica. A mobilização das compras públicas ganha destaque em áreas como o Complexo Econômico-Industrial da Saúde para fortalecer o SUS e reduzir a severa dependência externa de insumos ativos e biotecnológicos.

Para evitar o cenário de “reprimarização verde” — no qual o Brasil importaria todos os equipamentos de transição energética (mercado no qual a China detém liderança incontestável de custos e escala) e exportaria apenas matérias-primas brutas —, a NIB atua em estreita articulação com o Plano de Transformação Ecológica (PTE). O objetivo é casar as metas de descarbonização com o desenvolvimento de cadeias industriais domésticas mais complexas, como as de bioenergia e química verde.

Para contornar as elevadas taxas de juros reais e o escasso crédito de longo prazo, historicamente penalizadores do setor produtivo nacional, a NIB prioriza a mobilização de ferramentas financeiras. Destacam-se o crédito direcionado via BNDES e o financiamento via Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), uma das principais formas de apoio à ciência, tecnologia e inovação no Brasil, oferecendo recursos com condições e taxas de juros mais atrativas se comparadas às dos bancos tradicionais

Apesar dessas diretrizes estruturadas, o alcance prático dessas respostas enfrenta a fragilização histórica, acumulada na estrutura industrial desnacionalizada. Há menor capacidade de indução estatal, em comparação com os períodos de maior dinamismo industrial do passado, porque a ideologia do Estado mínimo  e do perene ajuste fiscal impera em mentes incultas do empresariado e dos influenciadores de direita na mídia, com o propósito de formar a opinião pública.

Um estudo de caso ilustrativo refere-se aos novos investimentos para a fabricação de veículos elétricos, impulsionados, em grande parte, pelo redirecionamento de capital de empresas chinesas. A consolidação desse setor enfrenta limites estruturais, tecnológicos e geopolíticos difíceis de serem superados.

O primeiro é o baixo enraizamento local e a dependência de importações. Os novos empreendimentos no país têm se iniciado com um volume elevado de importação de componentes e autopeças. Sem a aplicação de exigências rígidas de conteúdo local e metas de transferência de tecnologia, há o risco de o país consolidar uma indústria de baixo enraizamento, limitada a atividades de montagem final com pouca agregação de valor doméstico.

O segundo é a ausência de capacitação doméstica em elos críticos. O Brasil apresenta limitações profundas justamente nos elos de maior conteúdo tecnológico da cadeia de eletromobilidade, como a produção de células de bateria, semicondutores e a eletrônica de potência. O desenvolvimento dessas competências exige capital paciente e horizontes de planejamento de longo prazo. Porém, o sistema de financiamento brasileiro ainda tem dificuldades de prover.

Há barreiras globais de escala e custo. Os segmentos vitais dessa cadeia (como o processamento de terras raras, a produção de ímãs permanentes e a fabricação de baterias) estão sob forte controle e liderança da China. A sobrecapacidade e a intensa disputa competitiva dentro do próprio mercado chinês reduzem bastante as margens de lucro e jogam os preços internacionais desses componentes para baixo, criando barreiras de escala e de custos quase intransponíveis para entrantes industriais tardios como o Brasil.

O risco da “reprimarização verde” é outro problema. Por deter grandes reservas de minerais críticos como lítio, grafite, níquel e manganês, o país enfrenta a forte tentação econômica de se posicionar de forma passiva no cenário global. Sem políticas ativas de refino e processamento local, o Brasil corre o risco de atuar apenas como exportador de minério bruto (a etapa de menor valor e menor geração de emprego qualificado), enquanto importa as baterias e os veículos elétricos acabados.

O quinto obstáculo refere-se aos altos impactos socioambientais da extração. A viabilização dessa cadeia exige mineração e processamento de minerais críticos. São atividades de alto impacto ambiental, com forte demanda hídrica e geração de rejeitos perigosos.

Há também o desafio social de evitar esses projetos operarem como “enclaves extrativos”, capazes de deslocarem populações tradicionais ou indígenas sem os ganhos econômicos e os benefícios do desenvolvimento serem efetivamente distribuídos localmente.

Os minerais críticos (como lítio, terras raras, grafite, níquel, manganês e nióbio) são apontados como o terceiro vetor estratégico para recuperar o dinamismo e adensar a estrutura industrial brasileira. O país pode alavancar a reindustrialização a partir desses recursos por meio de várias frentes integradas.

O Brasil possui uma dotação mineral abundante, propiciando a base física necessária para o país tentar ir além da atividade extrativa básica. O objetivo estratégico de subida na cadeia de valor (adensamento produtivo)  é internalizar etapas mais sofisticadas e de maior valor agregado, como 1. o processamento e refino químico, 2. a produção de ímãs permanentes, 3. a fabricação de células de bateria e 4. o desenvolvimento de semicondutores e eletrônica de potência.

Cabe o aproveitamento do mercado interno como “mercado âncora”. A própria transição energética do país — envolvendo 1. a expansão das redes de transmissão, 2. a geração solar/eólica e 3. os sistemas de armazenamento — gera uma demanda imensa por produtos intensivos nesses minerais (como transformadores, geradores de ímãs, inversores e cabos de cobre). O Estado pode atuar moldando essa demanda por meio de 1. leilões de geração e transmissão, 2. crédito público e 3. exigências de conteúdo local, garantindo um mercado consumidor previsível para a indústria doméstica.

O recente redirecionamento de investimentos estrangeiros (com destaque para montadoras chinesas) para o território nacional abre uma janela de oportunidade. Se o país mantiver regras de conteúdo local e metas de transferência de tecnologia, esses novos empreendimentos podem servir de canal para implantar capacidades tecnológicas em elos hoje ausentes no Brasil com o enraizamento de investimentos estrangeiros.

A transição energética não precisa opor tecnologias concorrentes. Existe uma forte sinergia na qual o biogás e o biometano conferem firmeza e resiliência para a matriz elétrica (dependente de fontes intermitentes como solar e eólica), enquanto a expansão dessa matriz limpa estimula e demanda os equipamentos eletrônicos e de potência associados à cadeia de minerais críticos. O efeito de arrasto dessa complementaridade beneficia toda a estrutura produtiva. Há sinergias com o vetor de bioenergia.

Desenvolver essa cadeia manufatura avançada viabiliza 1. a geração de empregos industriais altamente qualificados e 2. a formação de capital humano em áreas tecnológicas inéditas no país. Além disso, abre espaço para estruturar a reciclagem de baterias e ímãs, reduzindo a necessidade de extração primária contínua e gerando valor por meio da economia circular. Esta é um modelo de produção e consumo baseado na reutilização, reparação, renovação e reciclagem de materiais para manter o seu valor pelo maior tempo possível.

Apesar do grande potencial, a reindustrialização por essa via não ocorre de forma espontânea. O Brasil enfrenta a forte concorrência do monopólio e da escala chinesa em quase todas as etapas dessa cadeia, especialmente em terras raras, ímãs e baterias.

Sem políticas públicas ativas e persistentes de longo prazo, o país corre o risco de sofrer uma “reprimarização verde”, limitando-se a 1. exportar os minerais em estado bruto e 2. importar os componentes tecnológicos e equipamentos acabados.

Adicionalmente, a viabilidade socioambiental desse vetor exige licenciamentos rigorosos para mitigar os altos impactos hídricos e de rejeitos da mineração, além de mecanismos capazes de 1. impedirem a criação de “enclaves extrativos” e 2. garantirem a justa distribuição de benefícios, inclusive devido à exigência do consentimento prévio de comunidades tradicionais e indígenas com política compensatória.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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