25 de agosto de 2026

Riqueza Financeira versus Riqueza Imobiliária, por Fernando Nogueira da Costa

A expansão do crédito habitacional representou uma transformação institucional importante. Começou a separar moradia de acumulação.
Reprodução

Na urbanização inicial, famílias pré-baby-boom investiam em imóveis devido à falta de sistema financeiro acessível.
Com o financiamento habitacional e ensino superior, o foco mudou para riqueza financeira e previdência complementar.
Hoje, patrimônio é diversificado: casa própria, carteira financeira e previdência, refletindo gestão patrimonial sofisticada.

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Riqueza Financeira versus Riqueza Imobiliária

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por Fernando Nogueira da Costa

Na fase de urbanização da sociedade, ainda sem um sistema financeiro muito desenvolvido e acessível a toda a população adulta, dada a pressão da demanda por moradias, escritórios e lojas, a geração anterior à do baby-boom (1945-1960), com muitos filhos e pouco ensino universitário, caso conseguisse poupar dinheiro suficiente, investia primeiro em casa própria e depois nos demais imóveis, inclusive lotes urbanos e terras rurais. Com a posterior massificação do financiamento habitacional e do ensino superior aconteceu a mudança para investimentos em riqueza financeira, devido à preferência por liquidez e à necessidade de Previdência Complementar.

Essa é uma hipótese histórico-institucional para interpretar a mudança da forma dominante de acumulação patrimonial das famílias, sobretudo das classes médias urbanas. Não se trata de uma sucessão mecânica — do imóvel ao ativo financeiro — porque as duas formas coexistem. Porém, mudou a hierarquia relativa entre segurança, rentabilidade, liquidez e previdência.

No início do processo de urbanização, riqueza significava sobretudo propriedade. Para a geração anterior ao baby-boom, especialmente entre os anos 1930 e 1960, havia uma combinação bastante favorável à acumulação imobiliária: urbanização acelerada, migração rural-urbana, crescimento demográfico, famílias numerosas e expansão das cidades. A oferta de habitações e infraestrutura urbana demorava a acompanhar a demanda.

Ao mesmo tempo, o sistema financeiro acessível por poucas famílias era relativamente rudimentar. Havia bancos comerciais, mas sem financiamentos em longo prazo. Não existia a atual variedade e acessibilidade de fundos, títulos, previdência privada, plataformas digitais etc. No Brasil, havia ainda inflação elevada e, durante longo período, até a reforma financeira de 1964, ausência de mecanismos adequados de correção monetária para proteção contra a inflação.

Nesse ambiente, a sequência patrimonial típica de uma família ascendente era: renda do trabalho → poupança → casa própria → segundo imóvel → terreno/lote → imóvel para aluguel → eventualmente terra rural.

A casa própria tinha uma característica especial: era simultaneamente bem de consumo durável, reserva de valor, seguro habitacional e patrimônio transmissível aos filhos. O segundo imóvel acrescentava uma função financeira: produzir renda de aluguel. Sem um mercado financeiro popularmente acessível, o proprietário criava, de certo modo, sua própria previdência ao acumular imóveis durante a vida ativa para receber aluguéis na velhice.

Em uma dimensão sistêmica, a urbanização produzia ganhos patrimoniais. O enriquecimento imobiliário não dependia somente da poupança individual. Quando a cidade se expandia, chegavam ruas, transporte, água, eletricidade, comércio, escolas e demais serviços. Um terreno anteriormente periférico alcançava enorme valorização quando a cidade o incorporava.

Portanto: urbanização → demanda por solo → infraestrutura → valorização imobiliária → aumento patrimonial → capacidade de adquirir novos imóveis. Parte da valorização privada era, assim, uma capitalização de externalidades, produzidas coletivamente pela urbanização.

Isso ajuda a entender a antiga fascinação das famílias ascendentes pelo lote urbano. Comprava-se barato em uma fronteira periférica da cidade, esperando sua incorporação posterior à malha urbana.

No Brasil, a criação do Sistema Financeiro da Habitação ocorreu em 1964. A consequente expansão do crédito habitacional representou uma transformação institucional importante. Começou a separar moradia de acumulação.

A família deixou de precisar necessariamente poupar previamente quase todo o valor do imóvel. Passou a ser possível antecipar a aquisição: renda futura → financiamento → casa própria presente → amortização durante décadas.

Essa transformação é analisada pela Teoria do Valor Financeiro. O patrimônio passa a ser constituído simultaneamente pelo ativo e pelo passivo: Patrimônio líquido = valor da moradia – saldo do financiamento. Em vez de primeiro acumular dinheiro para depois adquirir patrimônio, a família passa a antecipar patrimônio contra comprometimento de sua renda futura para pagar a dívida.

O ensino superior também alterou a composição patrimonial. A sua massificação modifica não apenas a renda, mas a própria natureza do patrimônio.

Nas famílias antigas, muitos filhos diluíam a divisão sucessória do patrimônio imobiliário. Nas gerações posteriores, famílias menores passaram a concentrar riqueza e investir mais em capital humano por descendente.

Capital humano é o valor econômico do conhecimento, das habilidades, das experiências e das atitudes de um trabalhador. Esse conjunto de atributos é desenvolvido por meio da educação, do treinamento e da prática diária, sendo essencial para a produtividade e o crescimento das empresas e da economia.

O mecanismo visado, para a mobilidade social, passou a ser: menos filhos → mais escolaridade → ocupações urbanas qualificadas → salários maiores → capacidade regular de poupança → investimentos financeiros.

O trabalhador intelectual e o profissional qualificado possuem uma peculiaridade: grande parte de sua riqueza econômica está inicialmente incorporada em sua capacidade pessoal de gerar renda futura – e não mais em terras, máquinas ou estabelecimentos comerciais. É possível de ser antecipada por meio do crédito habitacional.

Durante sua vida profissional, ele transforma, gradualmente, esse fluxo em estoque: capital humano → renda do trabalho → poupança → riqueza financeira → renda patrimonial → aposentadoria.

A preferência pela liquidez, relacionada à riqueza financeira, se torna uma diferença decisiva entre gerações. Um imóvel é indivisível, tem custos de transação, manutenção, impostos, risco de vacância e exige administração. Para o transformar em dinheiro, se não conseguir o alugar, geralmente, é necessário vender o ativo inteiro – e demora muito tempo.

Um crédito hipotecário é um empréstimo para o proprietário, quando ele usa um bem imóvel como garantia de pagamento para o banco. Se não pagar as parcelas, o banco pode tomar o imóvel, para recuperar o dinheiro. No Brasil, essa modalidade tradicional de hipoteca foi substituída pelo empréstimo com garantia de imóvel (alienação fiduciária), mas o conceito é o mesmo.

Uma carteira financeira oferece simultaneamente: liquidez + divisibilidade + diversificação + capitalização composta + facilidade sucessória. Ela se tornou muito mais relevante quando o sistema financeiro passou a oferecer aplicações acessíveis a praticamente qualquer adulto ocupado.

No Brasil, a indexação financeira e, posteriormente, os fundos, CDBs, títulos públicos, Previdência Complementar e plataformas digitais permitiram ao poupador do Varejo (Tradicional e de Alta Renda) possuir algo antes reservado principalmente aos ricos: uma carteira patrimonial diversificada e líquida.

A Previdência Complementar completa a transformação como consequência da transição demográfica. Famílias numerosas, no passado, funcionavam parcialmente como uma forma informal de proteção social: vários filhos podiam contribuir para sustentar pais idosos.

Com queda da fecundidade e aumento extraordinário da longevidade, surge o problema: muitos filhos + vida curta após aposentadoria cede lugar a poucos filhos + longa sobrevivência após aposentadoria. A necessidade de formar patrimônio financeiro, para financiar vinte ou trinta anos de aposentadoria, aumenta muito.

Surge então uma espécie de financeirização do ciclo de vida: educação → carreira profissional → poupança financeira → capitalização → aposentadoria → desacumulação gradual. Fundos de pensão, PGBL/VGBL, fundos de investimento e carteiras próprias passam a desempenhar funções antes parcialmente cumpridas pela propriedade imobiliária e pela família extensa.

Mas o imóvel não desaparece: muda de função. Para muitas famílias da geração anterior, o imóvel era simultaneamente moradia, investimento, reserva de valor, previdência e herança. Para famílias urbanas de alta escolaridade contemporâneas, tornou-se possível especializar essas funções:

moradia → imóvel próprio ou alugado
reserva de emergência → ativo financeiro líquido
acumulação → carteira financeira
renda passiva → juros, dividendos e retiradas
previdência → patrimônio financeiro acumulado
herança → imóveis + ativos financeiros.

Isso representa uma sofisticação institucional da gestão patrimonial. Podemos estilizar historicamente a transformação com a distinção em três gerações:

GeraçãoCapital predominanteEstratégia patrimonial típica
Pré-
baby-boom
Imobiliáriocasa → terrenos → imóveis de aluguel
Baby-boomImobiliário + financeirocasa financiada → imóveis + aplicações
Pós-
baby-boom
Humano + financeiro + imobiliárioeducação → renda elevada → casa + carteira diversificada + previdência

Naturalmente, trata-se de tipos ideais, não de descrição de todas as famílias.

A Teoria do Valor Financeiro interpreta a mudança do mecanismo de capitalização. A riqueza imobiliária da primeira urbanização dependia fortemente da apropriação da valorização territorial, provocada pelo crescimento urbano. A riqueza financeira contemporânea depende crescentemente da capitalização intertemporal dos fluxos de renda por meio de juros, valorização de ativos e reinvestimento.

Pode-se representar essa transformação histórica esquematicamente:

Sociedade rural
terra → produção → renda

Primeira urbanização
renda → poupança → imóvel → aluguel + valorização

Urbanização financeira
renda futura → financiamento → casa própria

Sociedade urbana escolarizada
capital humano → renda elevada → poupança financeira

Financeirização patrimonial
carteira diversificada → juros + dividendos + ganhos de capital

Longevidade
riqueza financeira → Previdência Complementar → renda na aposentadoria

Portanto, não ocorreu, simplesmente, uma substituição dos imóveis pelas finanças, mas uma passagem da propriedade concreta como principal patrimônio  familiar como segurança para a administração de um portfólio como forma de gestão do ciclo de vida. O imóvel para moradia (“casa própria”) permanece como componente patrimonial fundamental, mas deixa de cumprir sozinho todas as funções econômicas da riqueza familiar.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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