17 de agosto de 2026

Trunfos Eleitorais de Lula, por Fernando Nogueira da Costa

Ativos não devem ser colocados em uma hierarquia rígida pois atuam em públicos diferentes e têm graus distintos de comprovação empírica.
Lula - Campanha 2026 - Foto de Ricardo Stuckert

Lula tem quatro trunfos eleitorais: desempenho econômico, redução da desigualdade, reconhecimento internacional e coalizão antifascista.
O crescimento do PIB, inflação controlada e superávit comercial são ativos econômicos, mas impactam o eleitor indiretamente.
A Frente Ampla Antifascista une diversos grupos na defesa da democracia, sendo crucial para a estratégia eleitoral de Lula em 2026.

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Trunfos Eleitorais de Lula

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por Fernando Nogueira da Costa

Quais são os maiores triunfos eleitorais de Lula: bons resultados econômicos como inflação e desemprego baixos, crescimento no ritmo dos grandes países ocidentais e superávit comercial estrutural? Diminuição da desigualdade em renda, registrada pelo Índice de Gini, devido às políticas sociais ativas? Reconhecimento internacional como estadista em defesa da soberania nacional? Frente Ampla Antifascista contra a extrema-direita golpista e entreguista?

Os quatro fatores mencionados podem ser tratados como ativos eleitorais importantes de Lula, mas não se deve os colocar em uma hierarquia rígida. Eles atuam em públicos diferentes e têm graus distintos de comprovação empírica. Além disso, é preciso separar resultados objetivos de governo, percepção dos eleitores e narrativas políticas.

O ativo econômico em emprego e crescimento da renda, sem dúvida, é um trunfo. Este é o fundamento material mais facilmente mensurável. Em 2025, o PIB brasileiro cresceu 2,3%, depois de 3,4% em 2024 e 3,2% em 2023. O PIB per capita avançou 1,9% em 2025, não foi excepcional, mas tampouco caracteriza uma estagnação absoluta.

A vantagem política pode estar menos em apresentar um “milagre econômico” e mais em uma combinação perceptível pelas famílias: mercado de trabalho forte + aumento real dos rendimentos + valorização do salário mínimo + inflação historicamente moderada.

Isso importa porque o eleitor não experimenta diretamente “o PIB”. Experimenta: emprego + salário real + preços + crédito + narrativas. Há, porém, uma contradição: em julho de 2026, o IPCA acumulava 4,44% em 12 meses, mas o Banco Central ainda mantinha uma política monetária fortemente restritiva, com Selic de 14%.

Portanto, a narrativa eleitoral governista pode enfatizar emprego, renda e inflação controlada, enquanto a oposição denuncia o crescimento da dívida pública e o pequeno déficit fiscal. São interpretações concorrentes sobre a mesma economia.

O superávit comercial constitui uma vantagem estrutural, tem câmbio apreciado e sem inflação importada, mas eleitoralmente é indireta. Em 2025, o Brasil registrou US$ 348,7 bilhões de exportações, recorde histórico, e superávit comercial de US$ 68,3 bilhões. Os três anos de 2023 a 2025 produziram os melhores resultados históricos do balanço comercial.

Isso oferece ao governo uma narrativa de: produção competitiva exportações → divisas → menor vulnerabilidade externa.

Mas é um ativo eleitoral de segunda ordem. Poucos eleitores votam porque o balanço comercial registrou megas superávits. Esse ótimo resultado se torna eleitoralmente relevante quando seus efeitos chegam ao câmbio, emprego, investimento, renda e percepção de estabilidade pelo eleitorado.

A redução da desigualdade é uma característica da identidade histórica do lulismo. Esta é uma diferença importante entre Lula candidato e qualquer candidato simplesmente beneficiado por uma conjuntura econômica (des)favorável.

Desde os primeiros governos, o lulismo construiu uma associação política entre crescimento e inclusão pelo consumo, salário-mínimo, formalização, Previdência, Bolsa Família e expansão das oportunidades educacionais. O mecanismo eleitoral é cumulativo: políticas sociais renda disponível → consumo → mobilidade social → memória econômica → identificação eleitoral.

Essa dimensão ajuda a compreender por qual razão Lula conservou capacidade eleitoral mesmo depois de recessões, prisão e profundas mudanças políticas na década passada. Sofreu o lawfare, isto é, o uso estratégico e distorcido das leis, dos processos judiciais e dos órgãos do Estado como arma para perseguir, deslegitimar ou destruir oponentes políticos, econômicos ou ideológicos. A palavra vem da união dos termos em inglês law (lei) e warfare (guerra).

Existe uma memória social dos primeiros governos Lula, particularmente entre segmentos sociais de menor renda. Isso ajuda a explicar a polarização discutida anteriormente: uma mesma transformação distributiva pode produzir reconhecimento entre beneficiados e resistência entre outros grupos.

Além disso, Lula dispõe de algo relativamente incomum entre políticos brasileiros contemporâneos: uma imagem internacional construída durante várias décadas.

Ela pode ser mobilizada em torno de temas como integração sul-americana, BRICS, relações Sul-Sul, multilateralismo, combate à fome, meio ambiente e reivindicação de maior autonomia dos países emergentes.

Ele é um estadista defensor da soberania nacional.  Seus apoiadores enxergam autonomia diplomática, enquanto seus adversários, submissos aos Estados Unidos, interpretam determinadas posições diante do BRICS como alinhamentos ideológicos inadequados.

A conjuntura de 2026 torna a soberania nacional particularmente relevante. O governo brasileiro está enfrentando as tarifas impostas pelos EUA por meio da OMC e da Lei de Reciprocidade. A medida é interpretada por seus defensores como defesa da autonomia brasileira, enquanto a oposição aponta o risco de eventual escalada comercial. Portanto, soberania nacional transformou-se novamente em questão eleitoral concreta – e não apenas retórica.

A Frente Ampla contra a extrema-direita talvez seja o ativo político mais diferente. Distingue resultado econômico de estratégia eleitoral. A vitória de 2022 não foi exclusivamente petista. Lula construiu uma coalizão bastante mais ampla, simbolizada inclusive pela escolha de Geraldo Alckmin para vice-presidente.

A lógica foi: esquerda + centro-esquerda + centro + liberais democráticos + setores conservadores institucionalistas, unidos menos por um programa econômico homogêneo e mais pela defesa das instituições democráticas diante de Bolsonaro.

Chamá-la de “Frente Ampla Antifascista” é uma caracterização política possível, embora não consensual por muitos não reconhecerem o neofascismo eleitoral. Talvez chamar de Frente Ampla Democrática permita identificar a coalizão sem pressupor aquela classificação controvertida de todos os adversários de direita.

As caracterizações dos vários adversários como “extrema-direita”, “golpistas”, “reacionários” ou “entreguistas” precisam ser distinguidas.

Existe uma combinação de bons resultados potencialmente atraentes — mas não garante vitória. Bons indicadores não se convertem mecanicamente em votos.

Podemos pensar em quatro capitais políticos diferentes:

DimensãoBase do ativo eleitoral
Econômicaemprego, renda, inflação, crescimento
Social-distributivasalário mínimo, transferências, redução da pobreza e desigualdade em renda (não em riqueza)
Político-institucionaldemocracia versus autoritarismo
Geopolíticasoberania, multilateralismo e projeção internacional

Eles interagem. Uma maneira sistêmica de interpretar o lulismo seria considerar:

  1. o Lula de 2003-2010 predominantemente associado à ascensão social;
  2. o Lula de 2022, à reconstrução de uma coalizão democrática; e
  3. o Lula de 2026 como um tentativa de combinar as duas memórias.

O problema eleitoral é a existência simultânea do circuito contrário.

Do lado do Lulismo, encontra-se: mobilidade social + políticas sociais + Estado indutor + pluralismo comportamental ou identitário + multilateralismo + memória econômica + democracia institucional.

Do lado do Antipetismo, somam-se: ressentimento por perda de status social + crítica fiscal + neoliberalismo econômico + conservadorismo moral + nacionalismo sob os Estados Unidos + memória do lawfare + postura antissistema (“do contra”).

A eleição, portanto, não será simplesmente um plebiscito sobre a economia. Ela tende a resultar da interação entre condições materiais presentes, memória dos governos anteriores, identidades políticas e rejeições recíprocas.

Há ainda um paradoxo particularmente importante: quanto mais polarizada estiver a eleição contra uma candidatura identificada com o golpista em prisão domiciliar, maior pode ser a capacidade de Lula reconstruir a coalizão ampla de 2022; quanto menos ameaçadora parecer a alternativa de direita aos eleitores de centro, menor tende a ser essa vantagem específica. A pesquisa eleitoral na atualidade, mostrando um segundo turno muito mais apertado diante do primeiro, sugere justamente ser necessário distinguir o tamanho do eleitorado lulista do tamanho potencial de uma frente democrática anti-golpistas do 8 de janeiro de 2023.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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