30 de setembro de 2026

O jornalismo-sela e os repassadores de releases da fonte, por Luís Nassif

Desde o “Mensalão”, parte da mídia abandonou a investigação autônoma e conferiu o status de reportagem a releases.
Reprodução

Jornalismo-sela ocorre quando a fonte controla a cobertura, guiando o jornalista conforme seus interesses.
Investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva não encontraram irregularidades, mas a mídia explorou o caso diariamente.
Revelações contra Flávio Bolsonaro geraram rápido contra-ataque; jornalismo expôs fragilidades e sensacionalismo.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Denomina-se jornalismo-sela aquele em que o jornalista é conduzido pela fonte. Ele se deixa cavalgar, e a fonte vai guiando a cobertura na direção que deseja.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Especialmente nas coberturas continuadas, o ponto estratégico é controlar o ritmo das notícias repassadas à imprensa. Isso faz parte da grande disputa pelo controle da narrativa.

Quando há jornalismo investigativo e crítico na ponta, o jogo da fonte se torna mais complexo. Os vazamentos passam a ser julgados pelo critério da relevância e do ineditismo, tornando-se mais esparsos e menos suscetíveis à exploração política. O controle da narrativa volta para o jornalista, guiado por critérios técnicos e éticos.

Desde o “Mensalão”, porém, parte da mídia ficou prisioneira do jornalismo-sela. Abandonou-se a investigação autônoma e conferiu-se o status de reportagem a peças que não passam de releases repassados por fontes. Quando esse modelo alimenta uma cobertura continuada, entra-se no terreno da má-fé.

É o que ocorre na apuração da Polícia Federal sobre as denúncias envolvendo Fábio Luís Lula da Silva. As investigações não constataram irregularidades. Quebraram-se os sigilos fiscal e bancário, e analisou-se detalhadamente o celular da lobista Roberta Luchsinger. O que consta nos autos são conversas particulares, autopromoção de sua parte com clientes sobre supostos encontros que não ocorreram, empréstimos para o segundo escalão e nenhum — repito, NENHUM — contrato fechado com o setor público. Mesmo assim, o caso foi explorado diariamente por veículos instrumentalizados por fontes policiais. 

O grande problema do jornalismo-sela é o tempo: a linha de transmissão torna-se tão automatizada que o profissional perde a noção do tempo e do discernimento e fica completamente à mercê da fonte, vendendo a alma e os princípios jornalísticos. A cobertura desse caso extrapolou os limites da prudência jornalística. A cada dia, destacava-se uma declaração da lobista — sem qualquer implicação penal, muitas vezes mera jactância para vender a ideia de influência — transformando-a em manchete principal.

Quando se esgotaram essas alegações, abriu-se espaço para apurações relativas ao caso Dark Horse e a Flávio Bolsonaro. Foi quando entrou em cena o ministro André Mendonça com a grana que jogou no Supremo Tribunal Federal.

Agora, a novidade volta-se para as aventuras de Flávio Bolsonaro. Surgem revelações de grande impacto, obtidas a partir do celular de seu ex-sócio, descrevendo tratativas e conversas polêmicas, viagens, bacanais, negócios escusos..

A reação de setores alinhados foi ágil: acionar os canais habituais e pautar a imprensa para o contra-ataque. E o tema do jornalismo-sela passa a ser uma viagem da família Fábio Luiz ao Alaska, financiada por uma lobista, e sem nenhuma relação com negócios públicos ou farras licenciosas.

Um mínimo de discernimento indicaria a inconveniência de divulgar uma notícia irrelevante dessas, logo após a bomba contra Flávio Bolsonaro. A matéria permaneceu pouco tempo na capa do veículo. A edição rapidamente reduziu sua visibilidade. Contudo, o episódio evidenciou fragilidades do jornalismo contemporâneo, no qual muitas vezes faltam critérios para definir gradações, diferenciar relevâncias e separar o essencial do banal. Fica-se, assim, à mercê do sensacionalismo das manchetes, equiparando o jornalismo ao ritmo das redes sociais.

LEIA TAMBÉM:

Receba os artigos de Luís Nassif pelo WhatsApp

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados