As lições de São Francisco de Assis neste domingo de eleição
Por Vinícius Dino de Menezes
A cidade sitiada
As “Pequenas Flores de São Francisco” (Fioretti), coletânea medieval de histórias sobre Francisco de Assis, contam que a pequena Gúbio vivia aterrorizada por um lobo. A fera já não se contentava com ovelhas; atacava gente. Os moradores saíam armados e, armados, continuavam acuados atrás das muralhas.
São Francisco de Assis foi ao encontro do lobo sem espada. Chamou-o de “irmão”, mas não o absolveu: disse que ele era ladrão e homicida e que a cidade inteira era sua inimiga. Então propôs um pacto. Os moradores o alimentariam, porque ele fizera o mal movido pela fome; o lobo nunca mais feriria ninguém.
O acordo foi selado na praça, diante de todos. O lobo viveu mais dois anos em Gúbio, de porta em porta, sem ferir ninguém. A lição é simples e exigente: o medo não se vence com mais medo, mas com razão, pacto público e pão.
A fome do lobo
O gesto decisivo de São Francisco de Assis não é amansar o lobo. É perguntar por que ele ataca. A resposta, fome, desloca o problema da fera para as condições que a produziram. Oito séculos depois, a teologia da libertação latino-americana faria a mesma pergunta sobre os pobres do continente.
Das conferências episcopais de Medellín, em 1968, e Puebla, em 1979, nasceu a opção preferencial pelos pobres. O peruano Gustavo Gutiérrez, o brasileiro Leonardo Boff e tantos outros ensinaram que a caridade sem justiça vira esmola, e que a fé que não enfrenta as estruturas da miséria acaba por abençoá-las. Dom Helder Câmara resumiu o dilema numa frase que lhe é atribuída: quando dava comida aos pobres, chamavam-no de santo; quando perguntava por que eram pobres, chamavam-no de comunista.
A extrema-direita oferece ao lobo faminto outra coisa: um inimigo. Em vez de pão, há culpados o pobre, o imigrante, o terreiro, a professora, o jornalista, etc. É a mais antiga das trapaças políticas: canalizar a fome real para o ódio, para que ninguém pergunte quem lucra com ela.
Não é por acaso que essa leitura voltou a ecoar em Roma. Em 28 de setembro, no voo de volta da França, o Papa Leão XIV[1] foi perguntado sobre o avanço da extrema direita na Europa. Respondeu que a combinação dessas posições com certo tipo de religiosidade “não representa uma expressão autêntica do cristianismo”. E acrescentou que é preciso voltar aos valores do Evangelho, que não se baseiam no ódio e na divisão, mas na compreensão.
O Papa falava da Alemanha. Mas o diagnóstico atravessa o Atlântico sem pedir visto.
O lobo que quer governar a cidade
Há um ponto em que a parábola é inegociável: São Francisco de Assis dá pão ao lobo, mas não lhe entrega as chaves de Gúbio. É exatamente esse limite que a chamada teologia do domínio se propõe a romper.
Nascida em círculos evangélicos norte-americanos nos anos 1970 e difundida sob o nome de “mandato das sete montanhas”[2], ela sustenta que os cristãos têm a missão de conquistar e controlar as esferas centrais da sociedade: família, religião, educação, mídia, cultura, economia e governo. Não se trata de evangelizar pelo testemunho, mas de ocupar postos de poder. A fé deixa de ser proposta e passa a ser projeto de domínio.
No documentário “Apocalipse dos Trópicos” de Petra Costa lançado pela Netflix em 2025. O filme acompanha o pastor Silas Malafaia na ascensão e queda de Bolsonaro, mas sua parte mais reveladora está no passado. Com base em arquivos norte-americanos, mostra a atuação de um grupo de lobby religioso dos EUA, conhecido como “The Family”, junto a parlamentares brasileiros durante a ditadura, e a percepção, em círculos do governo americano, de que a Igreja Católica deixara de ser aliada.
O documentário contrapõe à teologia da libertação a um cristianismo apocalíptico, de guerra espiritual, que trata o adversário político como inimigo de Deus. A própria Petra Costa reconhece que ainda se sabe pouco sobre a ação da CIA naquelas décadas. Ainda assim, deixa uma pergunta que o Brasil não pode adiar: quando termina a democracia e começa a teocracia? Esse foi o ponto trazido na polêmica dos últimos dias.
No Brasil, essa lógica ganhou púlpitos, bancadas e, sobretudo, na “novilíngua” da extrema-direita. A promessa de um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal é sua expressão institucional mais clara: a ideia de que também os tribunais são uma montanha a ser conquistada.
A teologia do domínio também trai a melhor tradição protestante, que deu ao mundo a defesa da separação entre Igreja e Estado como garantia da própria liberdade de crer. E trai São Francisco de Assis, que chamou sua ordem de Frades Menores justamente para recusar o poder. O santo de Assis entrou em Gúbio para servir à cidade. O lobo do domínio entra para governá-la.
O ministro “terrivelmente evangélico”
É nesse ambiente que se deve ler a decisão do ministro André Mendonça, num caso do TSE sobre publicações que misturavam religião e campanha. Em 25 de setembro, atendendo a pedido do candidato do PL, mandou remover mais de mil links, sob multa de R$ 50 mil às plataformas.
O plenário do TSE considerou falsa a afirmação central daquelas postagens, e esse juízo deve ser respeitado. Mas a ordem não alcançou apenas quem a reproduzia como fato. Atingiu também a publicação do Antonio Tabet que não citava o candidato pelo nome e fazia crítica política em tom de sátira. O próprio ministro André Mendonça reconheceu o excesso: no julgamento de 30 de setembro, após divergência de um colega, ajustou o voto e liberou aquela postagem.
Não se trata de questionar a fé de um magistrado, que é assunto de sua consciência. Trata-se de lembrar que um juiz escolhido por critério religioso carrega um ônus redobrado de demonstrar distanciamento quando a religião entra no processo. Quando a primeira resposta é a remoção em massa, inclusive da sátira, a cidade volta a se trancar por dentro.
Francisco diante do sultão e a tradição pacifista
O ministro Flávio Dino seguiu outro caminho. Suspendeu a ordem de remoção com base na liberdade de expressão e na liberdade religiosa, invocando o precedente do STF que derrubou a Lei de Imprensa. A decisão foi suspensa pelo ministro Luiz Fux, e o próprio Dino pediu que o caso fosse levado ao plenário. É assim que divergências devem se resolver: na praça do colegiado, não no silêncio imposto por uma decisão monocrática.
Em 30 de setembro, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal e a PGR investiguem uma aparente onda de ataques a imagens católicas e a terreiros de religiões de matriz africana em diversos estados. A autoria ainda será apurada pela PF, mas o gesto importa: o Estado laico não escolhe qual fé proteger. Protege a todas, porque protege a cidade.
Há um episódio menos conhecido da vida de Francisco que ilumina este ponto. Em 1219, em plena Cruzada, ele atravessou as linhas de batalha no Egito para conversar com o sultão al-Kamil. Não foi para converter à força nem para declarar guerra santa. Foi para falar com o suposto inimigo.
É essa a tradição que o campo democrático, sob a candidatura de Lula, deve reivindicar: a do pacto entre diferentes, católicos, evangélicos, praticantes de religiões afro-brasileiras e quem não tem religião alguma. Com seus limites, a trajetória de Lula é a de um negociador que senta à mesa com quem pensa diferente como bem apontado por João Moreira Salles em seu texto de anteontem na Revista Piauí[3]. O país não precisa de caçadores de lobos, que tendem a se parecer com aquilo que caçam. Precisa de quem saia das muralhas sem armas.
Domingo, na praça
No domingo, 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, a praça de Gúbio é a urna. Cada eleitor decide se a cidade seguirá sitiada, com a fé usada como muralha e o juiz como sentinela de um dos lados. A outra opção é alguém sair, nomear o lobo e propor um pacto que valha para todos os credos.
O lobo não se vence com mais lobo. Vence-se com razão, instituições, liberdade e pão. São Francisco de Assis sabia disso há oito séculos. O Brasil tem até domingo para lembrar e impedir que o ódio retorne à cidade.
Paz e bem.
Vinícius Dino de Menezes é advogado.
[1]https://operamundi.uol.com.br/europa/papa-leao-14-diz-que-avanco-da-extrema-direita-nao-e-expressao-do-cristianismo/
[2] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2024/03/17/teologia-do-dominio-o-que-e
[3] https://piaui.uol.com.br/web/o-que-esses-brasileiros-sabem/
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