A propósito de pontuação (2)
por Walnice Nogueira Galvão
A organização da correspondência de Euclides da Cunha esbarrava num descalabro, cuja origem é a seguinte. Logo que Euclides morreu, Oliveira Lima pronunciou uma conferência no Rio falando de sua amizade com ele, que recheou com citações da correspondência que trocaram. A conferência saiu em jornal. Na sequência, os fragmentos recortados passaram a figurar em tudo quanto era edição da correspondência de Euclides, tais quais, sem voltar aos originais nem corrigir os erros – e até mesmo na que fez mais autoridade, as Obras Completas da Aguilar (1966). Como, naturalmente, o conferencista não se preocupou em datar as cartas, começaram a atribuir datas aleatórias a esses fragmentos. A certa altura, deparei-me com o caos. No ínterim, surgira uma publicação feita numa revista nos Estados Unidos das cartas completas de Euclides a Oliveira Lima, que estão até hoje na biblioteca da Universidade Católica de Washington, para a qual Oliveira Lima doou seus livros e papeis. O conjunto de cartas completas e de fragmentos completos não se encaixava: havia – se é que se pode dizer assim – fragmentos que “sobravam” e fragmentos que “faltavam”.
Acabei tendo que ir pessoalmente à biblioteca em Washington para conferir tudo, munida da publicação norteamericana e dos “fragmentos completos”. Não conseguia sequer imaginar qual era o problema ou quais eram os problemas, depois de tentar resolver o quebra-cabeças de todas as maneiras possíveis. Por fim, era simples (claro: depois de resolvido era simples): na publicação da revista faltavam quatro cartas inéditas que estavam lá mesmo junto com as outras. Aí foi só conferir tudo de novo, e consegui encaixar todos os fragmentos, sem exceção.
Essa foi a novidade mais saliente, como bloco, afora várias outras avulsas. Ao todo, e ao fim de sete anos, pude estampar aproximadamente uma centena de cartas inéditas, afora outra centena delas esparsas por periódicos. Faz sentido a observação de José Calasans, a de que a publicação desta Correspondência tornou finalmente possível escrever a biografia de Euclides. (Espero que com esta observação não se pense que estou considerando a epistolografia uma ancila da Ecdótica. Não: ela tem autonomia e estatuto próprio – tema que caberá aos pesquisadores desenvolver, por ser muito necessário.)
Já a correspondência de Guimarães Rosa vem sendo publicada ao longo dos anos. Radicalmente diferente da de Euclides, é especialmente interessante por ser de preferência dirigida a seus tradutores. Esse é um caso raro na literatura mundial e na epistolografia também: uma excepcional correspondência temática versando sobre tradução. É propriamente um dos maiores tesouros que existem: os trabalhos de análise e interpretação mal começam. Felizmente, já está quase toda publicada – e, quando ainda não o foi, pode ser consultada em teses que já foram defendidas embora permaneçam inéditas.
E enquanto a correspondência de Euclides escapa aos fatídicos 70 anos dos direitos autorais, a de Guimarães Rosa cai dentro desse período. É por isso que algumas cartas já estão em teses, pelo menos em um caso, e nada de publicação: os herdeiros não autorizam. Consta dos seguintes volumes, que comentarei em seguida:
Edoardo Bizzarri, Correspondência com o tradutor italiano. São Paulo: ICIB, 1972.
Iná Valéria Rodrigues Verlangieri, J. Guimarães Rosa – Correspondência inédita com a tradutora norte-americana Harriet de Onís. Unesp/Araraquara, Dr., 1993 (sempre inédita)
M. Aparecida Faria Marcondes Bussolotti, João Guimarães Rosa – Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967).Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003 (Mestrado FFLCH-USP, 1997)
Sendo estes os três mais importantes lotes da correspondência, ainda resta inédito o conjunto com o tradutor francês. Em tese de doutorado defendida em 2010 na FFLCH-USP, Marcia Valéria Martinez de Aguiar aborda As duas versões francesas de Grande sertão: veredas – historicidade e ritmo. Esse trabalho utilizou, sem publicá-la, a correspondência entre João Guimarães Rosa e seu tradutor francês Jean-Jacques Villard.
Vários outros trabalhos encontram-se em andamento.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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