14 de outubro de 2026

Não odieis o eleitor de direita, por Francisco Mateus Conceição

Vamos invadir a seara do discurso moralista deles; nós temos moral para isso. Sejamos firmes, duros, inclusive, quando necessário
Reprodução - Jornal da USP

Pais trabalhadores enfrentam longas jornadas e violência, mantendo valores morais e votando em candidatos de direita.
Direita tem milhões de eleitores com convicção moral, que militam localmente e não se limitam às redes digitais.
Campanha deve dialogar respeitosamente com eleitores de direita e mostrar propostas em segurança e políticas sociais.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Não odieis o eleitor de direita, por Francisco Mateus Conceição

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Imaginemos aquele pai ou aquela mãe, que acorda cedo, pega ônibus para ir ao trabalho e depois para retornar, ao final do dia. Dependendo do tempo de deslocamento, a jornada pode chegar a quatorze horas diárias. O tempo pra si, se existe algum, é minguado, como o salário. Mas precisa educar e realmente educa os filhos, como vemos muitos por aí. Mantém-se honesto, honrado, trabalhador. Referência para os filhos, que envia para a escola e ensina a trabalhar também. Faz tudo isso enfrentando a insegurança e a violência, com as quais divide espaço. Mas não se verga, constrói seu mundo, conforme seus caros valores morais. Estes, aliás, são seu maior capital, sua única riqueza.

Essas pessoas que assim vivem, que suportam o assédio e até a ameaça do mundo do crime, que suportam a suspeita constante das forças de segurança, que suportam privações econômicas de toda ordem e a violência do contraste social… Mas não se rendem… Constroem família, bairro, cidade, país… Essas pessoas bem podem ser chamadas de heróis. E são muitas, milhões no Brasil. Elas têm religião, em geral. São católicas, espíritas, umbandistas, evangélicas… Muitas delas frequentam cultos, pagam dízimo, porque se agarram com ferro e fogo a tudo que possa auxiliá-las a sustentar seus princípios morais. Muitas delas, em torno da metade conforme as últimas eleições, votam em candidatos de direita. E aí eu pergunto: elas perderão a face heroica por causa disso? Mais: você será capaz de odiá-las por causa disso? Vai chamá-las de pobres de direita simplesmente? Como quem as chama de mal-agradecidas pelas políticas sociais de nosso governo? Como quem, indiretamente, as acusa de não enxergar o seu lugar? Ou, pior ainda, vai chamá-las de fascistas, xingá-las com os piores adjetivos possíveis?

Infelizmente, o enfrentamento da direita tem sido feito de maneira bastante generalizada. Outro dia li um texto que buscava fazer a distinção entre dois grupos principais de bolsonaristas. De um lado, as lideranças (políticos, religiosos, influencers…) que criam e massificam o discurso da direita e, de outro lado, a massa ingênua e ruidosa que é manobrada por eles, acampa em frente aos quartéis, reza pra ET e por aí afora… Sua lógica de funcionamento estaria calcada tão-somente na capacidade de produzir e reproduzir fake news através das redes digitais. No entanto, esses dois grupos podem representar apenas alguns milhares e a direita possui milhões votando nela. Há outras razões para a receptividade do discurso conservador. Ele não se limita às redes digitais e diz respeito a pessoas que primam, muitas vezes, pela discrição, sendo avessas à ostentação de posição política. Apenas aceitam, com muita convicção, aquela que sentem melhor se amoldar às suas necessidades. Militam politicamente, sim, mas no seu círculo de convivência. São alvos de nossas políticas sociais, mas se agarram à pauta moral que a direita lhe oferece.

Temos que conversar respeitosamente com esse eleitor. Neste segundo turno há a tentação, enganosa, de fugirmos para a ideia de que o caminho único é buscar o voto daqueles que se abstiveram no primeiro. Tenho visto vozes relevantes enfatizar, como decisiva, a busca dos votos daqueles que se abstiveram. Isso, porém, não será suficiente. Existem os eleitores que votaram em outros candidatos, os que votaram nulo ou branco e que poderão fazer outra opção agora, para o nosso lado ou para o deles. Muitos se abstiveram convictamente e deverão repetir a abstenção. Outros poderão ser cooptados pelo adversário, que também poderá cooptar eleitores que votaram em nós no primeiro turno. Há, ainda, em relativo dinamismo no comportamento do eleitor, sendo a eleição, como as pesquisas, em certa medida, o registro de um momento. Todas as alternativas de voto são importantes. E se desprezarmos o eleitor que votou no adversário no primeiro turno, nós já perdemos a eleição antecipadamente. Estaremos desistindo da eleição sem o dizer. Embora difícil, dada a cristalização do voto conservador, é sim, imprescindível reverter votos. E é possível fazê-lo.

Temos muito para mostrar, novamente, sobre o que construímos e o que ainda podemos fazer. Sobre quem é o adversário, com quem está, o que fizeram e o que ainda poderão e prometem fazer. Mostrar, através das ações, que somos nós, com nossa trajetória e nossa luta, que realmente defendemos as famílias. E, sim, vamos ter que falar de segurança pública também, o que é uma dificuldade para nós. Como sabemos, essa área não é atribuição do Governo Federal, mas o debate está federalizado e precisamos minimizar o prejuízo que ele nos causa. Não temos culpa alguma do problema, que tem raízes bem amplas, mas a conta está sendo jogada para nós e não é possível ignorá-la.

Acredito que uma coisa importantíssima a fazer neste momento é lembrar que possuímos em nossos quadros (da base e representantes) integrantes das forças de segurança. Eles precisam ser mais ouvidos na coordenação de campanha e se fazerem mais presentes em nosso material de divulgação. A título de exemplo, em meu estado, o RS, o deputado estadual mais votado pelo PT está ligado à área da segurança. É o tipo da pessoa que poderá nos auxiliar bastante nesse debate. Além disso, apresentar nossas experiências estaduais nessa área.

Nós da esquerda sempre procuramos, de maneira correta, compreender as causas da criminalidade para, assim, enfrentá-la na sua complexidade. Mas o esforço de compreensão permitiu que jogassem sobre nós a pecha de compreensivos. E aí não se trata apenas do Governo Federal, somos nós que possuímos essa cultura e projetamos essa imagem para a sociedade. Para sairmos dessa situação defensiva, a alternativa não é, em hipótese alguma, nos convertermos ao discurso belicista da direita. Precisamos manter nossos princípios, sem que eles nos imobilizem, encarar o problema, agir e nos comunicar com a sociedade sobre ele.

Claro, não serão alguns dias de campanha que irão reverter uma imagem consolidada ao longo de décadas. Mas podemos fazer muito, o suficiente para, ao lado de outras ações, sairmos vitoriosos no dia 25. Vamos invadir a seara do discurso moralista deles; nós temos moral para isso. Sejamos firmes, duros, inclusive, quando necessário, mas, como diria Che Guevara, sem perder a ternura jamais. E seguirmos mobilizados depois das eleições, o que será imprescindível para podermos enfrentar os resultados negativos apresentados no primeiro turno.

Francisco Mateus Conceição é servidor público, ex-professor e doutor em Literatura

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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