14 de outubro de 2026

Leitura não é coisa de homem?, por Francisco Neto

Scarpa expõe um preconceito histórico associado à leitura, em particular de literatura, o de que leitura e virilidade não combinam.
Gustavo Scarpa - reprodução Youtube - @scarpinha

Jogador Gustavo Scarpa impulsiona a leitura entre homens, com livros entrando nas listas de mais vendidos.
Torcidas organizadas do Atlético Mineiro e outros clubes criam clubes de leitura inspirados no fenômeno Scarpa.
Leitura masculina enfrenta preconceito histórico que associa literatura à falta de virilidade, diz antropóloga.

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LEITURA E LITERATURA TAMBÉM SÃO COISAS DE HOMEM, MOSTRA O FENÔMENO GUSTAVO SCARPA

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por Francisco Neto Pereira Pinto

A leitura, em particular de literatura, ao longo da história foi associada à feminilidade, o que tem afastado muitos homens da leitura. Será que isso está mudando?

Leitura não é coisa de homem?

O que acontece quando um jogador de futebol começa a compartilhar suas experiências com a leitura de literatura e a recomendar livros em sua rede social? O resultado, que ninguém poderia prever, tem sido revolucionário. O primeiro impacto foi o desencadeamento de uma onda de adesão às leituras recomendadas, o que é atestado pelo fato de os livros entrarem nas listas dos mais vendidos, por exemplo, da Amazon. O segundo se relaciona à criação, em escala, de clubes de leitura por torcidas organizadas. A iniciativa coube à torcida do clube ao que pertence o jogador, o Atlético Mineiro, e rapidamente se espalhou pelas de outros times.

Contudo, mais do que isso, o fenômeno Scarpa expõe um preconceito histórico associado à leitura, em particular de literatura, o de que leitura e virilidade não combinam. Michèle Petit, antropóloga francesa e referência internacional sobre leitura, afirma, em seu livro Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva (2008), haver um medo entre a juventude masculina em relação à leitura. Embora esse medo se espraie em várias direções, um aspecto específico diz respeito à ameaça de rechaçamento e, consequentemente, exclusão do grupo de amigos, o que se daria pela percepção histórica e compartilhada, de que a leitura depõe contra a virilidade.

Para Petit, partindo de relatos de outros pesquisadores e escritores, essa associação negativa entre masculinidade e virilidade não se restringe somente ao universo francês, mas se trata de algo amplamente compartilhado entre diversas culturas, de diferentes países, incluindo o Brasil. Essa reflexão levanta o véu e planta dúvidas em viés discursivo que faz crer que os homens não leem por preguiça, por uma espécie de falta de gosto em função própria do gênero ou simplesmente porque há coisas mais interessantes para se fazer.

Fica claro que, para se cultivar uma cultura de leitura de literatura entre os homens, é necessário jogar por terra o mito de que a leitura efeminiza o homem, tornando-o menos viril. Ao que tudo indica, esse pontapé já foi dado por Gustavo Scarpa, deixando-nos na torcida de que o fenômeno prospere, espalhe e se consolide cada vez mais.

Francisco Neto Pereira Pinto é Psicanalista, Escritor e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado – da Universidade Federal do Norte do Tocantins. É autor de Civilização Selvagem ou tigelas de barro espatifadas no chão.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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