15 de outubro de 2026

Miss Tamara, a princesa russa de Poços de Caldas, por Luís Nassif

A mulher conhecida como Miss Tamara ou Thamara Gagarin viveu em Poços de Caldas a partir de aproximadamente 1938

Miss Tamara, russa e aristocrata, viveu em Poços de Caldas e foi associada à princesa Anastácia Romanov.
Anastácia, filha do czar Nicolau II, foi assassinada em 1918; DNA confirma sua morte, negando sobrevivência.
Em 1950, Tamara teria reencontrado suposto irmão Alexis em Poços; identidade e origem dela permanecem mistério.

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A fama das águas termais de Poços de Caldas correu mundo, já no começo do século 20. Suiços, judeus, italianos e russos vieram morar na cidade.

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Nenhum dos personagens foi tão interessante quanto Miss Tamara, uma russa branca, provavelmente membro da nobreza russa, expulsa do país pela Revolução de 1919.

Ela morava a dois quarteirões de casa. Quando descíamos a rua Rio de Janeiro, virando à esquerda na Santa Catarina, estava o sobrado de Miss Tamara. Se déssemos sorte, conseguíamos ver a princesa na janela.

Meu primo Oscarzinho, membro precoce do Clube de Xadrez de Poços de Caldas, me contou das peripécias da princesa nos torneios locais. Cada vez que tomava um xeque, levava um susto.

Miss Tamara ganhou fama nacional quando O Cruzeiro cismou que ela seria Anastácia.

1. Anastácia, a filha do último czar

Anastácia Nikolaevna Romanov (1901–1918) era a quarta filha do czar Nicolau II e da imperatriz Alexandra Feodorovna.

Nascida em 18 de junho de 1901, pertencia à dinastia Romanov, que governava a Rússia havia três séculos. Era irmã de Olga, Tatiana, Maria e Alexei, o herdeiro do trono.

A Revolução de Fevereiro de 1917 provocou a abdicação de Nicolau II. A família imperial foi colocada sob custódia e, posteriormente, transferida para Ecaterimburgo.

Na madrugada de 17 de julho de 1918, Anastácia, seus pais e seus quatro irmãos foram assassinados por agentes bolcheviques na Casa Ipatiev.

Durante décadas, entretanto, persistiu a hipótese de que uma das filhas tivesse escapado. O desaparecimento dos corpos e o segredo envolvendo a execução alimentaram uma das maiores lendas do século XX.

A partir daí, apareceram mulheres em diferentes países afirmando ser Anastácia — ou sendo identificadas por terceiros como a princesa desaparecida.

A mais conhecida foi Anna Anderson, que durante décadas sustentou ser Anastácia. Exames genéticos posteriores demonstraram que ela não pertencia à família Romanov.

As análises de DNA dos restos mortais da família imperial, concluídas em diferentes etapas, também confirmaram que Anastácia morreu em 1918.

Portanto, não existe fundamento histórico ou genético para a hipótese de que Anastácia tenha sobrevivido e vivido no Brasil.

2. Quem era Miss Tamara Gagarin, de Poços de Caldas?

A mulher conhecida como Miss Tamara ou Thamara Gagarin viveu em Poços de Caldas a partir de aproximadamente 1938, acompanhada de uma mulher identificada como condessa Alexandra Tatischev, cujo sobrenome aparece com diferentes grafias.

Segundo pesquisas históricas locais, as duas haviam passado anteriormente por São Paulo e outras localidades. Tamara dava aulas particulares de idiomas, especialmente inglês, e era conhecida por seus modos aristocráticos, sua reserva e pelo temor de perseguições políticas.

Alguns detalhes tornam sua história especialmente interessante.

  • A condessa Alexandra: apresentada como protetora e mãe de criação de Tamara, teria sido responsável por sua fuga da Rússia, segundo a narrativa divulgada pela imprensa.
  • O domínio de idiomas: Tamara ensinava línguas estrangeiras, característica que reforçava, aos olhos dos moradores, a hipótese de uma educação aristocrática.
  • O medo dos comunistas: antigos alunos recordavam que ela tomava precauções incomuns para receber visitantes.
  • A ligação com a aristocracia brasileira: uma versão recolhida pelo historiador Roberto Tereziano menciona o Barão de Campo Místico como personagem ligado à sua chegada à região.

O jornalista Odair Camillo, antigo aluno de Tamara, contou em reportagem publicada pela PUC Minas que precisava bater três vezes à porta e identificar-se pela voz para ser recebido. Segundo ele, foi por meio de O Cruzeiro que tomou conhecimento da hipótese de sua professora ser Anastácia.

Esse testemunho é particularmente importante: mostra que a identificação de Tamara com Anastácia não era necessariamente uma afirmação da própria mulher, mas uma narrativa difundida publicamente.

3. A reportagem de O Cruzeiro e o suposto reencontro dos irmãos

O episódio mais surpreendente é a notícia de um encontro, em Poços de Caldas, entre Tamara e um homem que se apresentava como Alexis Romanov, supostamente o irmão caçula de Anastácia e herdeiro do trono russo.

Uma reportagem da Agência Estado, publicada em 31 de dezembro de 1995, recuperou a história e informou que o encontro teria ocorrido em meados da década de 1950, recebendo cobertura de O Cruzeiro.

Segundo essa reportagem:

  1. Alexis Romanov vivia em Cuiabá, onde trabalhava como mecânico.
  2. Ele teria viajado a Poços de Caldas e reconhecido Tamara como sua irmã.
  3. Na época, Tamara já sofria de Parkinson, tinha dificuldades para falar e vivia no Asilo São Vicente de Paula.
  4. A religiosa Líbera Camenatti, que conheceu Tamara, recordou o encontro e afirmou que ela inicialmente desconfiou do visitante, temendo que fosse um agente comunista.

O detalhe da desconfiança é revelador. Mesmo na narrativa de quem acreditava na identidade imperial de Tamara, o reencontro não foi descrito como uma cena cinematográfica de reconhecimento imediato.

A história ganhou nova repercussão em 1995, quando se cogitou submeter o suposto Alexis a exames de DNA.

4. A morte de Tamara e seu túmulo

Tamara morreu em 1965, segundo pesquisas e reportagens locais, e foi sepultada no Cemitério da Saudade, em Poços de Caldas, no mesmo jazigo associado à condessa Alexandra Tatischev.

O túmulo tornou-se uma atração da cidade. Uma reportagem de novembro de 2025 registra que ainda recebe flores, visitas e homenagens de pessoas fascinadas pela história.

Em 2007, foram encontrados novos restos mortais perto de Ecaterimburgo. Dois estudos genéticos publicados em 2009 confirmaram a identificação de todos os cinco filhos de Nicolau II. Há divergências sobre quais ossadas pertencem especificamente a Maria e Anastácia, mas não sobre a morte de ambas em 1918.

Isso encerra a hipótese de Tamara ser Anastácia, mas não resolve a questão mais interessante para a história de Poços de Caldas: quem era, de fato, Tamara Gagarin?

Para uma investigação jornalística, vejo quatro caminhos especialmente promissores: localizar a reportagem original de O Cruzeiro na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional; consultar os registros de óbito e sepultamento de Tamara e Alexandra; pesquisar os documentos de imigração das duas mulheres; e recuperar o trabalho acadêmico do historiador Clisthenis Betti.

Algumas fontes já localizadas:

O verdadeiro mistério deixou de ser a sobrevivência de Anastácia. Passou a ser a trajetória de duas mulheres russas que chegaram ao Brasil, viveram discretamente numa cidade mineira e acabaram transformadas em personagens de uma lenda internacional.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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