15 de outubro de 2026

Meta interferiu nas eleições do Brasil desestabilizando disputa eleitoral, revela documento

Meta lucrou R$ 2 milhões com anúncios eleitorais irregulares que visaram inflamar conflitos e desestabilizar eleitores.
Imagens: Divulgação/ Arte GGN

Relatório da UFRJ revela que Meta lucrou R$ 2 milhões com anúncios eleitorais irregulares nas eleições brasileiras de 2026.
Anúncios visaram inflamar conflitos e desestabilizar eleitores, atacando e promovendo candidatos de diferentes espectros políticos.
Pesquisador Dov H. Levin (Oxford) mapeou que a interferência internacional em eleições presidenciais pode mudar 3 pontos percentuais no resultado das urnas.
Anúncios eleitorais estrangeiros são proibidos pela legislação brasileira. No estudo da UFRJ, 33,3% dos anúncios não informaram a fonte pagadora.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um relatório inédito do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgado nesta semana, revela uma verdadeira operação de interferência da Meta nas eleições do Brasil, a partir de recursos e infraestrutura sediados nos EUA. O estudo demonstrou que a gigante de tecnologia dos Estados Unidos, dona do Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads, lucrou cerca de R$ 2 milhões ao veicular anúncios político-eleitorais irregulares nas eleições brasileiras de 2026.

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Ao apurar os conteúdos das publicações, um dos achados mais importantes do estudo é que o foco dos ataques não era eleger um candidato específico, mas inflamar conflitos e desestabilizar a percepção do eleitorado. Diversos estudos mostram que a tática é característica de operações de influência e guerra de informação da era digital, no qual o objetivo central de atores externos aparece disfarçado, buscando erosionar a confiança nas instituições, ampliar divisões sociais e poluir o debate público para que a escolha do eleitor seja guiada pela rejeição e pela confusão.

O estudo da UFRJ mostra que as redes de anúncios atuaram promovendo e atacando candidatos de espectros políticos opostos e rivais diretos. A empresa Corporativo Lam, LLC, uma das poucas empresas que deixou seus rastros visíveis para monitorar e responsável por financiar 97,3% dos anúncios que tiveram o pagador identificado (investindo até R$ 1,6 milhão), financiou peças favoráveis e desfavoráveis a lideranças de diferentes partidos. As análises de rede mostram que uma mesma página anunciante alternava entre elogios e críticas ao mesmo grupo político.

A literatura sobre guerra híbrida e segurança internacional explica que as operações digitais contemporâneas envolvem empresas privadas, intermediários e redes transnacionais que atuam em uma “zona cinzenta” (ALVES, B. W. ; MACEDO, B. V. ; ROAHNY, L., 2022), diluindo as fronteiras entre a responsabilidade de corporações privadas e a ação estatal direta.

Ao longo da história, eleições presidenciais pelo mundo registraram a prática de financiamento em “zonas cinzentas” e sem um alvo político claro. Entre 1946 e 2014, o pesquisador Dov H. Levin (University of Hong Kong/Oxford University Press) mapeou a escala global de algumas dessas intervenções, contabilizando 187 intervenções eleitorais partidárias. O trabalho de Levin chegou a calcular que o efeito médio estimado de uma intervenção estrangeira é de 3 pontos percentuais no resultado das urnas, uma margem que, em pleitos acirrados, é suficiente para alterar o vencedor.

Pouco depois, nas eleições dos EUA em 2016, as acusações de interferência internacional por meio de campanhas de desinformação, uso de “bots” e perfis automatizados e ampla disseminação de conteúdos polarizadores, mostravam que não favoreciam determinado candidato, diretamente, mas ampliaram divisões internas e reduziram a confiança da população nas instituições democráticas.

Como atuaram os anúncios eleitorais 2026

O estudo da UFRJ concluiu que as operações de influência externa utilizaram desinformação, contas inautênticas, falta de fiscalização e omissão de fontes pagadoras, além de segmentação de público para manipular o debate político e tentar influenciar e confundir eleitores.

A investigação apontou que 1.613 publicações foram impulsionadas, alcançando mais de 171 milhões de impressões, a partir do exterior por redes coordenadas, utilizando moedas estrangeiras e violando as normas eleitorais. A legislação eleitoral brasileira proíbe estritamente que partidos e candidatos recebam doações ou benefícios financeiros provenientes de fontes estrangeiras, inclusive por meio de publicidade impulsionada por terceiros.

Houve o emprego de lacunas sistemáticas de transparência e falta de rastreabilidade. O documento informa que a Meta omitiu a fonte pagadora em 33,3% dos anúncios identificados.

A plataforma delega aos próprios anunciantes a responsabilidade de classificar se o conteúdo abrange temas sociais, políticos ou eleitorais. No estudo analisado, a totalidade dos 1.613 anúncios irregulares foi veiculada inicialmente sem o rótulo obrigatório de conteúdo político. E a moeda utilizada no pagamento só é divulgada para anúncios devidamente rotulados como “políticos”, deixando os anúncios omissos fora do radar público. Além disso, quando uma página é retirada do ar após a moderação, dados históricos como a data de criação deixam de ser disponibilizados para auditoria externa.

Também foram dectadas falhas sistêmicas na moderação da Meta nesses anúncios, inicialmente autorizando a disseminação dos conteúdos, seja sem a identificação política adequada ou irregulares, agindo de forma tardia. O levantamento mostrou que as peças permanecem ativas por um tempo médio de 2,7 dias, havendo casos que circularam por até 25 dias sem qualquer bloqueio, alcançando milhões de visualizações e gerando receita para as próprias plataformas antes de agir.

Anúncios políticos-eleitorais miraram indecisos

A estratégia priorizou a desconstrução e a criação de rejeição, ao invés de apoio. Houve três vezes mais anúncios destinados a atacar (1.356 anúncios) do que a promover (446 favoráveis), o que reforça o intuito de acirrar ressentimentos e desestabilizar os candidatos.

O alcance das publicações foi direcionado cirurgicamente a grupos específicos que registram maior indecisão eleitoral, como mulheres e jovens: 51,3% das impressões focaram no público feminino, com destaque para mulheres jovens (25 a 34 anos) e idosas (65+ anos).

Nas pesquisas eleitorais de 2026, a indecisão entre as mulheres chegava a 26%, contra 14% entre homens. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 47% dos que já indicavam voto afirmavam não estar convictos. E 42% de todas as impressões (72,5 milhões) concentraram-se no estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

O estudo também mostrou que a veiculação intensificou-se drasticamente no mês que antecedeu o pleito, atingindo um pico de investimento em 10 de setembro, com até R$ 479 mil aplicados em um único dia para impulsionar novos anúncios, período em que a maior parte dos eleitores indecisos definia seu voto para o 1º turno.

Outro fator de atenção no relatório é que muitas campanhas desinformativas operam para atrair cliques (clickbait) e lucrar com publicidade em sites falsos. Mas a investigação constatou que 74,7% dos anúncios (1.205 de 1.613) sequer possuíam links de redirecionamento externo, limitando-se a exibir a mensagem política na própria rede social. A ausência de modelo de negócios comercial confirma que o único propósito dos investimentos milionários era a interferência política direta.

Por fim, o estudo concluiu que o investimento em moedas estrangeiras permite a circulação de campanhas com orçamento e alcance massivo (ultrapassando 171 milhões de impressões no estudo analisado), rivalizando ou até superando o alcance de campanhas eleitorais oficiais e focando em grupos estratégicos como eleitores indecisos.

Leia a íntegra do relatório da NetLab UFRJ:

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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