Sou um gremista que, ao contrário de Renato Portaluppi, repudia Bolsonaro, por Luiz Cláudio Cunha
Sou um gaúcho e sou um gremista – no momento muito preocupado com o futuro iminente do Grêmio e ainda mais tenso pela grave ameaça extremista que assombra o Brasil.
Ao contrário do treinador do meu time, o inconsequente Renato Portaluppi, eu não sou Bolsonaro, um candidato presidencial que desprezo, repudio e terá sempre meu voto contrário.
O senador Flávio Bolsonaro carrega nas costas a canga maligna e as cicatrizes de um sobrenome paterno amaldiçoado pelo radicalismo de uma direita estúpida que nega e renega – sem remorso e sem rebuço – os direitos civis, as minorias, a desigualdade social, a sacralidade das florestas, a emergência climática, a ciência, o progresso, as liberdades e a democracia.
Com um cinismo capaz de corar até santo de pedra, o filho 01 do capitão (condenado e preso) refutava, contrito, qualquer relação ou contato com o ubíquo banqueiro Daniel Vorcaro. Até que apareceu a constrangedora gravação em que, na subalterna condição de pedinte, o nobre senador Flávio 01 suplicava em tom desesperado pelo socorro financeiro – em dólar – do mais imponente salafrário do frondoso ecossistema de escroques da elite brasileira que corrói as burras de uma Nação distraída e leniente. Na fita gravada, o 01 da família Bolsonaro chamava o número 1 da quadrilha do Banco Master pelo terno superlativo de “irmãozão”.
É o senador miliciano Flávio Bolsonaro, o favorito de Renato Portaluppi, que ameaça devolver o país às trevas e ao retrocesso de uma direita radical que pasta no atraso, na ignorância, no negacionismo, na exclusão social, no fanatismo religioso, na enganosa moral de um falso patriotismo e no entreguismo deslavado ao tresloucado e insano ocupante atual da Casa Branca, não por acaso a divindade central do credo bolsonarista.
Agora, hipócrita como sempre, cínico como nunca, o Bolsonaro 01 tenta vender sua falsa imagem ao eleitor como símbolo renovado da mudança, imaginando que o brasileiro possa esquecer sua sombria, familiar imagem como emblema granítico do atraso, do retrocesso, da estupidez, da violência e da repulsa à civilização.
O assustador é que mais de 56 milhões de brasileiros esqueceram dessa ficha criminal e, no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo inaugural de outubro, resolveram votar no candidato que tem apenas prontuário e nenhum currículo.
Assim, o Bolsonaro 01 ganhou de Lula, seu opositor, por apenas dois milhões de votos. É a diferença mais apertada desde a eleição presidencial de 1989, a primeira realizada após a queda, quatro anos antes, da ditadura de duas décadas sempre louvada pelo mito encarcerado da dinastia, o capitão Jair Messias Bolsonaro, e sua multidão de comparsas.
O mais espantoso é que, neste Brasil rachado entre o bem e o mal, entre a inteligência e a barbárie, uma multidão de brasileiros preferiu se ausentar das urnas, no primeiro turno. Foram 33 milhões de eleitores nem-nem – nem Lula, nem Bolsonaro – que acharam coisa melhor a fazer naquele domingo do que apontar ao país a trilha certa para seu futuro.
Se fosse um Estado, essa multidão de ausentes seria o segundo domínio federal mais povoado do Brasil, logo atrás de São Paulo (46 milhões). Seria maior do que as populações somadas de Minas Gerais (21 milhões) e Rio Grande do Sul (11 milhões).
Um destes milhões que não saiu de casa, no primeiro domingo de outubro, é uma amiga minha do sul, uma adorável, fervorosa, terrivelmente católica senhora que não gosta de nenhum candidato. Ela tasca a “maldita política” como a arte diabólica de dividir eleitores, conhecidos, amigos e até parentes, “nos separando das pessoas que amamos”.
Pouco afeita aos meandros endiabrados da tecnologia, ela descobriu na internet uma santa, salvadora utilidade: com um simples clique, via WhatsApp, dá pra espalhar pelo mundo desalmado e descrente imagens, louvores, salmos e exortações caridosas que nem o Papa conhece.
Eu a chamo carinhosamente de Flor do Dia. E, para compensar o voto desastroso do rombudo Renato Portaluppi, decidi fazer um último, terreno esforço para resgatá-la de casa e encaminhar seu corpo e alma para o santo ofício do voto, na suprema e sagrada instância do segundo turno do domingo, 25. Escrevi:
“Bom dia, Flor, do Dia.
“Vou fazer minha derradeira tentativa de te botar no caminho da luz, do bem, do progresso, da salvação e do futuro. No domingo 25, espero que sem chuva aí no sul para atrapalhar, terás duas alternativas, a pior e a melhor. Vejamos…
“1] A pior: Não sair de casa e aproveitar o benefício que temos nós de mais de 70 anos, os mais preguiçosos: aproveitar o domingo de eleição para fazer outra coisa que satisfaça mais do que o insuperável prazer de votar. Passear, ler um bom livro, comer e beber bem, dormir ou simplesmente divagar sobre a vida. É a solução mais fácil – e mais inútil.
“2] A melhor: Sair de casa, com determinação e propósito, para exercer o teu santo direito e teu sagrado dever de cidadã consciente, inteligente e clarividente: votar e escolher quem serão as pessoas que vão governar nosso país.
“Teu voto, Flor do Dia, tem a maior importância. Na eleição de 2022, o povo com mais de 70 anos como eu e tu, apto a votar, somava 14,8 milhões de brasileiros, quase 9,5% do eleitorado – e boa parte deles, acomodados ou desinteressados, sem perceber sua força, nem se dignaram a votar. Preferiram a pior solução. Ficaram em casa, alienados e desligados da realidade.
“Agora, nesta eleição parelha e disputada de 2026, que rachou o Brasil ao meio, o bravo povo do 70+ aumentou ainda mais: são 11% dos eleitores, quase 17 milhões de votantes.
“Numa eleição pau a pau, onde cada voto pode representar a vitória ou a derrota, a participação decidida e o envolvimento direto de todos nós, com mais de 70 anos – como tu e eu -, é crucial para definir o futuro do Brasil.
“E é disso que estamos falando, Flor do Dia. Vamos escolher entre o futuro, nas nossas mãos, e o passado tenebroso, representado pelos Bolsonaros e seu rosário de atrocidades, violência, descaso, atraso, negacionismo, preconceito, falcatruas, ignorância, corrupção, crimes contra o meio-ambiente e envolvimento com as milícias e os bandidos da quadrilha do Vorcaro, o amigão do Flávio Bolsonaro….
“O negacionismo da ciência expresso pelo pai Jair e seguido pelo filho Flávio é que levou à mortandade de 700 mil pessoas na pandemia do Covid-19, mortas pela obsessão do capitão cretino contra as vacinas e sua ideia fixa na solução idiota da cloroquina, condenada pelos maiores cientistas e grandes universidades do mundo.
“No governo Bolsonaro, os garimpeiros foram estimulados a invadir e contaminar áreas indígenas e nunca se devastou tantas florestas e tantos rios como na época trágica do capitão, que nega o aquecimento global como o seu parceiro imbecil da Casa Branca, Donald Trump.
“A Amazônia, nossas lindas matas e rios translúcidos não vão sobreviver a outra aventura criminosa dos Bolsonaros. As enchentes, tornados e chuvaradas que hoje assolam o nosso amado Rio Grande, Flor do Dia, são produto direto da estupidez e ignorância científica de gente como os Bolsonaros.
“O desprezo pelas mulheres, pelos povos indígenas e comunidades negras, que os Bolsonaros nunca esconderam, é mais um forte motivo para nosso repúdio e desprezo, pelo voto consciente, a esta gente desclassificada.
“Querem vender o país de graça para o Trump e acabar com o nosso PIX, assim como deixaram claro o último absurdo do fanatismo evangélico: cassar o título de “padroeira do Brasil” de Nossa Senhora Aparecida, tua santa favorita. Essa gente escrota não tem limites, Flor do Dia!
*Assim, mais do que uma chance pior ou melhor, existe uma alternativa muito mais trágica – inaceitável, deplorável, inconcebível!
“É o perigo do voto nesse Flávio 01, herdeiro legítimo do Bolsonaro, origem de todas as nossas aflições e problemas.
“É preciso corrigir uma crença equivocada que tens, Flor do Dia: a política não é maldita… A política essencial é o bendito fruto criado pelo pensamento superior dos homens que deram origem à sociedade organizada na Grécia antiga, cinco séculos antes de Cristo. Era a ferramenta prática e intelectual para dar ordem e sentido à vida em comum, na busca pelo progresso material e espiritual das pessoas e a prosperidade geral da comunidade. Era o início da civilização como etapa política mais desenvolvida da humanidade.
“Ali brotaram mentes privilegiadas como Sócrates, Platão, Aristóteles, que deram os fundamentos intelectuais para o surgimento de um gigante como Péricles (495-429 a.C.), o estadista de Atenas que liderou a cidade em seu período áureo, fortalecendo a democracia, promovendo as artes e a construção do Partenon, símbolo duradouro da Grécia e monumento físico da democracia.
“Numa visão mais moderna, Flor do Dia, política é a ciência moral normativa que deve reger os governos e os governantes na sociedade.
“Os maus políticos, Flor do Dia, é que deturparam e subverteram a boa política, submetendo aqueles propósitos altruístas aos seus interesses mais mesquinhos e pessoais, em detrimento da coletividade a que deveriam servir.
“Bons exemplos históricos da bendita política são figuras como Gandhi, Abraham Lincoln, Winston Churchill, Nelson Mandela, Martin Luther King, que fizeram dos princípios democráticos os instrumentos para a paz, a liberdade dos cidadãos e o progresso dos povos.
“Bons exemplos de políticos malditos na História são figuras infames como Hitler, Mussolini, Pinochet, Franco e o nosso desprezível Médici, o pior da ditadura brasileira, que afogaram a democracia e espalharam terror e morte entre as gentes.
“Hoje, temos na elite governante mundial figuras execráveis como Trump, Netanyahu, Bukele, Milei e outros imbecis que seguem à risca os modelos autoritários de seus antecessores.
“E temos agora, nesta eleição de 2026, Lula e Bolsonaro.
“Cada um identificado com um grupo e outro. Um se preocupa com os outros, o outro se preocupa com ele mesmo e seus interesses mais escusos e canalhas.
“O F de Flávio remete a tudo de ruim que pode ser escrito com essa letra.
“O F de Falso. O F de Fingido. O F de Fraudulento. O F de Fictício. O F de Furtivo. O F de Fariseu. O F de Farsante. O F de Falaz.
“Ao contrário, o L de Lula lembra tudo de bom que pode ser escrito com ele.
“O L de Luz. O L de Lucidez. O L de Lume. O L de Luzeiro. O L de Lapidar. O L de Letra. O L de Lampejo. O L de Luzir. O L de Lição. O L de Lar. O L de Liberdade.
“O que fazemos com o nosso voto no domingo 25, Flor do Dia, é exaltar o bom político e renegar, rejeitar, escorraçar o político detestável.
“Tu tens o direito e o dever de decidir quem é o bom, entre Lula e Bolsonaro, e quem é o detestável, entre Lula e Bolsonaro.
“Esta é a função do voto, da democracia e da bendita política, Flor do Dia: escolher o bom e amaldiçoar o mau. Ou optar entre o bem e o mal.
“Coisa simples e direta, Flor do Dia, não requer maiores hesitações, porque tem a bússola moral do direito e do caráter.
“Esta é a bendita política que aproxima as pessoas que amamos.
“A política maldita, de fato, afasta as pessoas que acreditam no amor.
“Bom voto no domingo 25, Flor do Dia.”
Não tenho certeza se tive sucesso na minha tentativa. Horas depois de mandar meu texto, recebi da Flor do Dia um santinho. Mais um.
Mas com um detalhe animador: era a imagem de Nossa Senhora Aparecida fazendo o L…
Eu, bem mais materialista, fiz o que era possível: baixei do mastro de casa a bandeira puída do Grêmio, mais esfarrapada do que as convicções políticas de Renato Portaluppi, e hasteei no seu lugar uma bandeira preta com o mantra religioso que me inspira neste grave momento: FORA, BOLSONARO!
Luiz Cláudio Cunha é jornalista, gaúcho, gremista e cada vez mais enojado com Portaluppi e o Bolsonaro.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário