5 de junho de 2026

Moura Neto e a Comissão da Verdade, por Luiz Cláudio Cunha

Documento enviado ao Ministério da Defesa em 2011 reacendeu debate sobre o papel das Forças Armadas diante da Comissão Nacional da Verdade.
Almirante de Esquadra Julio Soares de Moura Neto - Foto: Alexandre Galante - via podernaval.com.br

Em 2011, Moura Neto e outros comandantes enviaram queixa ao ministro da Defesa contra a criação da Comissão Nacional da Verdade.
O documento vazado criticava a CNV por relembrar fatos do “chamado governo militar” e negava os abusos da ditadura.
Moura Neto e os demais não participaram dos crimes da ditadura, mas rejeitaram a comissão mesmo sob comando da presidente Dilma.

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Moura Neto e a Comissão da Verdade, por Luiz Cláudio Cunha

Xará, tudo certo com a morte do grande militar Moura Neto.

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Mas, tem um lado negro da força que eu não esqueço.

Em 2011, quando se discutia a criação da Comissão Nacional da Verdade, o almirante e os outros dois comandantes de força, o general Peri e o brigadeiro Saito, tiveram a ousadia de mandar uma queixa, por escrito ao Nelson Jobim, ministro da Defesa, chiando contra a criação da comissão.

O documento foi vazado, quando ainda repicava a vitória da Beija-Flor na Sapucaí de 2011, pelo O GLOBO, com grande repercussão. Ali não era o grande militar que falava, mas o chefe das hostes golpistas de todos os tempos que negam o inegável e defendem o indefensável.

No documento, flor do cinismo fardado, Moura, Peri e Saito bradavam contra a iminente CNV por reviver fatos que eles atribuem, com palavras medidas, ao “chamado governo militar”.

Os milicos fizeram e aprontaram durante 21 anos, prenderam, torturaram, mataram, reprimiram, exilaram, fecharam o Congresso 3 vezes, cassaram mais de 4 mil líderes políticos, de vereadores a presidentes da República, demitiram ministros do Supremo, invadiram universidades, fizeram intervenção em mais de 1.200 sindicatos e centrais de trabalhadores, censuraram a imprensa, o teatro, o cinema, apreenderam livros, perseguiram jornalistas, alguns mortos, outros suicidados…

E os comandantes cínicos, Moura Neto entre eles, eram incapazes de chamar aquela merda de “ditadura”, a palavra certa e certeira pra definir o “chamado governo militar” dos pudicos comandantes.

E eles nem precisavam desse gesto boboca de servilismo, Nassif.

O almirante, o general e o brigadieiro da Dilma passaram incólumes pelos horrores da ditadura, não sujaram as mãos com os crimes de seus camaradas de armas nos anos de chumbo e no sangue dos porões. Todos os três chegaram ao generalato, em suas respectivas forças, no governo civil de FHC, quando a ditadura já era defunta há uma década.

Não precisavam, portanto, se agachar tanto em plena democracia, expressa no fato maior de que o presidente da República, por acaso, era uma ex-guerrilheira, presa e torturada na OBAN pelo “chamado governo militar”.

E, por força da Constituição, Dilma era a comandante-em-chefe dos três, que ignoraram o futuro pela frente e bateram continência, de maneira sórdida, para o passado trevoso que não manchava a biografia do trio.

Coisa muito feia, Nassif, e é isso que fica na minha lembrança.

Moura Neto perdeu, ali, a chance histórica de ser um grande militar. Lamentável.

Saludos democráticos, xará!

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