Inspiração de Flávio Bolsonaro (PL), o modelo econômico de Javier Milei, na Argentina, mostra seus fracassos após 3 anos com aumento da pobreza, aumento do desemprego, destruição de empregos formais, queda nas remunerações, queda na demanda interna, endividamento das famílias, sucateamento das universidades e da ciência, abandono da soberania tecnológica e forte crise social.
É o que conta, diretamente da Argentina à TVGGN, o economista Martín Burgos, mestre em Desenvolvimento Econômico Comparado na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris, França, e coordenador de Pós-graduação de Finanças e Desenvolvimento da Universidade Nacional de Quilmes.
Organizador e coautor de livros, entre eles “O novo modelo econômico e suas consequências”, que analisa o modelo econômico implementado na Argentina a partir de dezembro de 2015, durante o governo de Mauricio Macri, Burgos revelou o cenário de caos econômico que vive o país sob o comando de Milei.
A “motosserra de Milei”, símbolo da política de forte ajuste fiscal e corte de gastos públicos implementada por Javier Milei na Argentin, é uma das principais bandeiras de Flávio Bolsonaro em sua campanha para presidir o Brasil. Aqui, Flávio fala em “tesouraço”, com a promessa de realizar um forte ajuste fiscal e corte de despesas públicas, na ordem de R$ 190 bilhões e R$ 200 bilhões.
Mas não é preciso adivinhar o futuro para entender o impacto disso na economia. O vizinho latino-americano já conta o resultado após 3 anos dessa mesma política.
O economista destaca a destruição de 370.000 a 400.000 empregos formais e o fechamento de aproximadamente 32.000 empresas voltadas ao mercado interno desde a posse de Milei.
“As atividades que geram emprego e que são 80% da economia argentina, o mercado interno, a indústria, a construção, o comércio, todas estão em terreno negativo e isso é o que traz efeitos sociais terríveis, principalmente a perda dos empregos. Desde que chegou Milei, foram perdidos de 370 mil a 400 mil empregos formais, e apesar de o governo ter implementado uma reforma trabalhista logo no início, o emprego formal na Argentina não para de cair”, afirma.
Em obras públicas, por exemplo, o especialista narra que o governo argentino cortou cerca de 82% dos investimentos em obras públicas, paralisando o setor da construção civil e a cadeia industrial associada.
Em 2023, uma das principais preocupações da Argentina era o alto nível de inflação no país. Eleito com a promessa de conter os preços, Burgos pontua que o governo Milei conseguiu conter a inflação deixando o câmbio quase fixo, mas destacou que não se tratou de um avanço, ou seja, Milei não conseguiu reduzir a inflação, a manteve em patamares altos, com inflação anual na casa dos 30%, “ainda muito alta“.
O economista explica que na prática, os altos preços associados ao desemprego, geraram uma engrenagem destruitiva no país, impedindo a economia do país circular: enquanto o consumo pontual inicial foi sustentado pelo crédito, com o alto nível de endividamento das famílias, a inadimplência, e das empresas, atingindo 15% nos bancos e 30% nas fintechs, os bancos começaram a cortar os créditos, o que gerou a perda de consumo. Segundo o especialista, “o principal problema na Argentina hoje é a falta de demanda”, um “problema keynesiano”.
A consequência disso, revela Martín Burgos, é sob o governo Milei, a pobreza no país deixou de ser apenas inflacionária para se tornar estrutural, motivada pela falta de emprego e queda na renda real.
“Obviamente, quando a inflação começa a reduzir, também começa a diminuir a pobreza, mas aparece um fator de pobreza muito mais estrutural, que é a pobreza porque não tem trabalho, não tem salários, e é essa pobreza que começa a crescer cada vez mais na Argentina. Então, a pobreza não vem mais tanto da inflação, o só pela inflação, porque continuamos com uma inflação alta, mas, claro, se a indústria, a construção e o comércio estão em situação de recessão há 2 anos, é lógico que se destrói o emprego e a estrutura social em geral fica debilitada, e começam a aparecer problemas de pobreza cada vez maiores.”
Burgos alerta que a inflação alta também piorou o cenário, aparecendo o fenômeno do multiemprego, no qual trabalhadores formais precisam fazer jornadas extras, como motoristas de Uber ou taxistas, no fim do dia para conseguir fechar o mês. Na Argentina de Milei, não houve somente a migração de empregos formais para informais, ou seja, o aumento só da informalidade do trabalho, mas de os trabalhadores precisarem de mais de um emprego formal e/ou informal para se sustentar.
“O fenômeno do multiemprego é bantante recente, que nasceu com o governo de Milei, e obviamente tem ‘pernas curtas’, como se diz aqui na Argentina, ou seja, é uma solução a curto-prazo, porque se todo mundo começa a ter múltiplos empregos, simplesmente o que acontece com Uber, por exemplo, passa de 500 mil motoristas a 1 milhão, então o aumento da oferta faz baixar o preço das viagens de Uber. Ao final, todos perdem, e essa é uma das situações que os indicadores do INDEC [Instituto Nacional de Estatística] não conseguem captar”, exemplifica.
O economista argentino, que também é coordenador do Departamento de Economia Política do Centro Cultural da Cooperação de Buenos Aires, Argentina, afirma que este cenário somado aos cortes nas Universidades e demais, o que se vive no país vizinho é hoje uma “grave crise social”.
Ele menciona que a nação vive o pior momento para a ciência e a tecnologia. Explica que o setor universitário e de pesquisa vive um de seus momentos mais graves, provocando uma fuga de cérebros, com pesquisadores qualificados buscando oportunidades fora do país, com funcionários públicos sofrendo uma perda salarial real de cerca de 20%, e os professores universitários de quase 25%, e projetos estratégicos nacionais (como o setor nuclear) foram paralisados para priorizar a importação de tecnologia dos EUA ou a cessão de energia para data centers de multinacionais sem geração de inovação local.
Em clara espelho do que busca o plano de governo de Flávio Bolsonaro para o Brasil, Burgos observa que o principal pilar de sustentação de Milei não foram os grandes empresários locais, cujos balanços continuam fracos, mas sim o apoio de Donald Trump, dos Estados Unidos e o alinhamento com o FMI.
A entrevista completa está disponível no programa da TVGGN no Youtube:
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