O Brasil e a curva do tempo, por Carlos Dantas
Trump e as tarifas para o Brasil, o petróleo da Venezuela e as terras raras são notícias que frequentam o cotidiano. A atualidade remete à luta de Getúlio Vargas, presidente eleito em 1950, e à carta-testamento, que ele escreveu momentos antes de dar um tiro no peito.
“Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e mal começa a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”.
O suicídio de Vargas foi anunciado pelo Repórter Esso, noticiário de maior audiência no radio, patrocinado por uma empresa estadunidense chamada Standard Oil Company of Brazil, em 1954.
O rei da França Luís XVI foi guilhotinado em 1793, na Revolução Francesa, pelo crime de traição à nação. Tiradentes foi enforcado e esquartejado um ano antes, em 1792, acusado de traição à Coroa Portuguesa. Na Guerra da Independência os Estados Unidos venceram a Inglaterra, em 1783, quando já existiam algumas das universidades atuais, como Harvard, Yale e a Universidade da Pensilvânia. O movimento da Inconfidência Mineira, liderado por Tiradentes, ocorreu no momento do Brasil sem escolas. Os jesuítas, que criaram as escolas de ler-e-contar, tinham sido expulsos em 1759.
Em 1827, Pedro I decretou o início dos cursos jurídicos no Brasil, um no Mosteiro de São Bento, em Olinda, e o outro no Convento de São Francisco, em São Paulo. Os jesuítas voltaram a partir de 1840, para ensinar que a Terra não se move. A Escola do Recife floresceu na Faculdade de Direito do Recife, a partir dos anos 1870, e transformou o ensino escolástico que havia no Brasil em educação de base científica. Foi o meio de cultura e irreverência necessário para induzir a germinação das faculdades de Engenharia, Farmácia, Odontologia, Medicina, Belas Artes e Filosofia, no início dos anos 1900.
Em 1687, foi publicada a lei da gravitação universal de Isaac Newton, A Universidade de Harvard era um colégio desde 1636, então, já havia um ambiente receptivo para discutir as ideias propostas por Newton. A Escola de Engenharia de Pernambuco trouxe a cultura matemática e física para o currículo de profissionais de nível superior, em 1895. O curso de Engenharia Mecânica em 1944, começou a formar engenheiros com conhecimento para modelar processos industriais.
A teoria do eletromagnetismo, uma unificação da eletricidade e do magnetismo, foi obtida com as equações de Maxwell, em 1865, o curso de Engenharia Elétrica e Eletrônica, o ambiente para estudar o eletromagnetismo, é de 1953. O primeiro computador científico chegou no Recife em 1967, no Instituto de Física e Matemática.
Antes da Escola de Engenharia de Pernambuco, eram os engenheiros civis estrangeiros que construíam as grandes obras. Na etapa seguinte, a industrialização necessita do conhecimento da física-matemática. A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), cujo decreto de criação é de 1945, trouxe significativo desenvolvimento regional solicitando a participação dos engenheiros da Escola de Pernambuco. A interação cresceu a partir dos anos 1960, com a eletrificação da região e o aumento da geração de energia hidroelétrica, aplicando as equações do eletromagnetismo. Integrou a Eletrobras, sistema nacional de Centrais Elétricas Brasileiras, que foi privatizada em 2022.
A criação do Departamento de Informática, em 1983, foi a semente do Centro de Informática (CIn) da UFPE, criado em 1999. A interação com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), criada em 2011, resultou no credenciamento do CIn como uma de suas unidades em 2020. Nessa parceria, diversos projetos já foram realizados em conjunto com o setor produtivo.
Na guerra contra o México em 1846, os Estados Unidos anexaram mais da metade do território do país vizinho. Ao norte da nova fronteira, o desenvolvimento econômico e a sinergia com a educação colocaram Harvard entre as quatro melhores universidades do mundo. No país vizinho, a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), fundada em 1551, é uma das mais antigas da América e figura atualmente entre as quatro melhores Universidades da América Latina, ao lado da Universidade de São Paulo (USP).
Criada em 1934, a USP foi concebida como universidade de pesquisa e recebeu investimentos, apoio político e empresarial. Seu planejamento foi discutido na redação do jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão. Essa parceria, que se renova ao longo do tempo, cumpre o objetivo da Universidade: tornar São Paulo o estado líder no Brasil.
Em 1950, a ORQUIMA, uma empresa brasileira em São Paulo, produzia óxidos de terras raras de alta pureza, incluindo o Eu₂O₃, que foi enviado aos Estados Unidos e utilizado no reator nuclear do submarino Nautilus, o primeiro no mundo com propulsão nuclear. Diversos acordos estabeleceram a cooperação mútua entre os dois países, mas a participação do Brasil no desenvolvimento tecnológico foi sempre omitida.
Carros a gasolina e a óleo diesel, assim como todo o consumo de combustíveis fósseis, petróleo, carvão e gás natural, respondem por cerca de 75% do aumento da temperatura média do globo terrestre. Carros elétricos passaram a ser bem vendidos nos EUA, em 1912 e representavam a evolução tecnológica. No entanto, o eixo do tempo foi invertido. O passado continuou dando lucro às empresas de petróleo até hoje, com o aquecimento global ameaçando o futuro da vida na Terra.
O Brasil participa dos negócios do mundo vendendo café, carne, soja e minérios, desde sempre. Os produtos importados mudaram. No passado, compramos pessoas da África para serem a fonte de energia da nossa economia. Hoje, semicondutores, microchips e telefones celulares são produzidos em outros países
A cozinha perpetua a senzala; na sala, a TV oferece o futuro importado. A Lei das Cotas coloriu a universidade pública e gratuita de pessoas negras, pardas e indígenas, além de estudantes de escolas públicas: uma alternativa à senzala. Pesquisas acadêmicas e avaliações institucionais mostram que as cotas raciais e sociais não causaram baixa na qualidade do ensino nas universidades brasileiras. O debate público, quando produzido nos estúdios das TVs, tende a eleger a cor como a culpada.
O fogo destruiu a Biblioteca de Alexandria; a fogueira queimou o frade Giordano Bruno por criticar o geocentrismo, livros ainda hoje são queimados para apagar o saber. As chamas destruíram prédio na Universidade Federal de Pernambuco. Lembramos que as Universidades Federais ainda não recuperaram totalmente os recursos cortados pelo governo anterior.
Na reta final do segundo turno, um dos candidatos à presidência não assinou o termo de compromisso pela defesa da ciência, da democracia e da soberania proposto pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O presidente assinou o termo da SBPC e disponibilizou os recursos para a reconstrução do edifício na UFPE.
Em 1827, 90% dos brasileiros eram analfabetos. Educando, há 200 anos, pessoas que mudaram o destino da região Nordeste do país e construíram o patrimônio cultural e científico dessa região, a Universidade Federal de Pernambuco segue a sua missão de produzir conhecimento, a energia para criar o futuro.
Carlos Costa Dantas – Professor aposentado do Departamento de Energia Nuclear da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
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