Matemática e política: 6.231.985 eleitores e a vitória da democracia
Por Felipe A. P. L. Costa [*]
Uma mente educada deve estar preparada para o erro.
– Poh Pin Chin (1909-1984).
APRESENTAÇÃO. – As mobilizações em defesa da democracia ora em curso, seja nas ruas, seja nas redes, devem reverberar nas urnas no dia 25/10. Ainda que os veículos de imprensa (TV Globo à frente) sigam a esconder, distorcer ou mentir a respeito do que se passa nas ruas, sou de opinião que as forças democráticas [1] podem virar o jogo. Com base nos resultados do primeiro turno, apresento aqui um possível cenário de segundo turno. É um cenário hipotético, claro, mas é um cenário erguido com base em premissas explícitas e, ouso dizer, razoáveis. Não estou a prever os resultados do segundo turno, estou a apontar para os como e os porquês dos números que sairão das urnas. Entender melhor de onde virão os votos capazes de promover uma reviravolta nos resultados pode ser útil a quem está a lidar com ações que visam fortalecer o campo democrático.
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1. OS NÚMEROS DO PRIMEIRO TURNO.
Eis o que escrevi, dias atrás, logo após a realização do primeiro turno das Eleições 2026 (ver aqui):
“De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, 158.745.502 brasileiros estavam aptos e poderiam ter ido votar no domingo (4/10), no primeiro turno das Eleições 2026. Ocorre que muita gente não foi.
“Compareceram e votaram 125.275.835 eleitores […]. Implica dizer que [33.469.667] não compareceram […].
“Dos que compareceram, 119.300.788 eleitores produziram votos válidos. Outros 5.975.047 compareceram, mas não produziram votos válidos – digo: 2,300798 milhões votaram em branco e 3,674249 milhões anularam o voto […].
“Dos 119.300.788 votos válidos, 56.104.503 (47,03% dos votos) foram dados ao candidato vitorioso; outros 53.879.538 votos (45,16%) foram dados ao candidato que ficou em segundo lugar. Os demais 10 candidatos obtiveram juntos 9.316.747 votos […].
“Visto que ninguém obteve a maioria absoluta (leia-se: 50% dos votos + 1), os dois primeiros colocados vão agora disputar um segundo turno, marcado para o último domingo de outubro (25/10).”
Ao final do primeiro turno, portanto, saiu vitorioso o candidato do partido de extrema direita, vulgo Partido Liberal (PL). Em segundo lugar ficou o presidente Lula, candidato à reeleição e representante maior das forças democráticas. Muita gente imaginava que o presidente poderia ganhar a disputa já no primeiro turno. Seria o melhor para o país, mas infelizmente não foi isso o que aconteceu.
2. É POSSÍVEL VIRAR?
Sim, é possível virar e ganhar no segundo turno. Mesmo diante da vexatória (para não dizer criminosa) campanha pró-milícia que os veículos de imprensa estão a promover.
A reviravolta é possível, mas não será fruto de um ato único e isolado. É certo também que os números do primeiro turno não se repetirão. Haverá mudanças e, como o leitor talvez já saiba, toda e qualquer novidade que venha das urnas refletirá o peso relativo de três variáveis: (i) o número de eleitores que irão às urnas; (ii) o número de votos válidos; e (iii) as parcelas de votos dadas a cada um dos candidatos.
Para obter a vitória no segundo turno, claro, é necessário que o presidente Lula fique à frente do seu opositor. Lembrando que, ao final do primeiro turno, o bolo dos votos válidos foi dividido da seguinte maneira: (i) 56.104.503 votos (47,03%) foram dados ao candidato da extrema direita; (ii) 53.879.538 (45,16%) foram dados ao presidente; e (iii) 9.316.747 (7,81%) foram dados aos demais 10 candidatos.
3. QUATRO PREMISSAS.
O cenário que nos interessa aqui decorre de quatro expectativas.
Primeira. No segundo turno, o comparecimento às urnas deve aumentar de modo significativo – digamos, 6% (talvez mais). Um aumento de 6% fará com que a abstenção caia de 33.469.667 para 31.461.487 (ou menos). Para onde irão esses votos novos? Vamos supor que 60% sejam transferidos para o presidente Lula (seriam mais 1.204.908 votos), enquanto 40% sejam dados ao candidato do PL (803.272 votos).
Segundo. Considere agora que o número de votos válidos aumente uns 10% – digo: 10% dos eleitores que compareceram no primeiro turno, mas anularam ou votaram em branco, agora produzirão votos válidos. Mais uma vez, vamos imaginar que 60% desses votos sejam dados ao presidente Lula (mais 358.503 votos) e 40%, ao candidato do PL (239.001 votos).
Terceiro. Suponhamos que 20% dos votos dados no primeiro turno aos outros candidatos sejam agora transferidos para o presidente Lula (seriam mais 1.863.349 votos); outros 20% seriam invalidados (brancos ou nulos); e os 60% restantes seriam transferidos para o candidato do PL (mais 5.590.048 votos).
Quarto. Por fim, considere que alguns eleitores decidam trocar de candidato no segundo turno. Ao final desse troca-troca, imagine que 5% dos votos dados no primeiro turno ao candidato do PL migrem agora para o presidente Lula. Seriam mais 2.805.225 votos para o candidato do PT e, ao mesmo tempo, menos 2.805.225 votos na conta do candidato da extrema direita.
4. CENÁRIO DO SEGUNDO TURNO.
Dada a movimentação descrita acima (1-4), teríamos ao final do segundo turno as seguintes estatísticas:
(A) – o comparecimento às urnas aumentaria de 125.275.835 para 127.284.015 eleitores;
(B) – os votos válidos aumentariam de 119.300.788 para 120.043.122 votos;
(C) – o total de votos nulos e brancos aumentaria de 5.975.047 para 7.240.893;
(D) – os votos dados ao presidente Lula saltariam de 53.879.538 (45,16%) para 60.111.523 (47,23%), um ganho líquido de 6.231.985 votos; e
(E) – os votos dados ao candidato do PL saltariam de 56.104.503 (47,03%) para 59.931.599 (47,08%), um ganho líquido de 3.827.096 votos.
5. CODA.
Ao final da apuração, e diante de números semelhantes (ou melhores) aos mencionados em D e E acima, não restaria ao presidente do TSE – um personagem medonho que me faz ter saudades do folclórico Bola Nossa (ver aqui) – outra alternativa que não declarar a vitória e a reeleição do presidente Lula.
Os veículos de imprensa, claro, teriam de engolir seco. A Globo, quem sabe, ardilosa e cínica como uma serpente viciada em cocaína, trataria de convidar o candidato reeleito para um sarau da vitória à mesa do Jornal Nacional. (Eu não iria, mas aí já é outra história…)
Continuemos, pois, a arar a terra. Afinal, hoje é dia 13 e ainda temos um chão e tanto para cuidar até o dia 25.
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NOTAS.
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[1] O rótulo forças democráticas é usado aqui em alusão a um amplo leque de correntes e agrupamentos políticos, incluindo, por exemplo, desde ecossocialistas até reformistas de direita. Ficariam de fora desse leque os grupos terroristas de extrema direita (e.g., sionistas militaristas, bolsonaristas e neonazistas).
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