19 de outubro de 2026

O debate da Band em dez pontos, por Gilberto Maringoni

O DEBATE FOI DE BAIXO NÍVEL, mas não foi ruim. Para uma campanha em que os dois lados despolitizaram o primeiro turno, foi de bom tamanho.
Debate Band - EPA - Reprodução

A Band criou formato de blocos livres para debate entre Lula e Flavio Bolsonaro, promovendo confronto direto e controvérsias.
Flavio dominou o palco com agilidade e ataques teatrais, enquanto Lula tentou debater, mas mostrou falta de preparo.
Debate teve baixo nível e empate técnico; Lula desafiou sigilos, Flavio manteve liderança nas pesquisas a seis dias da eleição.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O debate da Band em dez pontos, por Gilberto Maringoni

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

1- A EMISSORA CRIOU UM NOVO FORMATO, de blocos de livre enfrentamento entre os candidatos. É algo interessante, pois desengessa o padrão de pergunta-resposta que, em geral, impede a controvérsia real. É um avanço, porém arriscado;

2- DIANTE DE ALGUÉM que faz do vale-tudo a regra maior, cada bloco se torna palco para baixaria aberta. Flavio Bolsonaro apresentou dois comportamentos; A. Agilidade mental e verbal e boa movimentação corporal; B. Não foi debater, foi lá para lacrar. Ou seja, entendeu corretamente que num debate eleitoral conta muito mais o desempenho teatral do candidato do que uma real troca de ideias ou confronto de projetos. Desfilou competentemente no segundo plano das cenas, fazendo caras e bocas, enquanto Lula falava. Buscava não apenas tumultuar, mas travar possíveis cortes que a equipe petista faria para distribuição farta nas redes.

3- A ASSESSORIA DE LULA não o preparou adequadamente para esse cenário, ou mesmo para um espetáculo. O presidente foi lá para debater. Seguiu a diretriz até a metade do primeiro bloco, depois de tropeçar nos petardos sobre Roberta Luchsinger e sobre seu filho Lulinha, além de se enrolar na questão acerca da criminalidade. Inutilmente, o presidente buscou explicações sobre os milhões para o financiamento do filme Dark Horse, matéria na qual o candidato do PL estava mais que preparado para se desviar;

4- FLÁVIO FOI MAIS CONCRETO sobre temas que tocam o cotidiano da população. Dirigiu-se para o telespectador e não para quem estava no estúdio, movimentando-se muito bem diante das câmeras, mesclando momentos de aparente seriedade com deboche e agressividade verbal desmedida. Foi certeiro ao falar do endividamento das famílias e da falta de carne na geladeira das pessoas. Dominou a cena diante de um Lula aturdido – que sequer tocou na fila do osso no governo do Bolsonaro pai – até a metade do primeiro bloco;

5- LULA CONSEGUIU tomar a iniciativa e colocar o oponente na defensiva quando mostrou que, como advogado, o candidato da extrema-direita defendeu o PM que assassinou Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, em 2021. Mesmo que não tenha ficado claro para a maioria, Flavio balbuciou desconexamente “justiça” e recuou. Em seguida, o petista quis saber o motivo do adversário ter se colocado contra o fim da 6X1 até o dia da votação e lhe cobrou a defesa da motosserra de Javier Milei para o Brasil. Nas três, Bolsonaro filho titubeou;

6- NO BLOCO SEGUINTE, Flávio defendeu a nomeação de Claudio Lottenberg para o Ministério da Saúde, “que fará o SUS ter padrão [Hospital Albert] Einstein. Lula encaçapou na medida: “Einstein? Quer privatizar o SUS?”. E desmontou o reacionário quando este anunciou que 70% dos presidiários votariam no ex-metalúrgico. “Só 70%? Eu quero 100%, inclusive seu pai!”.

7- O ESTILO PABLO MARÇAL de baixaria funcionou até certo ponto, nesse bloco, e depois se mostrou excessivo, servindo mais para consolidar a bolha bolsonarista. As pesquisas dirão se conseguiu ampliar as intenções de voto.

8- A MAIOR CARTADA DE LULA gerou constrangimento para Flavio: o desafio para que ambos abram seus sigilos bancários e telefônicos pessoais e das respectivas famílias. Flávio debochou, mas deixou claro sua negativa. Um ponto adicional a favor do presidente foi ele ter se dirigido por duas vezes às multidões que tomaram as ruas em seu apoio, nos últimos dias.

9- O DEBATE FOI DE BAIXO NÍVEL, mas não foi ruim, como alegam alguns analistas. Para uma campanha em que os dois lados despolitizaram o primeiro turno, foi de bom tamanho. Quem forçou a definição de projetos foram as ruas. Acima de tudo, a noite de domingo revelou a truculência de Flavio e a falta de treino de Lula, ao mesmo tempo que mostrou quem busca seriedade e quem quer demagogia. Virará algum voto? Difícil saber. Embates eleitorais na TV raramente colocam em cena projetos e programas reais, e muito mais o comportamento, capacidade de síntese e inteligência comunicacional de cada um. Ninguém se lembra de propostas reais na fase áurea dos debates televisivos dos anos 1980, quando pontificavam personagens de enorme talento, como Leonel Brizola, Janio Quadros, Paulo Maluf e Tancredo Neves, entre outros. Ficam seus desempenhos, acessíveis numa busca no YouTube. “Detesto debate com proposta”, disse uma vez o grande jornalista Aloysio Biondi (1935-2000), numa reunião de redação, nessa época. “Em geral são enfadonhos e difíceis de se assistir”.

10- FLAVIO SEGUE NA DIANTEIRA na maioria das pesquisas. A jornalista Maria Cristina Fernandes sintetizou bem a refrega nos estúdios da Band, em São Paulo: “Lula precisava de um nocaute que não houve”. Aconteceu um empate, com ligeira vantagem para o líder do PT. É pouco. A seis dias das eleições, o engajamento popular aumentou, a disputa se politizou e as bolhas se consolidaram. Uma possível virada ainda está a espera de um fato determinante.

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados